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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 8/26

Quero mostrar outras culturas para meus filhos

Max Eluard – E valeu a pena ter ido à Casa dos Artistas?
Xis Eu não avalio assim, “Ah, valeu a pena?”, porque pra mim não acabou ainda. Talvez a gente esteja conversando hoje aqui por causa dos baratos da Casa, de certa forma, ou por causa da 4P, ou por causa do disco, ou ainda por causa do programa que tenho na Jovem Pan. É muita coisa acontecendo, tá ligado? A gente vai saber se valeu a pena daqui a alguns anos. A gente saberia se os caras fizessem outra Casa e tivesse um Sabota [n.e. O rapper Sabotage, nome artístico de Mauro Mateus dos Santos, assassinado no dia 24 de janeiro de 2003], por exemplo. Um cara que, com certeza, iria e iria arregaçar, entendeu? A Casa pra mim foi da hora, mas foi ruim porque passei antes por um momento muito difícil. Já que a gente está falando disso… Eu estava no trânsito, saindo do estúdio e faleceu um amigo meu. A gente em três carros, saindo do estúdio… Havíamos parado no Sujinho, batido um rango, todo mundo trocando idéia na mesa. Saímos de lá e uma lotação pegou no meio do carro e o arregaçou no meio. Fiquei dois dias sem dormir porque outros dois amigos estavam em coma. Um perdeu uma vista e o outro está se recuperando agora. Caras sem a menor estrutura. A gente não tem estrutura, pô! Plano de saúde, pá! O Silvio Santos liberou o médico dele! Eu não ia entrar no barato. Falei, “Mano, não tô com cabeça pra entrar nesse barato.” A gente havia acabado de tocar no Rec Beat, em Recife. Voltamos tirando onda, botando banca, trocando idéia e abri pros caras, “Mano, vou participar desse barato aqui, é isso mesmo, tá ligado?”. E o recado dos caras era, “Puta, mano, a Tiazinha, truta! [risos] Se você comer a Tiazinha, mano… Tiazinha, truta. Missão, missão Tiazinha.” “Firmeza!”, mas pensando em outras coisas, tá ligado? Porra, é isso, é isso, cuidado com isso, com aquilo. É o momento pra falar disso, pra não falar daquilo, sabe assim? Juntei todas as merdas que eu já tinha falado, juntei as coisas boas, as coisas positivas, mas entrei a-ba-la-do no negócio. Eu não podia participar de uma gincana, porque ia ser uma festa e, pô, um amigo tinha acabado de ser enterrado, não havia sido realizada nem a missa de sétimo dia. A Cohab inteira chateada por causa disso. Porra, ali no bairro sou conhecido. A Cohab é como se fosse um bairro, uma cidade do interior. Quer dar uma olhada na matéria? Pegue sábado agora, se fizer sol, e vá um de vocês lá pra Cohab. Pare no posto. Você vai ver a sorveteria, o pessoal andando de moto, todo mundo chamando um pelo nome. Então, abalou pra caralho, e eu não queria ficar fazendo festa na televisão. Só que é foda, eu estava num conflito entre o meu bairro e o resto do Brasil, entendeu? Então, o Xis só dorme? Dorme o caralho, a maioria das vezes ali eu estava acordado, véio! Só que eu ficava na cama, não estava com espírito pra dialogar com ninguém. Capaz de eu xingar, fazer uma merda, qualquer coisa do tipo. E aí eu ia me foder. Ia me foder porque seria detonado, tá ligado? Ou não. Foi quando pintou a Carola, né, véio? “Pô, Carola vai ser foda!” Falei, “Vou sair dessa porra!” Aí fugiu do controle. Nessa época eu me senti meio que… Eu acessava a Internet e via as coisas, “Puta, não é isso…”. Eu ligava o rádio e escutava alguém falando. Abria o jornal e era outra pessoa falando outra coisa. Telefone tocava com gente que eu não conhecia, ou com gente que eu conhecia… E coisas absurdas, desde político importante a modelo, desde gente de televisão e de rádio a banda de rock e de samba. Essa época foi foda! Mas fora isso aí… Eu não sei, quando é que a gente tem controle das coisas na vida? É que nem a história dos filhos, de estudar… Porra, quero, quando meus filhos tiverem uns cinco, seis anos, pegá-los para mostrar outros lugares, outras culturas, porque eles já são brasileiros, tá ligado? Eu queria. Ah, Cuba! Ah, Nova York! Ah, França! Ah, Porto Alegre! Ah, Rio de Janeiro! Sabe assim?

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Hip hop
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