gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Itamar Assumpção

resultado encontrado

10 07 2012

Com quantos nãos se faz um som

A notícia tocou mais que sua música e correu rápida. Itamar havia morrido. Talvez já estivesse cansado. A gente nunca sabe. Hospitais, remédios e médicos cansam qualquer um. Mas o discurso articulado, cheio de braços e artérias, seguia contundente. Chicoteava o pop, as gravadoras, os vizi

10 07 2012

Na casa da Alzira

Faz um tempo. Cinco anos. Estava terminando o curso de Ciências Sociais na USP, era o 1º semestre de 1998, e editava com um grupo de amigos uma revista chamada A Nível D. Era o número 2 e o tema, Brasilidade. Pra falar disso, sem pegadas acadêmicas, utilizamos ficção, fotografia, ilustra

10 07 2012

O passo que resolvi dar foi o da independência artística

Itamar Assumpção – Na música, na linha da evolução da música brasileira, que foi lá... que a última história sobre isso daí foi o tropicalismo, então, considerou-se que de lá pra cá nada mais aconteceu, isso já deixou de existir há muito tempo, porque a música do anos 80 que sur

10 07 2012

O Arrigo é um compositor erudito. Qual é o problema?

Itamar – Eu tocava baixo com o Arrigo na banda Sabor de Veneno, e fazia arranjos de base com o irmão dele. Então foi uma coisa que eu me preocupei em aprender, porque um descendente de escravos não vai saber o que é serialismo, mas também um europeu não vai saber dizer no pé. Tem uma con

10 07 2012

A única alternativa que surgiu foi essa música de SP

Itamar – Então, acho que esse tempo de 18 anos em que gravei o Beleléu, que tem também o Clara Crocodilo, deu pra ver que a música brasileira ficou um pouco mais complicada do já era. A cultura musical é barra pesada pra você que chega como compositor. Não é gracinha, não dá pra segu

10 07 2012

O pop não tem compromisso com Adoniran, com Ataulfo

Itamar – É que de repente ficou mais simples falar assim, o Itamar é maldito, só porque eu não quero fazer um disco daquela forma tradicional. Se for assim, tá certo, mas dizer que a minha obra é maldita está errado. Se a minha obra, que faz parte de uma tradição criativa, é maldita,

10 07 2012

Não sou advogado, médico ou pedreiro. Sou músico!

Itamar – A cultura é muito difícil, principalmente a brasileira, acho que é uma complicação da cultura. Cadê raiz? Não tem raiz. Podem falar um monte de bobagens, por exemplo, você pode falar pra mim, seu negro, isso e aquilo, e eu olho pra você e falo, “Ah, você é um quibe, vai l

10 07 2012

Ficava lá no período de férias, jogando truco e malha

Itamar – Eu nasci em Tietê, 1950, fiquei lá até os 14 anos, daí fui pro Paraná, Arapongas, e fiquei até os 23 anos, quando me deram um pé na bunda, chega dessa vida boa do interior, vá procurar sua turma. Eu cresci bem, cresci muito bem assim, ia pra roça no Paraná, eu gostava de fica

10 07 2012

Fui pra Portuguesa de Desportos. Era centroavante

Itamar – Eu fiz teatro lá em Londrina, Paraná. Era um grupo que tinha ótimos atores e montava Arena conta Zumbi, Arena conta Tiradentes, remontava essas coisas lá no Paraná. Eu estava no colégio. Com meu irmão eu fiz uma peça, assim... a gente gostava da coisa, ele escreveu e saiu bem.

10 07 2012

Quando você se depara comigo, você se depara com surpresa

Itamar – No teatro, tem uma coisa assim: os atores falam, com relação a televisão e o mercado, que eles preferem o teatro como exercício da atuação. A televisão é um barato, mas não dá o aqui e agora do negócio. Pra mim, o que acontece, é que eu não tenho esse problema, não sou co

10 07 2012

O Ataulfo veio em meu socorro

Itamar – Quando fui fazer o Ataulfo, tinha acabado de fazer o Bicho de 7 cabeças, em dois volumes com a banda Orquídeas, um grupo de mulheres e tal. E ali, como compositor, vi que eu estava já num estágio de avançar e ficar incompreensível. Eu tava correndo esse risco ali. Então, parar p

10 07 2012

O que vale é o sentimento do poeta que fez da sua vida sua obra

Itamar – O que eu quero dizer é que Pretobrás é a liberdade do compositor depois de 18 anos do primeiro disco, é a liberdade de escolha, uma liberdade de vida. Olhe bem, tem essa música que gravei pra esse disco, “Dor elegante”, letra do Paulo Leminski, é uma música que fala da dor d

10 07 2012

Não aguento ficar olhando as belezas do 1º Mundo

Itamar – O humano e o profissional estão misturados, principalmente no Brasil. Eu tô aqui dormindo na casa de uma amiga, porque é mais perto do estúdio. Não tenho que vir da Penha todo dia e voltar. É uma forma humana pra fazer, que nem meu primeiro disco, o Beleléu, que foi feito assim.

10 07 2012

Domador de parábolas

Do metrô saltamos na Penha, na Penha onde passei os primeiros anos da minha vida. Nada lembro, nada trago da Penha, mas nesse dia encontrei algo por lá. Nego Dito, descomplicando Arrigo, sambando quadrado na Alemanha, verdades esfumaçadas na sala apertada de retratos. Estávamos fazendo u

10 07 2012

“Olha, comecei a compor. Que cê acha?”, disse a Ná

Max Eluard – Itamar, quem é a Ná Ozzetti pra você? Itamar Assumpção – É aquela artista, assim, como a Virgínia Rosa também, que começou de uma forma independente da grande mídia. A Ná com seu grupo, que fez belos trabalhos, o Rumo, um pessoal desenvolvido musicalmente. Mas eu ac

10 07 2012

Você tem que ter a sua linguagem como compositor

Itamar – Aí ela viu esse lado e me perguntou. Minha resposta foi... Vieram uma música e uma melodia, então somente escrevi uma letra. Então, minha resposta foi essa, uma parceria já de cara. Então, a gente é... A gente se uniu mesmo naquele momento. A gente, claro, um admirando o outro o

10 07 2012

Alguém criou uma melodia eterna

Itamar – Aí chegou o momento que, como compositor, eu teria necessidade de olhar pra esse lado especificamente. E o que me deu um toque foi um show que fiz com a Tetê Espíndola lá no meio da Bahia, Cachoeira de São Félix, onde todos conheciam a Tetê, e eu, um anônimo por excelência, co

10 07 2012

É bobagem falar que o Arrigo é complicado

Itamar – Tive uma época em que eu era tão vinculado ao Arrigo que o pessoal achava que era é igual, né? Eu tenho que entender o Arrigo como músico, como arranjador, como intérprete, pra cantar aquela música que é atonal. É outro papo. Assim, o meu natural é o batuque. Os pretos trouxe

10 07 2012

Vou deixar o Itamarzinho um pouco e vou estudar

Itamar – O que entendi quando comecei a compor é que não adianta você pegar o violão e fazer uma musiquinha. No Brasil, pra que vou fazer isso? Pego Lupicinio e canto. Fazer musiquinha? Não vai dar certo, essa coisa que não tem jeito, você é medíocre. E não vem com história “O merc

10 07 2012

Sou poeta não!

Itamar – Então, tem uns negócios que você, que é brasileiro, inventa. Só no Brasil é possível uma música tão diversa... Aí dentro dessa – eu acho que é isso – você tem o intérprete, o compositor, o arranjador, o poeta, né? Porque há compositores que não são poetas, como Mi

10 07 2012

Corre atrás aí que é você quem está atrasado

Itamar – E eu tô mais ou menos assim... Ultimamente, não estou querendo ensaiar. As músicas estão querendo me matar, “Olha, eu vou ensaiar uma vez só, hein? Daí não vou ensaiar mais. Vocês ensaiam, né?” Porque chega uma hora, não sei mesmo... Fui para o Rio de Janeiro na semana pa

10 07 2012

O artista é um artista, acabou

Itamar – Quando eu tava entubado lá na UTI, que ia a Zélia Duncan, a Rita Lee, a Ná, aquilo pra mim era o verdadeiro, o sincero, independentemente do bagulho, o lado humano. Isso também vou desenvolver, longe das panelas, das obrigações, dos castelos, do status de ídolo e tal, fazer gên

10 07 2012

Chamam o Maluf de turco. Pô, o cara é libanês!

Itamar – Porque não adianta falar pra mim que tem um pop. Então pop vale tudo. Pop o que é? É pagode. É tudo pop. Que porra é essa? Mas eu não tô falando disso, eu tô falando da história. Mas a história está encoberta por uma nuvem que não é passageira, que faz tempo que está aí

10 07 2012

Fui operado 3 vezes em 20 dias

Itamar – Desde que eu me conheço por gente, que o Itamar Assumpção tá lá naquela, é maldito. Bom, esse maldito quer dizer o quê: livre. Roberto Carlos não é livre. É maldito quem é livre. Não fazer isso mesmo, não vai entrar a minha doença na roda. Fui operado 3 vezes em 20 dias,

10 07 2012

Os homens vão passar e me prender!

[ Carro com auto-falantes passa vendendo pamonhas] Itamar – Isso é direto, os caras detonam... Rogério – É carro do quê? Max Eluard – Acho que é pamonha. Itamar – Tem pamonha, sorvete... Rogério – É pamonha. Itamar – Mas esse tem sorvete, também. Esse cara vende

10 07 2012

Quem tá aí com Jackson do Pandeiro?

Itamar – Mas sobre a Ná, o que eu tinha pra dizer é essa abobrinhada toda. Aí eu vejo como ela gravou Rita Lee, volta àquela questão do Itamar gravando Ataulfo. Quero dizer, um compositor-cantor interpreta um compositor-cantor da MPB, ou um compositor sei lá, uma obra. Ela está preparad

10 07 2012

Aconteceu comigo na Alemanha

Itamar – Eu consegui ver isso, que eu posso contribuir livremente, me entregar livremente a uma interpretação de uma obra sem estar vinculado a nenhum pretexto. Então, nesse sentido, ninguém melhor que a Ná, que tem essa coisa desenvolvidíssima. E que é muito importante pra quem vai ouvi