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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 18/26

Rapper brasileiro sempre quis ser um rapper americano

Max Eluard – Uma coisa que chama atenção no Fortificando é que foi gravado em vários estúdios, mas ele mantém uma unidade.
Xis – Tomei cuidado com isso.
Max Eluard – Mas foi consciente desde o começo?
Xis – Foi. Eu conheci um moleque chamado Plínio Profeta. Lembram-se do [canta] “Quem comeu a Adriana Galisteu?” [risos]
Monteiro – Pô, fui à festa de lançamento desse disco.
Xis – Eu salvei o Plínio desse vexame. Ele me deve essa. Nem tanto pela música, que acho da hora, da tirada de onda com a Galisteu. No VMB, da MTV, passou isso direto, quando ele levou o tapa da Adriane. Era combinado, mas ele entrou de cuecona. Essa parada é uma página meio negra pra ele. Mas eu conheci o Plínio por meio do Jamaica. A Warner lançou um rapper de Brasília chamado Jamaica. O moleque é um bom MC e um bom DJ. Jamaica era do Câmbio Negro, do primeiro Câmbio Negro (Sub raça), que é o Jamaica e o X. O Jamaica é foda! Ele me chamou para fazer essa música e acabei conhecendo o Plínio. E aí o Plínio tinha a linguagem que eu queria para o momento, que era “você tem que mostrar algo meio americanizado para chamar a atenção”. As pessoas acabam consumindo mesmo um Eminem, um Dr. Dre, um Snoop Dogg. Se você não faz nada parecido com aquilo pra mostrar que você tem condições, você não consegue chamar a atenção dessa pessoa. E o Plínio é estudado em Los Angeles…
Max Eluard – Mas parecido esteticamente?
Xis – Não parecido esteticamente, mas de qualidade, do boom bater, de programação. Na verdade, todo rapper brasileiro sempre quis ser um rapper americano. Um Xis sempre quis ser um Chuckie D., um Mano Brown sempre quis ser Chuckie D. também, o MV Bill sempre quis ser um Snoop Dogg. Se você pegar os discos e acompanhar…
Fernando de Almeida – Mas você fala pela qualidade técnica ou estética?
Xis – Eu não sei, acho que por tudo. Hoje, até no gestual. Qual é a estética do disco dos Racionais? Não é a estética do All Star, tá ligado. É a do Low Rider, do chicano, é da cultura de Los Angeles. Também somos massacrados por essa porra. Não estou falando que isso é errado, não! É como o moleque tocar guitarra e segurar a guitarra como os Beatles seguravam. Faz parte também.
Tacioli – Mas hoje você vê diferente isso, não?
Xis – Não vejo como um erro, mas acho que a gente não precisa mais disso. Acho que algumas bandas não precisam mais. A gente precisa, sim, para conseguir espaço. Eu preciso disso para tocar meu programa na Jovem Pan. Preciso tocar Snoop Dogg, porque estou falando para o Brasil inteiro. Talvez para dois milhões de pessoas que conhecem do Run D.M.C. o “Walk this way”.
Max Eluard – Pra mim, isso é a contradição do rap, da postura política, da contestação, mas que tenta abraçar…
Xis – Mas o rap foi a única cultura que olhou pra gente. O Chuckie D. foi o único que falou de preto pra preto na televisão quando estava na MTV. E nenhum músico foi para a periferia pra chegar no Brown, ligar o baixo e “Senta, aí, mano, descola um aí!”. De tocar e convencer o cara que aquele timbre era melhor do que ele escutou no CD. Ninguém fez isso. O Sabota saía do Canão e ia lá pra Vila Madalena ficar com os caras do Instituto. Eu saia do Rio e ia lá pra Barra fazer o meu disco. Estou falando que os moleques estão abandonados. É aí que eu falo que vejo o SNJ e vários grupos passando sem conseguir nada, porque ninguém encosta no cara pra mostrar um instrumento.
Fernando de Almeida – Pra mostrar coisas diferentes, também.
Xis – Pra mostrar! Mostrar um instrumento, os moleques escutam sem saber o que é aquele instrumento. Os caras usam até instrumentos brasileiros numa produção, mas o moleque vê a música como um todo! O barato vem enlatado com o clipe, e não é todo mundo que presta atenção.
Max Eluard – Voltando pra produção do Fortificando a desobediência…
Xis – Então, aí conheci o Plínio e falei pra ele, “O Plínio, vamos fazer um disco, você topa? Tenho grana, eu te pago. Quanto você cobra pra fazer Kelly Key e SNZ?”. “Ganho tanto”, quarenta, vamos supor. “Isso eu não tenho, não. [risos] Mas tenho 10, 15, vamos fazer?”. Ele topou. Mas eu disse, “Não vou pisar na sua, mas quero que você finalize o disco. Porque eu queria fazer com o KL Jay, com o Gonzales e queria o Marco, que é DJ do PosseMente Zulu. Eu queria coisas que esses moleques estavam escutando, mas queria que o Plínio finalizasse. Ele acabou produzindo 50, 60% do disco. Gravávamos em data e levávamos pra finalizar. Quando a coisa complicava muito – que achávamos que teríamos que mexer muito na música do cara -, a gente ligava, “O Zé (Gonzales), cola aí”. Aí acabávamos mexendo junto ou não mexendo. Foi assim que funcionou. Os dois discos – Seja como for e o Fortificando – funcionam como uma história: eles têm começo, meio e fim. Mas nesse eu não vou fazer isso; quero ter 11 músicas.

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Hip hop
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