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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 20/26

Um dos meus projetos é um tributo ao Pepeu

Tacioli  Xis, estamos falando desse terceiro disco, mas qual é o caminho que as letras tendem a seguir?
Xis – São três projetos que tenho em mente pra discos. Um é um tributo a um cara chamado Pepeu. Quem é o Pepeu? É um cara que na década de 80, 85, mais ou menos, ele tinha acesso a rap, um rap mais popular, comercialmente falando. Rap popular americano naquela época era LL Cool J, talvez até mais populares que esse. Mas o Pepeu trabalhava muito com o circuito que era de Black Mad, Chic Show, animando a festa cantando no meio do baile. Então, o Pepeu gravou quatro ou cinco discos com clássicos que vão de “Ruth Carolina”, “Nomes de meninas”, “Rasta”. Tenho um repertório dele de doze músicas que eu gostaria de gravar. Já tive umas conversas com o Pepeu. Ele mora lá em Itaquera. Ele parou com o rap, virou evangélico, ficou desiludido com uma pá de coisas do meio, porque o mercado do rap é foda. Existem tubarões no meio do rap.
Tacioli  Ele seria um bom entrevistado pra gente.
Xis  Seria. É uma outra história. Talvez seja uma boa referência pra entender até um certo momento.
Monteiro  Pepeu é um dos pioneiros.
Xis  É, é. Mas ninguém fala muito do Pepeu. O Pepeu estourou muito antes do Thaíde. Ele já era popular antes do Thaíde. Todo mundo fala que o Thaíde e o Hum são os pioneiros, mas o Pepeu já levava mil pessoas pruma festa pra cantar “Ruth Carolina”, pra cantar “P de Pepeu”, “Cascão”, e outras músicas.
Monteiro  E um samplerzinho bem…
Xis  O pior! Ele era muito bom na letra e na métrica, muito bom. Digamos que, perfeito. Nos temas ele adorava brincar com palavrões, metia palavrão em tudo.
Almeida  O que se falava nessas letras em 80 e pouco?
Xis  Em 88 saíram dois discos: o Cultura de rua [n.e. Considerado o primeiro álbum brasileiro de hip hop], pelo selo Eldorado, em que o Nasi deu uma força. E saiu O Credo, Código 13, Thaíde e o MC Jack, cada um com duas faixas. No mesmo mês saiu o Som das ruas, que era um disco da Chic Show. Nesse estavam Os Metralhas, o DMal, que cantava: “Nem A, nem B, nem C, só se for D / Nem A, nem B, nem C, só se for D”. Os Metralhas com “Rap da abolição”, que tem uma letra bacana. Saíram esses dois discos. Esse de baile tinha um barato de festa, de falar palavrão, “Americano lançou foguete / Cuba também vai lançar / Quero ver se Cuba lança / Quero ver Cuba lançar”. Havia muito palavrão, mas um barato muito mais hip hop até, porque o da São Bento era com a cultura americana, e esse de baile era como nasceu lá fora, com MC animando a festa com as coisas daqui.
Monteiro  E era popular porque falava direto com o público.
Xis  E o da São Bento, não, que era baseado nas idéias do Afrika Bambaataa, fulano e beltrano. Os dois discos saíram lá. O Pepeu está mais do lado das festas, do som dos bailes. Era pro cara que ia nas festas e, 3 mil neguinhos dançando. Tem uma diferença: hoje em dia, se você vai numa festa, dali a pouco você está com as pernas abertas, três mina dançando com você. Naquela época, não. Naquela época era assim: [imita os dançarinos de passos cadenciados e olhares pesados] [risos gerais] Vagabundo passava a festa inteira assim, dançando com a mão pra cima e com passos pequenos. Era aquela coisa de baile de negrão, cabelo black. Um pessoal depois começou a usar as bombetas, era assim, um outro tipo de baile. E o rap entrava pra animar. O Pepeu era isso. O Pepeu é um projeto que eu tenho. Ele era produzido por um cara chamado DJ Cuca, que está na capa de um ou de dois discos do Pepeu. Cuca é, ou pelo menos foi, o produtor do primeiro disco da Kelly Key.
Tacioli  Eu sabia que conhecia esse nome.
Xis  O Cuca produziu também o Naldinho, aquele, “A lagartixa na parede / A lagartixa / A lagartixa”. Ele foi um dos melhores produtores daquela época. Então, tenho esse projeto de tributo ao Pepeu, que vai ficar mais pra frente. Ainda estou trocando idéias, estou decorando música, tendo contato com o Pepeu, entrando no clima. E ele continua escrevendo. E escreve bem. Ele tem umas letras de rap pra criança, que ele faz pros filhos dele. Isso é outra coisa que eu queria pensar mais pra frente, talvez fazer um disco de rap infantil, não sei nem se cantando ou colocando uns moleques pra cantar.
Almeida – Boa idéia.
Xis – Não sei ainda. Um outro disco seria um disco meu de músicas inéditas, que é pra onde caminha o terceiro. O disco do Pepeu viria agora numa boa hora, porque já tenho dois solos e depois eu poderia fazer um eventual Acústico MTV ou um acústico ‘Xis sozinho”, ou uma coisa com banda gravada ao vivo, sabe? Pluga aí, vamos gravar. Podia ser um barato fudidaço com um milhão envolvido em dinheiro ou então um barato de 100 mil pra gravar tudo e lançar daquele jeito ali. Mas pra mim seria da hora porque teria mais músicas e depois poderia lançar um disco com músicas minhas que muita gente não escutou, como “A Fuga”, que fez o maior sucesso e que saiu no disco do Escadinha, ou “A Perigo”, que é uma música que eu gosto pra caralho do Seja com for. Nunca a cantei em nenhum show, mas todo mundo gosta e pede. Tem muita música que eu fiz e que não teve um tratamento da hora, que não teve ninguém que soubesse cantar legal o refrão ou pra fazer uma nova melodia. A gente que acabava cuidando de tudo e não tinha contato com músicos. Eu queria regravar e fazer alguma coisa do tipo. São esses dois discos: o do Pepeu e o meu. E tem também, mas aí é mais viagem, a idéia de fazer alguma coisa relacionada com música eletrônica. Como estou fazendo um trampo pra quadrinho, acho que é uma música que combina mais com quadrinho. Pra misturar dub. Fazer um disco de um dia, sabe? Fazer algumas rimas, cantar, chamar um DJ, chamar alguém de percussão e fazer isso daí.
Tacioli  Esse trampo em quadrinho é do Preto Bomba?
Xis  É.

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Hip hop
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