gafieiras

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Entrevistas de música brasileira

Plebe Rude

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26 05 2012

Punk à moda da casa

Clemente ri bastante. E olha, é um riso gostoso, daqueles que contagiam. Pode ser a lembrança de uma bobagem de moleque ou uma piadinha com alguém do meio musical. Difícil imaginá-lo de cara fechada, sisudo; mas foi esse garoto de 45 anos, nascido e criado na Zona Norte de São Paulo, que escre

26 05 2012

A minha Xuxa foi a Jovem Guarda

Ricardo Tacioli - Clemente, quais perguntas você não agüenta mais responder? Clemente - [ afina a voz e diz... ] "Você ainda é punk?" Ou aquela famosa: "Por que Inocentes, hein?" Ai, ai, ai. Tem água aqui e copo ali. Tacioli - Clemente, você já tem uma curta, mas bacana relação com o

26 05 2012

Confundiam meu pai com o Lupicínio Rodrigues

Tacioli – Qual era a profissão de seu pai? Clemente - Meu pai teve loja, mas o lance dele era estar na rua; ele era comerciante. No começo ele era o famoso ambulante, que nem o Silvio Santos. Depois abriu uma loja; teve umas duas lojas grandes. Tacioli - Loja do quê? Clemente - Ah, de tu

26 05 2012

Eu queria ser o Chuck Berry!

Dafne - E o que chamava mais atenção no rock pra você: o som ou a atitude? Clemente - Era tudo que o envolvia. Na verdade, eu gostava muito do rock in roll do anos 50, James Dean, aquela coisa toda, né? Eu gostava do Chuck Berry pra caramba. Na verdade, quando comecei a tocar eu queria ser o

26 05 2012

Meu sonho era ser zagueiro

Tacioli – Mas nessa época, antes de formar a banda, a música dividia atenção com quê? Clemente – Futebol, né. O meu sonho era jogar bola, era ser zagueiro. Tacioli – Zagueiro? Zagueiro do Corinthians? Clemente – Zagueiro do Corinthians. Mas do Corinthians comecei a gostar mesmo

26 05 2012

Virei um rocker bebedor de vinho

Tacioli - E o que motivou seu primeiro contato com um instrumento musical? Clemente – Na verdade, quando eu conheci o Douglas – ele tinha 14 e eu 13 -, ele já vivia numa cena rocker mais ampla. Eu vivia com a molecada do meu bairro, do conjunto habitacional. E a irmã do Douglas Viscaíno,

26 05 2012

Levantar da cadeira e virar o bolachão era uma interação

Tacioli – Clemente, você falou uma coisa bacana: você e o Douglas pegavam os discos e ouviam. Havia esse deslumbre com as novidades. Parece-me que nos anos 70 e 80 ouvir música era curtir um som com os amigos. Hoje, curtir um som é algo individualizado. Clemente – Até pensei num negóci

26 05 2012

Entrevistamos a nossa banda preferida, o Made in Brazil

Dafne – Você falou que o Douglas foi aprendendo a tocar guitarra e você com ele. Era aprender ouvindo a música e tentando repetir ou... Havia algum método? Clemente – Ouvir e tentar repetir no começo. O Douglas era muito bom nisso. Tirava as músicas do Black Sabbath perfeitamente, incl

26 05 2012

Você gosta de Led Zeppelin? Eu gosto de New York Dolls!

Tacioli – Você tinha um bode ou inveja do Douglas, que solava, e você não? Clemente – Não, ficava à vontade. Eu tinha alma de baixista sem saber. Eu era guitarrista, fazia base na boa. Quando me deram o baixo, eu me descobri. Adorava tocar baixo. Tacioli – E quais eram as suas refer

26 05 2012

Virei punk por causa do Billy Idol

Dafne – Quando vocês fizeram as primeiras composições do Restos de Nada estavam ainda nesta fase rock-não punk? Clemente – A primeira música que escrevi, que se chama “Restos de nada”, fala: “Nós somos a verdade do mundo / Somos o restos de nada / À noite nós vagamos por aí /

26 05 2012

O Restos de Nada tocava um cover de Geraldo Vandré

Tacioli – No primeiro momento, o punk parece muito musical e comportamental. A partir de que momento as letras começaram a expressar a realidade? Teve isso? Clemente – O punk nasceu no meio dos proletários. Uma das influências do punk brasileiro é a música estudantil: Paulo Cesar Pinhei

26 05 2012

A discoteca foi a idade média do rock brasileiro

Tacioli – No começo existia essa vontade de fazer parte de uma gangue. Clemente – Na verdade, no começo era a nossa turma, que estudava no mesmo colégio, no mesmo bairro, a gente ia nos mesmos lugares. Não tinha isso de “Vamos formar uma gangue”. Tacioli – Era uma turma. Clement

26 05 2012

O centro de SP se tornou o nosso habitat

Tacioli – Clemente, você falou muito do cara que curtia o Peter Frampton, o bem-cheiroso... Clemente – O bundengo... [ ri ] Tacioli – que ele se dava bem com a mulherada... Como era a relação das mulheres com vocês, porque sempre tinha muito homem? Clemente – Horrível, né? Show

26 05 2012

O punk propiciou o nascimento do rock paulista

Tacioli – E nessa época, nos anos 80, musicalmente havia na cidade não movimentos organizados, mas o que depois se chamou de vanguarda... Como era essa convivência? Clemente – Em 79, quando a gente ouviu o disco do Arrigo, o Clara Crocodilo, a gente pirou. Do caralho! Um disco que acompan

26 05 2012

Sou músico antes de mais nada

Tacioli - Esse ecletismo da primeira geração do punk paulista/paulistano é o que motiva essa acusação de traição? Clemente - Não. Esse lance de traição veio num momento assim: a gente conseguiu construir a cena punk, conseguiu construir um movimento, as gravadoras lançando as bandas e

26 05 2012

A briga (do punk) começou por treta de mulher

Dafne - Esse momento da ruptura, da queda e da quebra do punk deve quanto às bandas da capital e do ABC? Clemente - (As bandas) não se bicavam; havia uma divisão mesmo. A gente conseguiu juntar as bandas de São Paulo. As do ABC foi um trabalho. Pra fazer oComeço do fim do mundo tiveram que

26 05 2012

O Kid Vinil era da nossa turma

Tacioli - Clemente, você falou que o punk era muito coletivo - a criação, a sociabilidade. Hoje o punk seria viável? Clemente - Cara, engraçado, não sei, esse negócio de internet aproximou tanto, mas ela é muito individualista. Vejo a minha filha: ela não sai do quarto dela... Tacioli

26 05 2012

Foi a coisa mais estúpida que vi escrita sobre o punk

Tacioli - Você falou que ir pro ABC é coisa de um diplomata. Quando e de que forma isso – ser um porta-voz - se manifestou em você? Clemente - Não sei, cara. Sempre tive essa coisa de chamar. Nunca fui um cara que gostasse de segmentar. É engraçado: na turma punk da Carolina, tinha o Ped

26 05 2012

Maiakovski era o meu ídolo

Tacioli - Mas tiveram outros momentos em que você sentiu a necessidade de se expressar como na carta? Clemente – Sim. Aí fiz o famoso manifesto, que foi na (revista) Galery Around, que tem a frase “Estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, para atrasar o Trem das Onze,

26 05 2012

Então não sou punk!

Tacioli - Foi nesse sentido que perguntei se esse ecletismo motivava essa história “ Ah, os traidores...". Você eram muito mais ecléticos... Dafne - É posterior. Clemente - É posterior. Houve uma hora em que falei: "Meu, chega! Vocês são os punks, eu não sou mais". Fui a um show punk

26 05 2012

“Cadê o movimento punk para comprar o nosso disco?”

Almeida - Clemente, essa rede de comunicação que vocês criaram analogicamente com as cartas chegou a ser musical, no sentido de vocês irem pra lá ou deles virem pra cá? Clemente - O Cólera foi depois. Então essa cena alternativa, esses shows que o Ratos de Porão faz lá fora nasceram a

26 05 2012

Um skinhead nazista é um paradoxo

Tacioli - Clemente, o que te dá prazer em cantar? Clemente - Prazer em cantar? Tacioli – Músicas que te dão prazer, fora aquelas que sempre canta. Clemente - Puta, cara, essa pergunta é difícil porque canto meio de tudo. É engraçado porque sempre cantei as minhas músicas, nunca cant

26 05 2012

"Midani, dá para depositar uma grana na minha conta?"

Dafne - Clemente, você falou que casou cedo, está com uma filha já mulher, com 19 anos. Como foi isso pra sua vida, o que mudou? Clemente - Ah, tive que parar de beber, né? [ risos ] É difícil você encher a cara a noite toda e acordar cedo pra cuidar de nenê. Você tem que começar a ter

26 05 2012

Era do caralho fazer o Perdidos na Noite!

Tacioli – Os artistas novos ainda têm uma expectativa com a gravadora, dela ser a matriarca que banca tudo. Mas a realidade é outra. Clemente – Na época, ser independente é ser dependente, né? Dependente da sua própria grana pra investir, entendeu? E na década de 80 não existiam os m

26 05 2012

É legal envelhecer e não ser saudosista

Tacioli - Clemente, é duro envelhecer? Clemente - Não, é bom. Hoje as coisas são mais fáceis. Tacioli - O que é mais fácil hoje? Clemente - Pô, é mais fácil entrar no palco, é mais fácil fazer um show, é mais fácil fazer uma entrevista, é mais fácil chegar a um resultado que v

26 05 2012

O emo poderia ter qualidade

Tacioli - O peso das letras é muito importante pra você? Clemente - Ah, sim, é. Tacioli - Mas você tem esse barato de uma banda que musicalmente é legal, mas as letras nem tanto? Clemente - Sim. Às vezes as letras são assobiáveis, mas doem. Fui tocar com o Cascadura. O disco deles é

26 05 2012

O Bivar vai pra Patagônia de ônibus com 70 anos

Tacioli - Clemente, estamos terminando; já são mais de duas horas de entrevista... Clemente – Caralho! Tacioli – Mais alguma questão? Almeida – Da parte que eu peguei até aqui foi ótima. [ risos ] Tacioli - Tem alguma coisa que te dá medo hoje, você que foi um cara de gangue?

26 05 2012

Hoje em dia qualquer idiota pode ser VJ da MTV

Tacioli - Clemente, e qual é o papel da MTV pra música brasileira? Clemente - Pra indústria da música brasileira, sim. Pode-se falar que existia a época pré e pós-MTV, né? Mas ela criou uma falsa ilusão na época “Pô, Nirvana, as bandas, atitude, MTV ! Era só você estar lá que est

26 05 2012

O adolescente hoje tem muita informação, mas superficial

Tacioli - Você falou bastante dessa literatura de revista dos anos 70, 80. Tinha a Pop, SomTrês... E hoje, você acha que existe um público que consome as publicações? Clemente -Sim. Tanto é que essa Rolling Stone nova é muito boa, a Bizz, que voltou com o Ricardo Alexandre, está do cara

26 05 2012

Faço uns trabalhos de produção pra pagar as contas

Tacioli - Clemente, obrigado pela oportunidade. Clemente - Você abusaram de mim, né? [ risos ] Dafne - É o que a gente faz melhor: abusar dos outros. Tacioli - E futebol, você tem jogado? Clemente - Joguei uns Rockgol [ n.e. especial anual da MTV com jogos de futebol entre artistas ]