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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 3/26

O Xis é um personagem que criei

Tacioli Você sonhava ser jogador de futebol?
Xis Fiz peneira e o caralho, véio. Fiz peneira no Juventus e no Corinthians. Eu não era ruim, não. Na escola, joguei duas copas da Taça Jovem Pan. Fui titular na escola lá de Itaquera em que eu estudava.
Max Eluard Jogava o quê, Xis?
Xis Salão. Eu queria sempre estar perto do gol pra poder marcar, né, mano? [risos] Queria marcar gol. Ficava ali de meia-direita, mas acho que não era muito a minha, não. O barato sempre foi mais música mesmo, tá ligado? Eu trabalhava de securitário no Real, com 17, 18 anos de idade, mas era apaixonado por música. Era apaixonado por rap, por baile, tudo. Pedi a conta e fui trabalhar na Galeria do Rock, mas na do rap, em uma loja de CD, porque eu queria ter CD, véio. Queria escutar as músicas, queria estar no meio, não dava só pra ir pra São Bento e ficar vendo os caras dançarem, tá ligado? Eu trabalhava no Real, passava lá, às vezes, no final de semana, e quando tinha dinheiro ia comprar disco. Comprava (discos) do Public Enemy, N.W.A., do Boogie Down Productions, essas porras. Falei, “Ó mãe, vou sair, vou trabalhar na Galeria”. Fui trabalhar na Galeria, depois trabalhei numa ONG, o Geledés.
Max Eluard Mas você trabalhava no Geledés?
Xis Trabalhei. Tenho a carteira Geledés. Agente cultural. Foi um momento importante pra caralho na minha vida. Isso foi em 92, acho.
Max Eluard Eles já estavam trabalhando nessa época.
Xis Isso aí, 92. Foi bacana, teve uns barato meio louco, de juntar todo mundo. Fizemos uma revista (Pode crer) em que o Brown foi capa, o Thaíde e DJ Hum foram capa de outra, e nós mesmos fazíamos os textos. Saia confusão pra caralho porque todo mundo queria ser artista. Fizemos um show no Anhangabaú que foi do caralho, um momento bacana! Deu uma estressada um certo tempo porque o Geledés era uma entidade negra e todas as entidades negras sempre tiveram uma deficiência muito grande em chegar na periferia. Pô, a maioria dos negros está na periferia, mas todas as reuniões da comunidade negra eram na USP, na Faculdade São Francisco. Pô, participei de várias, né, mano! Eu era do DMN, que era um grupo político pra caralho, que tratava da questão de preto e branco, tudo… E quando o rap chegou, a gente falava a linguagem que a molecada entendia. As entidades negras faziam os eventos relacionados com rap com a gente, e ia aquele povo, aquele público que eles precisavam. Eles passavam muita coisa pra gente, e tivemos acesso a livro, a muita informação que foi bacana. Mas chegou uma hora em que eles estavam querendo determinar as coisas que tínhamos que falar… Porra, muita gente – do DownNegro, do MNU, do Geledés – teve uma importância muito grande ali, em 78, 79, década de 80, daquelas paradas todas, mais black, mais politizados aqui do Brasil. Estávamos 10, 15, 20 anos depois, com uma outra história, véio. Não dava pra ficar repetindo aquela coisa. Eles não iam conseguir conquistar o sonho ali com a gente… Aí acabei dando uma distanciada… Mas trombei com o pessoal do Geledés na semana passada. O Danny Glover [n.e. Veterano ator norte-americano e militante pelos direitos humanos] estava aí. Fui lá ver o Danny Glover, Máquina mortífera, né, mano?
Almeida O ator, porra?!
Xis É, o ator. Veio para o Fórum [n.e. 3º Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, RS, em janeiro de 2003]. Estava o Netinho e a Sueli na mesa com ele. O fato engraçado foi a hora em que o Pitta entrou. [risos] Ele chegou atrasado – mancada do Pitta -, mas aí a mulher anunciou, na primeira brecha que deu, “O ex-prefeito, bananã-bananã… Pitta”. Aí, de sessenta pessoas, seis bateram palmas sem animação e o resto fez assim “ó”, mas sabe assim (imita os trejeitos dos outros convidados, desconfortáveis com a presença do ex-prefeito). O cara olhou, olhou de novo e saiu, foi embora… [risos] Foda, bom pra caralho, bom pra caralho.
Monteiro Você falou que queria ter CDs e citou Boogie Down Productions mas, musicalmente, há coisas de antes disso. O que o garotinho Xis ouvia?
Xis – Nasci na Vila Formosa em 72 e, em 80, morando de aluguel, fomos para a Cohab 2. E na Cohab eu queria um som, véio. Queria um rádio. Isso foi em 82, eu tinha 10 anos. E quando eu tinha uns 15 anos, meu pai falou, “Se você passar de ano, eu te dou um barato aí. O que cê quer?”. Eu falei, “Quero um som, mano. Quero aparelho de som!”. “Então, a gente vai comprar um”. Mas falei, “Eu sei qual eu quero”. E havia um maluco lá do meu prédio, no primeiro andar, que tinha um 3 em 1, véio, que era da hora pra você fazer scratch, tá ligado? Meu pai tem até hoje esse 3 em 1 guardado na garagem. Meu pai é louco, véio, não joga os baratos fora, sério. Aí meu pai me deu esse som, mano. O que eu escutava? New wave pra caralho, porque era época do New wave, da Blitz, do Kid Abelha, da Gang 90. Escutei rap pela primeira vez no programa do Arthur Veríssimo, da Trip, mas ainda era na 97. Foi quando o cara tocou o Public Enemy. E aí depois, engraçado, o primeiro lugar que escutei pessoal do rap trocar idéia foi na 89 [n.e. Rádio 89 FM]. Se não me engano, era um outro programa que existia, não sei se era o programa de alguém, que levou o Nasi, o DJ Hum, o Código, pra mostrar o disco, trocar idéia. Isso era em 86, 87. Então, eu escutava FM, e ficava virando ali. Havia umas coisas que me interessavam mais. Eu escutava Garotos Podres, via os caras andando de skate, ouvia Grinders, Replicantes, porque não havia muito rap, tá ligado? Como é que eu tinha acesso ao rap? Meus primos iam aos bailes em fim de semana. Guilherme Jorge, Neon Clube e, basicamente, Chic Show, Palmeiras. Então, fim de semana, eu com 14,15 anos e meus primos, né, mano, mais espertões, catando as mulheres. Quando eles me levavam era aquela boiada, “Vamos levar o Marcelo”, senão, era o esquema deles, pra fumar o baseado deles, pra tirar a onda, e não dava pra ir. Quando eu ia, ia aos bailes black. Então, música black eu consumia nos bailes. Em casa eu ficava fuçando e vendo. A Bandeirantes e a Pool foram rádios que tocavam black e eu me identificava mais. Ficava assim, ficava sintonizando. Agora a parada de consumir, eu consumia FM, véio. Mas eu não me conformava muito com o que a FM tocava, não. Escutava o que a FM tocava, mas fuçava outras coisas também, tá ligado?
Tacioli – Mas você já tinha idéia de ser artista?
Xis – Não, não. Nunca pensei em ser artista. Até hoje eu ainda não me considero artista. O Xis é foda… O Xis é um personagem que criei, véio. Aliás, criei vários. O Xis, o Preto-Bomba. Porra, eu tô trampando. É um sonho meu lançar uma HQ do Preto Bomba. Acho que estou conseguindo isso aí, tenho trabalhado direto com mais alguns amigos. Talvez, em um ou dois anos, a gente consiga lançar alguma coisa bacana.
Almeida Mas você quer escrever o roteiro ou desenhar?
Xis Não sei se eu tenho condição [de escrever o roteiro]. Desenhar, não! Tem um cara que está desenhando. Tenho participado, com várias idéias, de reuniões para o roteiro. Algumas letras que escrevi e que são, de certa forma, roteiros, dentro daquilo que a gente está querendo fazer.
Max Eluard Mas você está falando que não se considera artista. Qual é a sua concepção de artista? Ou isso é uma mentira?
Xis Porra, véio, em 2003, vocês fazem arte, fazendo o site, que é uma referência pra quem gosta de site, entendeu, mano? Pô, um site que é branco, que é bonito. Pô! Tem o texto ali, tem uma estética bacana. Pra mim é arte. Pra mim, hoje todo mundo acaba sendo meio artista. Porra, em 2003 é foda definir o que é arte, quem é artista e quem não é, isso é bom, isso é ruim, tá ligado?
Max Eluard As facilidades técnicas tornaram o “ser artista” muito fácil, né?
Xis Falar pra vocês que sou músico? Em “Us mano e as mina” eu toquei, até consigo achar as notas. Toquei no estúdio. “Pan, paaan, pan, paaan, pan”. Mas falar que sou músico? Não dá pra falar isso. O Xis é um argumento, um motivo pra eu fazer uma pá de coisas, coisas que eu gosto, tá ligado? É lógico que não dá pra fazer tudo. A vida vai passando, você vai tendo filho, tem mulher, pai, irmão. Uma pá de gente que você quer ajudar. E você tem que ganhar dinheiro, você tem que trabalhar. E você tenta, é lógico, trabalhar com aquilo que você gosta.

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Hip hop
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