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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 19/26

A minha cultura musical é sampler

Tacioli  Qual o caminho desse terceiro disco, Xis? O que você está pensando?
Xis  Véio, vou te falar: tenho feito algumas coisas, mas eu trabalho muito sem divulgar. Tenho um site onde poderia estar divulgando minha agenda, mas não faço isso, não. Toquei com a Vitrola Estereofônica, que é uma banda da hora, com uns caras que tocam em cima da Jazzanova, tocam Marvin (Gaye). A banda tem uma menina que canta legal, uma parada mais eletrônica.
Tacioli  Esse disco vai misturar estilos?
Xis  Eu queria, de certa forma, fazer uma parada mais pra música eletrônica, mas em vez de usar caixa, usar tamborim, ter um “pá” de tamborim. Eu não sei a maneira de fazer isso ainda.
Monteiro  Está em que estágio o disco?
Xis  Estou compondo. Estou na fase de compor e de procurar sampler – aliás, procurar sampler sempre! Estou escrevendo. Os hackers de plantão, que invadem meu computador, já devem até ter algumas letras. [risos] Meu, os caras entram no meu computador toda hora, mano! Eu só peço para não zuarem. Vou salvando toda hora num cdzinho, mas os moleques invadem, mano! E eu gosto de Internet pra caralho.
Fernando de Almeida  Os caras entram por esse negócio de trocar música?
Xis  Pegam texto, pegam tudo, véio.
Monteiro  Como é seu processo de criação? Você tem um método ou ele é meio caótico?
Xis – Se alguém fala uma frase, eu anoto. Vejo um filme, leio um livro. Às vezes, estou em casa sozinho e saio escrevendo. Às vezes, quero falar de alguma coisa…
Max Eluard  Vem a base antes às vezes?
Xis  Às vezes, tem música que não tem como você fazer. “Errei”, por exemplo, fiz pra mim mesmo.
Monteiro  O que você leu que lhe impressionou?
Xis  Não tenho lido muita coisa, não. Tenho muita coisa em casa pra ler, tenho muito livro. Mas entrei numas de “quero livros bacanas”, mas vou ler mais tarde. Agora, fuço muito em Internet. Sou um cara que agora vivo da última notícia, tá ligado? Vivo no UOL, no Terra, pra saber o que está acontecendo, pra baixar música, pra saber se os Estados Unidos estão pegando fogo ou não, se começou a guerra.
Max Eluard  Você já estudou música, Xis?
Xis  Nunca.
Max Eluard – Mas não existiu um tio que um dia pegou um violão e lhe mostrou uma nota?
Xis  Não. A minha cultura de música é sampler. Muita coisa de composição no Seja como for é idéia minha, apesar de, com o Kléber, não dividirmos autoria. E isso por ignorância nossa. Porra, fizemos a música juntos, ela é minha e sua! Não tinha isso, porque o raciocínio no rap é: “eu faço a letra, a música é minha”. Com o Plínio foi diferente. Hoje eu sento com o Plínio e a gente acaba fazendo uma música e a música é minha e dele.
Monteiro  E o direito autoral está funcionando?
Xis  Vivo da minha editora, véio. Mas eu tenho muita música. Tenho música gravada pela Cássia, pelo Mauricio (Manieri). Tenho música com o Monobloco, tenho música com a Paula Lima, com o Thaíde. Tenho muita música. Mas, não funciona, não, véio. Pra mim é papel, tá ligado? Eu sei que existe a máfia do papel. Eu não acredito no papel. Eu não acredito no meu contrato que está na Warner, eu não acredito nele. Eu não sei o quanto foi direcionado de grana, o quanto foi desviado ou não. E dinheiro também é papel, né?
Monteiro  Um contrato de gravadora tem muitas páginas?
Xis  Tem umas páginas, viu! [risos] O meu foi tranqüilo. Minha rescisão tem uma página. Quem estressou mais foi minha advogada. Eu vou bem num contrato, pra ler, tá ligado? No meu contrato havia coisas que a advogada ficava enchendo o saco. E eu, “Não, nunca eles vão querer fazer isso comigo. Esquece que isso não vai rolar.” Mas, o mundo é de contratos, impostos…
Seabra  Mas você se sente acuado? Eu me sinto acuado com qualquer contrato que eu leia.
Xis  Eu não. Tem que fazer, né, véio? Às vezes, não tem nem papel, mas é um contrato. Eu e o KL Jay somos sócios há uma cara. O Kléber viaja prum lado com os Racionais e tem que ter uma linha, manter um discurso. E eu vou pra um outro lado, quase do lado contrário. E nós não temos contrato, é um telefonema. Temos senha. Ele sabe a senha da conta, eu também. Talvez a gente faça algum mais por causa dos nossos filhos. A gente não sabe como vai ser o dia de amanhã. Então, eu guardo documentos por causa dos meus filhos. Se acontecer alguma coisa, eles têm como falar, “Isso aqui é do meu pai, mano. Isso daqui é meu.”

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Hip hop
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