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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 15/26

Tive proposta para fazer um MTV Acústico

Max Eluard – Você parece ter um jogo de cintura, uma compreensão maior do mercado fonográfico e de outros segmentos da música brasileira que não vejo em outras pessoas que fazem rap, que tem uma postura mais radical, mais xiita.
Xis – Ô, mano, vamos lá. Eu sempre quis ser reconhecido por talento. O Xis não foi para a Casa dos Artistas por esquema da Warner. Eu acabei indo para a Casa porque eu toquei no Jô. Os caras da Warner estavam oferecendo o Rodox, queriam enfiar a Kelly Key. Fiz o Jô, o pessoal (da organização da Casa dos Artistas) viu e ligou, “O Xis não é de vocês?”. “É.” “Ele não quer vir?” Mas, é lógico que ligou para a Warner, mas ia acabar ligando para qualquer outra pessoa. Eu sou conhecido, antes de mais nada, por causa da minha música, pelo que sou, pelas coisas que fiz politicamente, pelos shows que fiz na Cohab, pelas oficinas que fui. Por ter ido à Restinga, em Porto Alegre, trocar idéia com os moleques, por ter ido ao Rio de Janeiro trocar idéia, por causa do “De esquina”, que gravei com a Cássia, por causa dos Originais… Eu queria ser reconhecido por isso. É lógico que, por gostar de música e querer fazê-la, um belo dia o Kléber (KL Jay) me chamou e falou, “Vamos fazer o seu disco”. Os Racionais é do Brown, certo? E o KL Jay gosta de produzir, ele gosta de falar, ele gosta das coisas deles, e nunca teve oportunidade. E eu sou um cara que no estúdio deixo o cara produzir. Qualquer coisa que eu faço, por mais que eu entenda ou queira fazer, eu fico na minha. E o Kléber me chamou para fazer isso. O que é um selo? Abrir uma empresa e chegar em um lugar e “Prensa dez pra mim!”. Venderam as dez, eu posso prensar mais dez. Quando saiu o Seja como for, nós prensamos 3 mil cópias.
Tacioli – Xis, o que te motivou a montar o seu próprio selo?
Xis – Ninguém querer me gravar, mano. Eu quero ser gravado por uma grande gravadora e fazer um trampo da hora, entendeu. É lógico que, com o tempo, eu vou criando as minhas idéias e vou querer abrir mão de algumas coisas; você tem que estar num clima muito bom pra isso funcionar. Mas se os caras não deixarem você fazer uma coisa do jeito que você quer, você cria a sua. Porra, dentro da MTV eu tive proposta de fazer o Acústico Xis. As gravadoras sabem disso. Mas ninguém falou, “Vamos fazer!”.
Max Eluard – Mas você chegou a sofrer algum tipo de policiamento por ser mais aberto a essas questões?
Xis – Pra caralho. Você está falando dentro do próprio rap?
Max Eluard – Sim.
Xis – Sim, mas acho que é natural, mano. O Robinho, que joga no Santos, é ele mais dez jogadores. Esses dez devem estar contentes, né? Os caras do Corinthians não estão muito contentes com o Robinho, não, mano.
Monteiro – Eu estou contente com o Robinho. [risos]
Max Eluard – Como corintiano e brasileiro, tenho que confessar, eu estou. Ver o moleque ser aplaudido em Cali, vá se fuder!
Xis – Vou falar um negócio procê. Meu pai falou um barato pra mim que é foda. Meu pai falou que os primeiros jogos que ele assistiu foi quando o Santos se tornou campeão no Rio. Meu pai falou que ia para assistir ao jogo do Pelé. Eu comentei isso ontem com o Alexandre. Meu pai me levou uma vez para assistir ao Corinthians e Flamengo e ele falou, “Vamos lá para ver o Zico”. Um a um. Gol do Wladimir e um gol do Zico. Morumbi lotado, maior lua. Tinha aquele negócio de papel, ainda, bom pra caralho! Faz a maior falta. Era a maior festa. O cara falava, “Não joga essa porra!” E todo mundo ficava assim [imita um torcedor com um rolo de papel higiênico na mão, aguardando a ordem para arremessá-lo]. “Joga!” Fazia um túnel, véio. Era a coisa mais linda! Eu ficava olhando. Eu vi o lance que o Robinho deu um chapéu. Eles aplaudiram.
Max Eluard – Mas dói, né?
Xis – Dói, ainda mais porque na Libertadores o Santos está no caminho. Estou muito feliz com o futebol: primeiro, porque o Palmeiras está na 2ª Divisão do Brasileiro [risos] e está em um momento fantástico. Perdeu para o Operário por 1 a O, perdeu pênalti e, se bobear, será eliminado aqui dentro. O dia do jogo entre Palmeiras e Operário eu já não marco nada. Quero assistir a esse jogo, ouvir no radinho. [risos] Como Palmeiras e Inter de Limeira.
Tacioli – Xis, sua mulher acompanha futebol com você? Ela já gostava?
Xis – Não gostava, não. Minha mulher fez Direito até o 2º, 3º ano, está desempregada. Quando eu a conheci, falei “Vamos pro estádio!”. “Ah! Futebol!”. Aí a levei para um jogo do Corinthians com um time de fora, talvez na Libertadores. Pra levar mulher em estádio tem que tomar o maior cuidado, ter o maior esquema e a levei num desses jogos. Fiquei com ela atrás da entrada. A partir daí… Pô, futebol apaixona.
Tacioli – E hoje, Xis, você joga?
Xis – Não, somente quando preciso.
Tacioli – Como assim, “quando preciso”? [risos]
Xis – Rockgol. Às vezes, quando tem as paradas, não dá tempo. Ou quando estou em uma praia, pra jogar com uns amigos, mas não jogo. Espero um dia ter… – o Chico Buarque é que tem em casa um campo? No meu prédio não tem nem quadra. Se tivesse, eu iria bater uma bolinha de vez em quando.

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Hip hop
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