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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 14/26

Nunca fui escolhido como o Charlie Brown foi

Tacioli – Li em uma entrevista sua em que você diz que ficou impressionado com a estrutura desses shows com a Cássia, que é uma coisa que você busca para o rap.
Xis – É. Funcionar no horário. Você já foi a algum show de rap? Você ir lá e escutar um som bom. Não dá para você tocar em um show em que você vai subir às 4 da manhã no palco. Você chega às dez para tocar às 4 da manhã. Os caras são loucos!
Monteiro – “Você já foi em um show de rap?” “Já, mas não consegui assistir.” [risos] Você falou que o primeiro disco vendeu 50 mil cópias, mais ou menos. Você pega uma banda como o Charlie Brown, que está com um disco novo na praça. Pra ele vender 100 mil, tem que tocar três músicas direto no rádio, todos os dias.
Xis – Você está entendendo? Só que nunca fui escolhido como o Charlie Brown para a minha música tocar três vezes na rádio. Eu não sou escolhido como o Rodox. Eu queria chamar o André Abujamra e “Pô, André, tudo bom? Vamos tomar uns drinques. A gente tem 60 mil para fazer um clipe. Vamos fazer como aqueles Porcos e diamantes [n.e.Originalmente, Snatch, filme do diretor inglês Guy Ritchie, inspiração para o clipe de “Hoje eu acordei feliz”, do Charlie Brown Jr., dirigido por André Abujamra]. Sabe assim? Pô!
Monteiro – Mas a molecada ouve o rap, e não mais o rock, que não é mais referência pra ela.
Xis – Mas esses moleques são espertos, porque vão escutar o rap nos lugares mais difíceis, porque não toca, mano.
Monteiro – Esse é o ponto. Por que o rap não invadiu tudo? Você acha que é somente esse problema de estrutura?
Xis – Porque talvez o dia em que, não vou falar um Xis, mas o dia em que eu for diretor de uma gravadora, daqui a 20, 30 anos… Talvez pessoas como eu, os caras do Instituto, os caras que chamaram o Sabotage, não estão hoje nas gravadoras. Meu contato com a Warner foi bacana. Não teve briga com ninguém. O Tom Capone, irmãozão, tá ligado? Mas os caras vivem dentro do escritório. Eles vivem dentro do escritório e o telefone que tem na agenda é o do Poladian, tá ligado? Então, não vai haver espaço. Eu tenho um programa na rádio Jovem Pan e acho que o Tutinha nunca escutou, mano!
Dafne – Você acha que os executivos de gravadora não sabem o que acontece nas ruas?
Xis – Eu acho que eles são mal assessorados, eles não sabem o que acontece nas ruas e o que rola fora do país, porque senão o disco do Assassin teria sido lançado aqui, senão o disco do Nep-Tunes teria sido lançado aqui, senão o 50 Cent’s teria sido lançado aqui, que é um moleque de Nova York, do selo do Eminem. O moleque é terrorista, é bom pra caralho. Daria pra trazê-lo pra cá, ele está a fim de vir. O moleque é um músico. Ele é um gangstar, encrenqueiro? Vamos levá-lo lá para os Racionais, lá para a zona sul. Ah! O J-Live o que é? É professor, dá aula no Brooklin pra moleques que são encrenqueiros? Ele faz rap com jazz? Vamos trazê-lo e pô-lo junto com o Xis, que é mais a pegada dele. Mas não existe isso. Qual é o esquema? O esquema é produzir qualquer merda e investir nisso. Qual é o esquema? Vou pegar uma mina que é gostosa, depois vou colocá-la numa Playboy, depois em uma televisão, depois em um desfile, em seguida rádio, rádio, rádio. Depois paga a rádio pra tocar e depois não tem dinheiro pra pagar a rádio e…
Max Eluard – Vende 150 mil cópias, mas descartáveis.
Xis – E vou além: e ninguém está vendendo todo esse disco, não. Não está vendendo, não! Mas, porra, os Titãs, em carreira-solo, venderam quantas cópias cada um? Se o Caetano vendeu 100 mil gravando Peninha quanto tempo depois? Porra, é foda isso aí. É foda você tratar com uma realidade que não existe.
Tacioli – Você acha que essa falta de visão dos executivos de gravadoras, essa falta de intercâmbio e de investimento, podem fazer com que o rap perca força, perca o seu tempo?
Xis – Pô, sabe a quantidade de coisas que era pros Racionais terem feito? A quantidade de coisas que o Xis poderia ter feito? Um monte. Daqui a cinco, seis anos, não sei se tenho mais pique pra fazer uma pá de coisas. Momentos.
Seabra – O curioso que por conta disso eles deixam de ganhar dinheiro.
Xis – Perdem dinheiro. O negócio está aí. A molecada não gosta de rap? A molecada não gosta do Xis, dos Racionais, do De Leve, do D2? É o que conversei com o taxista agora, o Brasil é muito dos herdeiros, tá ligado? É muito dos herdeiros em todos os sentidos.
Seabra – E você acha que isso pode mudar?
Xis – Não, vai demorar umas gerações. Quando o país for “Você tem talento? Você vai!”, “Não tem talento? Lamento!”, sabe assim? Se não tem talento pra isso, vá fazer algo em que você tenha talento. Mas, pô, você chega em uma gravadora em que uma mina que trabalha com música não vai assistir a shows, não vai ao teatro, não compra CD, vive somente no mundo dela, e aí vai ficar puta com você, porque você tirou dinheiro de marketing dela que iria distribuir para os amigos? Isso é ruim.
Monteiro – Mas se você prestar atenção nessa estrutura, os caras estão se matando. A indústria está perdendo força. O investimento que se tem para fazer uma Kelly Key, por exemplo, não dá mais aquele retorno que teoricamente dava.
Xis – Até a Kelly Key poderia ser melhor. É como a Britney Spears, a Christina Aguilera, que está trabalhando com uns molequinhos chamados Neck Tunes, uns nerds, dois moleques que são terroristas em programação. Estão arregaçando. Você pega o disco que da mina e consegue escutar. Eu consigo entender o mercado, tem que ter coisas que… [fala para o garçom] Faça um favor pra mim? Você pode trazer um outro [chope]? Esse daqui está quente pra caralho! Mas pode trazer até a metade porque não bebo tudo, tá ligado, tenho que ficar falando também. [risos]
Tacioli – Xis, você pode parar para beber.
Xis – Se liga aí, pô, Christina Aguilera? Vamos fazer um trampo decente com essa mina? Ela é gostosa, bonita? Não sei se é um raciocínio errado, se não tem que ter essas coisas, mas faça um disco bem feito. Eu acho que o país é muito dos herdeiros, muito cartas marcadas, o pessoal não quer abrir mão. Sabe essa parada do Maluf ainda querer ser eleito? Não precisa mais, mano! Pô, chega, você já fez o que tinha que ser feito, já fez suas pontas, já roubou, já ganhou, já fez coisa do bem, já fez coisa do mal. Não precisa mais ser eleito! Deixe outro cara ser político, deixe outro cara apresentar idéias novas. Deixe um cara que está na rua agora, com 25, 26 anos.

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Hip hop
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