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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 4/26

Tenho escutado música eletrônica

Monteiro Essa garotada – mais do rap que está começando, não se sente muito à vontade com a denominação “artista”. Uns até dizem, “Artista, não, cara. Sou terrorista, guerrilheiro!”, ou qualquer coisa parecida. Mas, numa definição aurelística, é exatamente isso que você está falando, é um cara que vive de arte.
Xis Se eu queria ser artista? Queria ser, sim, véio, gostaria ter um puta show, tá ligado? Com luz, morô, mano? Com alguém fazendo a direção de arte, com um som bom. Queria, de repente, fazer teatro, cinema, estudar mais. Pô… queria! Quando falo que não sou artista, ou, que não me considero, é porque as coisas que fiz, fiz com muita intuição. Eu era do DMN que, porra, começou em 89 lá em Itaquera. Eu e mais uns amigos participamos de uma fase na cultura hip hop que era dos discos independentes, feitos por gravadoras que promoviam bailes como o Chic Show, Zimbabwe e Black Magic. Tenho o maior orgulho de ter participado do Consciência black vol. 2, um disco feito pela Zimbabwe [n.e. O D.M.N. integrou a coletânea, lançada em 1992, com “Mova-se”]. No vol. 1 [n.e. Lançada em 1988] saíram os Racionais (“Pânico na zona sul”), Sharon Line (“Nossos dias”). Participamos do segundo. Depois de quatro, cinco anos, conseguimios lançar um disco, o Cada vez mais preto, que acho que é um dos discos mais políticos da história da cultura hip hop. Fizemos com dinheiro próprio. Quatro anos depois consegui ter uma música numa coletânea do DJ Hum. Estar no estúdio com o DJ Hum já era o máximo, mano. “De esquina” estourou. Abri um selo logo depois com um amigo e, com quatro mil reais, a gente fez o Seja como for, mano, que vendeu mais de 50 mil cópias. Eu prensei 48 mil cópias, fora as bicas que eu tomei, tá ligado? Com os piratas, acho que deve ter chegado nas 100 mil, falando isso humildemente… Agora, porra, vamos falar de arte? Talvez daqui a alguns anos, daqui a muitos anos, quando essa porra sumir e o cara for estudar e ver como a coisa toda foi feita – os equipamentos e a grana que a gente tinha (6 mil reais) -, vá falar, “Puta, fizeram aquilo com esse dinheiro?. Daí talvez seja considerado arte, mas hoje… Esse barato de artista é meio complicado, mas olha, eu queria ser artista, sim, mano. Eu gostaria de ler a crítica e falar, “Porra, do caralho!”. Mas estou num outro momento que é, porra, vou fazer um disco agora. Gosto e tenho escutado música eletrônica pra caralho. Quando falo música eletrônica quero dizerdrum’n’bass e um pouco de nu jazz, tá ligado?.
Tacioli – O que você está ouvindo?
Xis Ah, esse tal de Jazzanova, um povo daquele selo Compost. Sou péssimo pra decorar nomes. É da Europa, faz uns jazz, até algumas coisas com alguns brasileiros que tão perdidos por lá, eles acabam gravando. E gravando em português, uns negócio mais tranqüilão, mas acho que não é a minha praia, mas é o que eu tenho escutado, entendeu? E agora estou fazendo um outro disco… Tenho escrito algumas coisas, mas eu não sei o que é ainda… Mas não é nada, vamos dizer assim, artístico, tá ligado? Não é nada que eu vá fazer pra depois ir à televisão, ou fazer isso e um videoclipe, não! O Fortificando, o último que fiz, fiz sozinho. Fui pra Cuba sozinho, gravei sozinho, passei seis meses indo pra rodoviária do Rio cheio da grana, porque eu tava vendendo pra caralho o Seja como for. Tinha conseguido juntar uma grana. Escolhi e paguei os produtores. Ligava pro KL Jay e falava, “Mano, vem pro Rio”. Ele ia de avião e eu de ônibus. Eu não estava pensando, “Ah, sou artista, vou fazer tal coisa…”.
Seabra Mas você estava curtindo fazer aquele trabalho.
Xis Estava.
Monteiro Mas essa coisa meio intuitiva é comum na música, né? Quando a gente olhar pra trás, vamos falar, “Porra, isso era legal, era arte!” Com o punk foi assim.
Max Eluard Foi execrado.
Monteiro – Hoje o punk é arte, tá na história da música.
Xis – Mas aí virou um mercado, né? Falo assim porque eu não entrei pro mercado, tá ligado? É difícil você entrar no mercado, né? As bandas de punk hoje… Não sei muito da história do Nirvana, mas umas bandas que fazem punk-rock que as gravadoras trampam, chegam vendendo uma parada, entendeu? O que o Xis, às vezes, chega vendendo, chega falando, são coisas naturais, assim… O Poder para o povo pretoquando tatuei, não foi para os outros moleques tatuarem também. Maior viagem. É claro, tive a idéia, depois todo mundo tatuou um monte de coisa. Hoje você vê uma pá de cara com os braços tatuados também, tá ligado? Não faço isso pra ser multiplicado. É claro que existe um mercado, um mercado de música. É claro que existe um mercado de hip hop no mundo inteiro.
Tacioli Mas você acaba sendo uma referência. Você tem essa noção?
Xis Eu tenho conciência disso. Aí é foda porque você pode trabalhar isso de várias maneiras, para o bem e para o mal, né?
Tacioli Por mais intuitivo que seja, você tem que zelar isso.
Xis Eu fiz o meu disco sozinho e depois acabei negociando-o com a Warner, tá ligado? E oito meses depois fui pedir pra sair da Warner. Não sei como isso vai ser pensado daqui algum tempo, como é que as pessoas vão analisar isso.

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Hip hop
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