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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 7/26

Sempre reclamei que tinha que ter preto na televisão

Tacioli Na hora dessa reunião, você sentiu algum tipo de medo, ou chegou a pensar ”Minha vida vai mudar”?
Max Eluard E eu queria complementar. E, nessa hora, o que te fez intimamente decidir?
Xis Parada de mídia, mano. Fui escolhido pra ir pra Casa dos Artistas, mano! Desculpa, eu fui escolhido pra… não sei dizer… Ah, foi Deus, foi o Silvio Santos, foi Beltrano? Não sei. Fui escolhido e sou um dos caras mais conhecidos do país, entendeu, véio? Sou conhecido até fora do país por causa dessa porra. É difícil você chegar a 80 milhões de pessoas. É difícil você falar pra 80 milhões de pessoas, “Eu sou o Fulano”. Você não ter que se apresentar… Desculpa, eu não sei o nome de ninguém aqui. A gente vai ter que se encontrar mais umas vezes pra eu me lembrar, mas sou conhecido hoje na porra do país inteiro. Mas eu já era conhecido, hoje sou mais. Fui escolhido pra essa porra, véio. É, eu tinha que pensar, “Eu vou ou não vou?” Eu parei e pensei, “Porra, canto rap, sempre reclamei que tinha que ter preto na televisão, sempre reclamei disso e daquilo, entendeu?” Eu acho que ir fazer um trampo desse… Ah, agora vamos discutir aqui o que é um reality show? O que se ganha e o que se perde com isso, qual é a temática do programa, é um programa do caralho ou não? É outra conversa, entendeu? Existem vários programas humorísticos que são da hora ou não, existem vários sites de entrevista que são da hora ou não. Aí é outra questão.
Seabra Você tem essa liberdade pra lidar com a mídia, fazer esse diálogo, mas tem também a consciência de fazer a autocrítica. E qual seria o problema, então, de ter uma música sua tocando na novela? Aí já é outra coisa?
Xis Pra mim é, porque os caras vão ganhar dinheiro com a minha música e a gravadora não está nem aí pra mim. Eles querem a minha música somente pra ganhar dinheiro.
Fernando de Almeida – O medo é de se queimar, então.
Xis Não. Vamos falar de Warner? Porra, entrei na Warner com o Rodox, com a Kelly Key, e com o Anjinho. Então, porra, ia falar para o presidente, “Pô, e aí? Vamos a uma danceteria? Vamos ver o show do De Conceito? Quer ver um show de rap nervoso, foda, bom pra caralho? Vamos ali em tal lugar?” O cara não tava com tempo porque ele é um executivo e tem que pensar em números. E aí ele estava preocupado com o Anjinho, entendeu, mano?
Max Eluard – Anjinho é o Robinson? [n.e. O cantor Robinson Monteiro, revelado no programa Raul Gil]
Xis Anjinho é o Robson. Então, foi foda, fiquei nove meses indo à gravadora. Indo não, que eu não sou de fazer média. Isso até acabou fazendo falta, mas não sou de ficar fazendo média, puxando saco de ninguém. Às vezes em que fui, era Anjinho e Kelly Key, entendeu, véio? Nada contra o trampo deles, mas os caras não tinham tempo pra mim. E qualquer coisa que eles fizessem comigo ia ser pensando em dinheiro, ia ser de qualquer jeito, não ia ser um negócio em que eles iam estar realmente a fim de fazer. Então, falei, “Pô, a gente não tá numa vibe. Infelizmente eu colei aqui numa hora ruim”. E sem contar assim, o Xis tem 200 contos pra ser trampado e o Rodox tem 500. O “Chapa o coco” foi um clipe que fiz com uns amigos e, porra, foram três mil reais. Ganhamos o VMB. Os caras gastam 30 mil reais num clipe da Kelly Key, mano. Aí, eu queria ser artista, tá entendendo?
Fernando de Almeida – Imagine o que você não faria com trinta paus…
Xis Tá entendendo? Porra… A promoção que eu queria fazer com a MTV e, que eu enchi o saco, era doar livros, Fortificando a desobediência, “Vamos doar 100 livros”. O cara vai mandar a carta e concorrer a livro. Não rolou. Os caras não estão a fim. Pô, eu gostaria muito de ser contratado da Sony, ser contratado da Warner, pegar umas festas com a Madonna, entrar assim, tá ligado? De Armani, e a Madonna ali, pagar de superstar, tipo o Bono, saca a viagem? [risos] Mas não rolou… É difícil, a gente está em outro país, são outras histórias, é outro momento e não rolou. Aí eu não vou dar música pros caras fazerem isso. E outra, é uma coisa que eu gosto e eu acho que tem que ter um certo trabalho. Você fazer uma música do Paulinho da Viola, do Elton Medeiros… Eles têm um monte de música romântica, que é bonita, mas tem um certo conceito, tem um certo trabalho. E, aí, pô, pelo Xis ser uma personalidade, os caras querem usar de qualquer maneira, entendeu? Não sei… não vejo problema nenhum no Maurício Manieri, na Kelly Key, no Latino, mas, sei lá…
Tacioli – Houve algum momento em que você sentiu que a coisa saiu do controle? “Agora está fodendo…”?
Xis Na época em que saí da Casa foi foda, porque era muita gente escrevendo e você não tem condições de conversar com todas, ou explicar pra todas o que está acontecendo… O negócio da Casa foi um absurdo. Absurdo mesmo! Tipo do telefone tocar dezoito horas por dia, direto, tá ligado?

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