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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 25/26

A última vez que trombei com o Sabota foi na 4P

Tacioli – E foi um baque a morte da Cássia.
Xis – A Cássia foi foda.
Max Eluard – E a do Sabotage?
Xis – A do Sabotage também. Ó, nos últimos anos… Estou com 30 anos e conforme você vai perdendo as pessoas, parece que machuca mais.
Max Eluard – Você vai tendo noção do seu fim, também.
Xis – É. A parada da Cássia era fim de ano, eu estava na 4P. Todo mundo da 4P na Galeria, junto com os funcionários. Há três tias que costuram pra gente… Junto todo mundo, compro uns vinhos baratos quando a coisa está ruim; compro uns vinhos mais ou menos quando a coisa está boa, e faço uma festinha. E no meio da festa, o Kléber vira pra mim e fala “Mano, a Cássia morreu!”. “O que você falou, mano?” “A Cássia morreu!”. E não consegui falar mais nenhuma palavra. Desci, fui pra casa e o telefone de casa começou a tocar pra caralho. E pra não pirar mais, tirei o telefone, liguei pros caras e falei “Tô indo praí”. Fui para o Rio e… foi foda. E, em fevereiro rolou a parada do Rafa, que morreu em um acidente saindo do estúdio. Dois dias depois eu entrei naCasa. E agora a do Sabota. No dia em que o Sabota faleceu, cheguei de Santos em casa, peguei meu filho dormindo. Sentei no sofá com a mesma roupa. Dormi pronto, tá ligado? [risos]
Max Eluard – Qualquer eventualidade.
Xis – A Van da MTV ia passar às 6h30. O Ébano me ligou, eu estava sonado, “Véio, o Sabota tomou três tiros!” Nessa dele falar “tomou três tiros”, falei “Pode crer, Ébano! Te ligo já, já!” E desliguei o telefone, porque em uma hora a Van iria passar. Iríamos gravar eu, o Rudi, o Sabota… Aí desci pra Van, o King estava lá. E tudo cinza. Chovia em São Paulo havia dez dias. E sonado, eu tentando entender. Falei “Tudo bom, King?”. “Tudo bom.” Não falou nada. “Ô, King, o Ébano me ligou.” O Ébano é um moleque que era do Potencial 3. “Não sei se eu estava sonhando, mas falou que o Sabota havia tomado uns tiros.” “É mesmo?” Falei, “Vamos confirmar? E aí, Ébano, você me ligou há uma hora e meia atrás. Você falou isso, isso e isso.” “O Sabota tomou uns tiros, mesmo!” E ele não quis falar muito, porque deve ter sido foda pra ele. Não teve muito papo de “Tá ruim”, “Tá mal”. E eu já sabia que iria conviver com isso direto porque eu estava indo para um barco em que estaria o Sabota, e segundo porque eu estava indo para a casa do Rudi, que é um cara que estava convivendo com o Sabota direto. E quando a gente estava no meio da estrada, os caras falaram, “O Sabota faleceu”. Foi foda! É foda assim: tem que saber separar as coisas. Não tem nada a ver com rap, véio. Não tem nada de 2Pac [n.e. Rapper nova-iorquino assassinado em 1996, aos 25 anos de idade], B.I.G. [n.e. Notorius B.I.G, rapper rival de 2Pac e assassinado em 1997, aos 24 anos]. Não tem nada a ver com rap. Quem matou o 2Pac e o B.I.G., tudo indica que foi o Suge Knight, que era um cara da gravadora, que tinha muitas músicas do 2Pac gravadas em estúdio. O 2Pac queria saber da Death Row e o cara falou “Quer sair? Vai sair morto!”, matou o cara e ficou com todas as músicas vendendo pra caralho. E depois ele mandou matar o B.I.G. pra falar que era treta. Tudo indica que tenha sido isso, Suge Knight, o patrão. E as paradas do Sabota são paradas de rua. É foda. E eu sei como funciona esses baratos. Um cara que releva. Você pode pisar na bola, você pode dar umas mancadas, que os caras relevam. Mas tem cara que não releva, não.
Max Eluard – A vida vale muito pouco.
Xis – Essa é a pior parte. Eu fui ao velório. A quantidade de pessoas que ficaram tristes. Foi uma das coisas mais tristes que… Pra mim é bom ter vários caras que nem o Sabota, porque tira das minhas costas uma pá de carga, fato de ir na TV, no rádio, dar entrevista pra vocês, trocar idéia. E eu colava no Rio e contava para o pessoal que eu não tinha nada a ver com rap. “Nossa, conheci o Sabotage!” “Você conheceu o melhor, mano!” A última vez que eu trombei com o Sabotage foi na 4P. Quem cuidava das coisas do Sabotage, de algumas coisas… O disco dele saiu pela Cosa Nostra, que é um selo do Kléber, que aliás prejudicou o Sabota pra caralho porque a treta do Racionais com a Sony fez com que o disco do Sabota não saísse, praticamente. Prensaram 3 mil cópias e depois proibiram de prensar e o disco dele não andou. O Sabota era muito mais conhecido pelas paradas do filme do que com o rap [n.e.Referência ao filme O Invasor, de Beto Brant, onde Sabotage e atuou e participou na trilha sonora].
Monteiro – O disco já estava no mercado antes do filme…
Xis – É, mas parou no meio. Na MTV os caras falavam, “Não posso passar o clipe do Sabota porque a Sony falou pra não passar!”. Tudo por causa da treta com os Racionais. Encontrei com ele antes do Ano Novo lá na 4P. Vocês precisam ir na 4P. Não tem aquele filme do John Malkovich, do 7º andar e meio? [n.e. Referência ao filmeQuero ser John Malkovich, dirigido por Spike Jonze] Tem o salão do Kléber de cortar cabelo black, aí você sobe e fica meio abaixado. [risos] A gente tem o 1 e ½. O Sabota subiu. Ele era elétrico, mano. “Aí, Joe!” Ele olhava pra você e dava um nome e nunca mais esquecia. “E aí, Joe?” [risos] “Fala aí, Joe!” “E aí, Sabota?” [fala sussurado e rápido] “Não, agora tenho que viajar com a muié. Vou levar a muié! Vou pegar a nega, aí. Se tá ligado, Xis, os caras ficam ligando aí, vamos fazer trabalho, não, não, não. Me ligue depois de 15 de janeiro porque o lance é o seguinte: vou viajar aí, tá ligado?” “Pode crer, Sabota. E os discos?” “Não, tamo aí. Vamos fazer a música?” “Calma que eu te aciono!” E ficamos nisso aí. Conheci o Sabotage acho que ainda estava no tráfico. Eu estava tocando (“De esquina”), em 97, com o Randal e o Dentinho, ali no M” Boi Mirim, pra frente de onde ele morava, em um lugar que você não acredita, mano. Acho que era uma garagem. Não tinha palco, mas eram aqueles shows de 500 reais e na porta 200, 300 pessoas. Os caras de rua bancando aquele som, aquele microfone que o cabo caía, mas isso são uns negócios do rap. E o Sabota colou na porta e falou, “Ô, truta, ô, Xis”. Qual é o público? O rap não tem público. O Lula foi eleito. Qual a música que o povo gosta? Sertanejo. Não é o rap, nunca. O rap é música de classe média alta. Lógico. Quanto custa um CD do Xis? Quanto custa o CD dos Racionais? Você acha que os moleques têm? Não têm. Os moleques ouvem a 105 ou gravam pirata. Mas mesmo assim quem compra? A Cohab, a minha área, não é reduto de rap. É reduto de samba. Os caras hoje à noite entram no carro e vão tudo para o Tatuapé, nas casas de pagode, rebolar samba e pegar as menininhas. Rap é chato pra caralho! Quando eu chamava os caras pra ir pro rap, eles, “Ô, Xis, maior bronks!”. Pô, só homem, não tem mulher, ninguém bebe nada. Aí, trombei com o Sabota. Ele era um cara do tráfico que gostava de rap. Ficou sabendo que eu ia tocar lá e colou. “Pô, sou o Sabotage. Queria entrar mas estou sem dinheiro.” “Você já está dentro, Sabotage.” Nesses lugares assim não dá pra ficar com muitas idéias na porta, tá ligado? Você tem que ter um esquema. “Você vai fazer o quê, aí, mano?” “Vou fazer tal coisa e vou sair”. Então, a gente entrava, não havia camarim, eu ficava esperto em todos os lugares, via ali, ali e ali, estava todo mundo. E falava, “E aí, firmeza?”. Ninguém veio falar nada. E se chegasse algum patrão da área, falava, “Firmeza?”, “Firmeza”. Quem colou esse dia na entrada foi o Sabotage. “Ô, meto uma rima.” Não chamei ele pra cantar porque já chamei cara pra cantar que era ruim pra caralho ou então o cara não largava mais o microfone, entendeu? [risos] Ou então o cara é inimigo de alguém da área. E na hora de embora, ele (Sabotage) falou, “Dá para me deixar ali perto das Águas Espraiadas?” Entrou na Van sozinho. Estávamos eu, Randal, King, Dentinho, e mais dois moleques que ajudaram a carregar os baratos. Ele entrou, trocou uma idéia e falou, “Curti o seu som, aí. ‘De esquina’ é bem loco. Tô fazendo umas rimas aí!”. Falei, “Ô, Sabotage, firmeza!” Desceu e depois de um ano, comecei a ver o Sabotage com os caras do RZO, que apadrinharam o Sabota e começaram a levá-lo para os shows para ajudar nos refrões. E aí a coisa andou. Mas, porra, pra mim é mais foda ainda porque o Sabotage conseguiu umas coisas que eu também consegui. Então, eu me via naquela. Sabotage tomando tiro, nossa! “Puta, que merda! Será que as mesmas histórias, direto?! Será que não vai mudar essa porra! Será que vai ser sempre assim?” E comigo é foda, porque vou ao estádio sempre sozinho. Ah, vou pra Tribuna, mas a Tribuna vai ficar ali, mano. Foda-se a Tribuna, vou pra qualquer estádio, em qualquer lugar. Eu quero ver o jogo. E não fico andando com segurança, tá ligado? Faço as minhas coisas do jeito que tenho que fazer. Foda do Sabota é que ele tinha envolvimento com o crime, tá ligado? E aí você escuta várias histórias que… porra!
Tacioli – Xis, muito obrigado.
Xis – Desculpaí, falei pra caralho.
Tacioli – Mas esse é o espírito.
Monteiro – Somente mais uma coisa. O que você tem ouvido de rap nacional?
Xis – De Leve, Lito Atalaia, que é um moleque do rap gospel que saiu pelo selo do Apocalipse 16, mas que não fica pesando muito. “Deus, Deus, Deus. Não bata punheta! Não fume maconha! Não traia a mulher! ” [risos] 5º Andar, também. É isso.

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Hip hop
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