gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 16/26

Não consegui tocar no Millenium Rap

Tacioli – Sobre…
Xis – Eu só queria falar sobre a parada do policiamento. Porra, véio, eu trabalho em um estilo de música em que a maioria dos caras é frustada. Lamento. Não conseguiu. Eu conheci um monte de grupo que não conseguiu gravar em dez anos. Um absurdo, mas o moleque não tem acesso à Internet. Não tem acesso! Essa é a pior coisa do mundo, você não ter acesso. E eu falo para os moleques, “Faça você mesmo! Faça quinze, vinte cópias! E fala, ‘Ó meu disco, foi lançado!’” Agora os caras não têm acesso a estúdio. Tem muito cara que vai para a Galeria e compra um CD instrumental e canta em cima daquilo. E isso não é mais necessário. Você pode chamar qualquer cara para fazer um batuque, que é por onde estava indo o Sabota com o Instituto.
Max Eluard – E essa frustação gera o policiamento?
Xis – Lógico. Uma pessoa bem resolvida não enche o saco da outra.
Tacioli – Mas isso gera uma exclusão? Você se sente excluído no meio?
Xis – Eu mesmo abro mão de um monte de coisa. Eu não toco mais em uma barca de rap. Não toco mais. No Anhembi foi um que não consegui tocar, em que eu tinha o show montado e não deixaram eu tocar. E aí, todo ano, “Você é a bola do momento!”. Pô, ali era a minha hora de fazer o meu show, eu ia arregaçar, porque estava muito foda, “Us mano, as mina” estava estourada, a “De esquina” estourada, e ali tinha 50 mil pessoas pra me assistir. E aí não consegui tocar.
Tacioli – Por quê?
Xis – Ah, mano, não consegui tocar.
Max Eluard – Astral ou veto?
Xis – É, não deixaram eu tocar.
Monteiro – O que era? O Millenium Rap?
Xis – O Millenium Rap. Não deixaram eu tocar. Eu tinha um horário pra tocar e eu não iria tocar às 8 da manhã. Não ia passar uma banda na minha frente pra tocar e eu ia ficar esperando. Não ia.
Tacioli – Há outros acontecimentos que alimentam você não entrar mais nessas paradas?
Xis – Eu vou aos shows, vou em qualquer negócio de rap, mas como espectador, porque eu sei a hora em que vai rolar o show. Quando tem show do 5º Andar eu vou. Mas não dá mais para eu ser espectador.
Max Eluard – Mas você tem uma bandeira de querer mudar isso?
Xis – Eu já acho que estou mudando. Eu tenho um selo. A 4P conseguiu lançar o Estado Crítico, o disco do Kléber, a gente pagou todo mundo certinho. Pagamos direito autoral, a gente edita as músicas, explicamos para os moleques como se editam as músicas, a gente leva os moleques até a SICAM ou em outro lugar pra eles se filiarem. Explicamos como funciona o jogo da parada. Estou fazendo isso direto, entendeu? O telefone toca o dia inteiro, às vezes de um cara pedindo uma força, ou um toque de um estúdio, ou de como funciona, ou como é que eu fiz. Continuo fazendo isso. O Xis, artisticamente, tem que seguir o caminho dele. Eu não posso ficar entrando num barato de dez grupos de rap onde não vou conseguir tocar, não vai ter passagem de som, e aí o cara que vai ligar o som, não sabe ligar o LR, não tem noção nenhuma, e na hora em que vou tocar, o som não funciona e quem se fode sou eu. Fui tocar uma vez de graça para o SNJ em um lugar, todo mundo para ver a porra do Xis, e o som me pára no meio da minha apresentação, e fico com a maior cara assim. Como é que vou falar pra 3, 4 mil pessoas que não sou eu o culpado? Aí dois moleques começam a gritar, “O Xis é cuzão! O Xis é cuzão!”. Vou bater nos moleques? Não dá, véio, não tem a menor condição. Então, eu faço os meus, entendeu. Em São Paulo, tem uns três ou quatro lugares – um SESC Pompéia, o Blen Blen, um KVA – em que consigo falar “Tô a fim de tocar em São Paulo?”, vou lá e toco. Não tenho a menor pretensão de “O Xis é o rei da cocada!”, de fazer show toda a semana e lotar. Muito pelo contrário, no meu show eu queria umas 300, 400 pessoas.
Tacioli – Você gostaria, então, de pensar um show nessa estrutura.
Xis – Que foi o que fiz com o Fortificando. Consegui tocar em Porto Alegre, toquei noRec Beat, na rua da Moeda, que foi do caralho, no meio do Carnaval, uma puta experiência.
Seabra – Lá você tocou com banda?
Xis – Não, lá eu fiz hip hop, toca-discos com vários MC’s, que é uma linguagem que também uso. E depois quando saiu o disco, com grana do meu bolso – gastei quase 20 mil reais, fazendo Porto Alegre, Curitiba, São Paulo (as paradas do SESC) e não fiz o Rio que eu queria fazer. Mas fiz o que posso fazer. Não vou entrar em neura, sozinho, véio, mas eu paguei os músicos com os quais eu queria tocar, que eu conheço. Pô, merreca, 300, 400 contos? É pouco, mas chamar o cara pra tocar de graça? Não vou. E os caras são bons. Ah! Eu queria registrar: a MTV me chamou para fazer o Banda MTV, e eu banquei. Foram 3 contos. Tive que levar um roading, os músicos, os instrumentos. Está registrado, véio. Tá feito! É o meu momento, é fazer isso. Agora, não vou abrir mão pra fazer média com ninguém do rap, tá ligado? E isso não é questão de não dividir, entendeu? “O Xis não quer dividir!” Não, eu levo outros MC’s, mas quero fazer um negócio que dê para todo mundo assistir, entender, curtir, achar que é da hora.

Tags
Hip hop
Rap
Xis
de 26