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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 17/26

Fiz meu primeiro disco com 5 mil reais

Monteiro – Fale um pouquinho dos seus dois discos-solo. Qual a diferença entre eles?
Xis – O Seja como for é um disco de um cara que conhecia música muito de disco, por ter trabalhado em lojas de CDs.
Monteiro – Havia alguma coisa antiga que você aproveitou nele?
Xis – Várias, várias. A maioria das coisas que a gente faz, a gente lança sempre defasada. Como esse disco que estou fazendo agora, tem um monte de coisa que fiz no estúdio, como o “Chapa o coco”. A “Sonho meu” era pra ter entrado no disco anterior, mas não estava bacana. A “Tudo por você também”. A “Vem comigo” que tirei. Agora, o Seja como for é um disco que fizemos com 5 mil reais, na Cohab de Carapicuíba, em um computador, um Logic e um aparelho de sampler que o Kléber havia trazido dos Estados Unidos quando viajou com os Racionais. A gente nem sabia usar esse sampler, mas tinha um cara que sabia tirar uns timbres, então, o CD ficou, pelo menos, com um timbre de caixa e bumbo mais decente. Só sampler. Eu não assino a produção, mas sampleamos Maynard Fergusson, The Cruzaders, que são coisas com as quais convivi e havia uns grooves que eu gostava. Aí, ou ficava escrevendo sobre o groove, ou então, com o looping feito em estúdio, compunha em cima. Então, é um disco só de sampler, não tem nada tocado. A única coisa que tem tocado ali é um teclado em “Us mano e as mina” que eu fiz [imita o som] “Pan / Pan / Pan Pan”. Fiz em um dia em que todo mundo estava bêbado e somente eu estava consciente. Foi assim… Terminamos o disco, o Kléber estava na Alemanha com os Racionais. Ele me ligou de lá, “Nossa, Alemanha é foda!”, e eu na Cohab. “Alemanha é foda? Cê é louco, truta, saia daí, mano!”. E ele, “Cê é louco? Aqui está cheio de preto. Os caras passam mais rap do que no Brasil.” “Mas e os skinheads?” “Skinheads, mano, cê é louco?” [risos] “Kléber, preciso fazer uma música. O disco está triste pra caralho. Preciso fazer uma música falando da Cohab. Posso ir para o estúdio?” “Pode.” Fui com mais um colega. O cara do estúdio fez um beat. Pizza, ficou todo mundo bêbado. “Posso sentar um pouco?” Sentei e toquei o “Pan / Pan / Pan Pan”, que é a única coisa que tem tocada nesse disco. Mas, porra, gosto de ir em show e ver os caras tocando. E eu queria ter isso no outro disco. Aí, no Fortificando teve o Marcelo Munari, que também é sampler, mas com ele tocando, o Bocato metendo um trombone. Uma session da hora, valeu mais até pelo dia da gravação do que pelo resultado final. Pô, o Bocato tocando pra caralho! Eu, o Bocato, o Munari, acho que a esposa do Bocato e mais um amigo a noite inteira no estúdio, um tocando guitarra, outro trombone e a gente rimando. Um moleque de 17 anos que gravou em Cuba, não vou dizer um pequeno Miles [Davis], mas inacreditável… Eu tinha dinheiro para pagar duas horas de estúdio. Estipulamos um horário no estúdio do filho do Pablo Milanés. Conheci o moleque e, com o último dinheirinho que eu tinha, falei, “Vamos gravar?”, “Vamos”. Aí no hotel, aqueles cubanos que ficam tocando como no Guanabara, onde os caras ficam fazendo samba em frente. Cheguei, subi pro quarto, peguei o telefone e “Plínio, você viu aquele moleque tocando trompete?”. Ele falou, “Um absurdo! Um moleque de 17 anos!” Desci e falei, “Mano, tenho uma música. Vamos para o estúdio?” Fiquei duas horas no estúdio colocando rimas com os moleques, e o moleque sentou, trompetezinho ali, e falei, “Mano, espere só um tempinho aí! Por favor, espere aí!” “Não, não, tranqüilo.” Não tem o que fazer, Cuba, mano. [risos] Só que o cara do estúdio pesando. E fomos gravar… Temos dois takes dele gravados. Tínhamos um beat de oito minutos, mas o Plínio foi malandrão e falou “Vou gravar só uma vez”, já havia passado do horário. Só que o Plínio dobrou a música no computador então ficou 15 minutos. A gente trocando idéia e o cara nem percebeu, “Espere aí, só vou gravar mais uma!”, e dobrou mais uma vez. E ficou quase 20 minutos e ele tocando direto. Aí o Fortificando teve umas paradas desse tipo. O Quincas tocou um baixo, eu queria fazer uma música um pouco mais para o underground, principalmente o pessoal de classe média mais alta que curte as paradas de hip hop que vai ao Olimpia, ao Mouge, em Pinheiros, aí quem manja dessa parada é o Zé Gonzales, que era do Planet (Hemp), e o Quincas entrou com o baixo acústico numa música (“Sonho meu”). Os discos são diferentes e com propostas diferentes. Acho que o Fortificando é político pra caralho, porque foi gravado em Cuba, fiz sozinho, foi um disco que saiu pela Warner e, de certa forma eu o vendi para a Warner, mas foi editado por mim e o fonograna é da gravadora. Acho que isso é uma vitória. De escrita ele é mais poético que o primeiro, que é mais na primeira pessoa. O próximo disco não será na primeira pessoa. Estou bolado com esse barato do rap de “eu, eu, eu sofri, ninguém mais sofreu”, tá ligado? Então, estou tentando escrever coisas não na primeira pessoa. É difícil, porque o rap sempre começou com o “Eu”, porque é o MC, é o mestre de cerimônias.

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