gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 13/26

O rap no Brasil está buscando uma identidade

Max Eluard Xis, você tem idéia da grandeza do Brasil no rap mundial? Ele é respeitado? É visto como uma coisa nova?
Xis Fiz alguns intercâmbios com algumas pessoas. Posso falar do Xis. Fiz uma mini-turnezinha com um grupo chamado Assassin, um grupo da França, um dos mais conhecidos, uma espécie de Thaíde & DJ Hum da França. Político, que é um cara que não mostra o rosto. É uma banda fudidaça! A França é o segundo mercado. O Lusafrica chegou a ir para lá. O que eles devem conhecer lá é Xis, Racionais, que é conhecido em tudo quanto é lugar, e o Lusafrica. Nos Estados Unidos fiquei um mês. Toquei com uns caras de lá, o Killarmy, que são meio que cafetão do rap, mais de Nova York. Com os caras do Wu-Tang Clan, que já viram muito dinheiro. Toquei com os caras num lugarzinho ali no Queens, em Astoria, onde tem brasileiro pra caralho, mas, pô, pra 200 pessoas, e assim mesmo, clubbers. Em Cuba, o contato hoje é bem mais forte, muito por eu ter ido pra lá e por ter trazido pra cá a Telma que é de um grupo, para dar um exemplo, meio que Luni, porque tem um que é artista, tem um que toca, tem um que tem vinte e poucos anos que é médico. O White e outro, que são do Primeira Base. O Renê que acabou ficando aqui, e até gravou o disco aqui, que já deve estar saindo. Por esse contato, por eu ter ido para lá, por ter ficado pouco tempo, uns quatro, cinco dias, mas fiquei com eles, e por eles terem vindo pra cá, onde ficaram por um bom tempo. Infelizmente, quando eles vieram pra cá, dez dias depois fui para Miami e não pude ficar com eles aqui.
Tacioli – Você acha que…
Xis – Eu acho que o rap no Brasil é muito talentoso, tem muita gente talentosa. Conheço muita gente bem melhor que o Xis. Já vi muitos shows. Conheço muita gente bacana que se tivesse oportunidade…
Tacioli – O que pega para definir que o rap de alguém é muito melhor do que de outro? Quais são os elementos que são considerados num julgamento como esse?
Xis – Você tem que ter talento natural pra fazer qualquer coisa na vida. Mas em um país capitalista como o Brasil você precisa ter livro para você ler, você precisa ter um estúdio bacana para você gravar, para você fazer da melhor maneira aquilo que você está a fim. Não tem como você trabalhar com música ou com som e gravar mal gravado e não ter nenhuma qualidade técnica bacana para poder desempenhar bem. E os moleques daqui não têm. E uma pá de grupo acaba desistindo porque aparece filho. Eu ainda consegui segurar. Tenho dois filhos. Tenho a Maria Clara, de um ano e meio no sul, e um moleque em casa, mas a maioria dos caras que começaram comigo está com quatro, cinco filhos, sem ter estrutura nenhuma, tá ligado? Isso acaba fodendo um pouco. Mas o Brasil, com certeza, seria o segundo mercado se tivesse dinheiro. A França não tem o mesmo talento que a gente tem aqui. Já acompanhei o rap francês, porque na Cohab meu pai tinha a DirecTV e, durante um tempo, tinha um canal chamado MCM, que passava rap o dia inteiro. Aí você vê que os caras invertem pra caramba. Mas eles não tem o talento pra misturar, pra fazer como fiz com os Originais do Samba, ou o trampo que eles fizeram com o (Marcelo) D2, com samba, que gringo iria olhar e falar, “Isso é um rap que eu nunca vou conseguir fazer”. O rap no Brasil, e estou fazendo o terceiro CD agora, está conseguindo buscar uma identidade própria.
Max Eluard – Ainda não tem?
Xis – Não. O rap é uma música americana. A gente tenta fazer uma música americana. Ou tenta fazer uma de funk, que é uma parada mais para o Parliament, que é mais funkiada. Mas, pô, se você quiser escutar um de funk, quem você vai ter que pegar? Um Tim Maia e fazer um negócio em cima de “Sossego”, tá ligado? Que é a referência nossa, o cara que fez música brasileira fazendo aquilo lá. Apesar que o Tim Maia copiava pra caralho os caras de lá de fora.
Seabra – Existe uma preocupação sua em adaptar…
Xis – Existe.
Tacioli – Mas qual é o caminho?
Xis – É Jacinto Silva, Caju & Castanha, Selma do Coco, Nação Zumbi, Jackson do Pandeiro. O caminho é esse.
Dafne – Não sei se você concorda, mas ouvi o Sabotage no CD Coleção Nacional do Instituto [n.e. Formado por Rica Amabis, Daniel Ganjaman e Tejo Damasceno], e tem uma coisa ali, no “Dama Tereza”…
Xis – O Sabota e o De Leve [n.e. Nome artístico do rapper carioca Ramon Moreno de Freitas e Silva], o moleque de lá de Niterói, são pra mim as coisas mais importantes que aconteceram. Umas coisas mais nossas. O De Leve nem tanto. O 5º Andar sampleia mais jazz, mas é um negócio que eu não comparo com nada de nenhum lugar, tá ligado. Quando quero escutar aquilo, é aquilo ali. O Sabota estava indo para um esquema que seria muito foda. Eu cheguei a fazer umas coisas com samba, que fiz com Os Originais do Samba, mas é um grupo que já passou por muitas coisas e já estava viciado em um esquema. O D2 fez com o Reinaldo, o Brown fez com o Netinho, mas nunca rolou um trampo de fazer mesmo.
Max Eluard – Tem alguém com quem você teria vontade de trabalhar junto?
Xis – Um monte de gente. Eu fiz esse trampo, de certa forma, com a Cássia (Eller). Toquei mais de quinze vezes com a Cássia. Eu até posso dizer que vivi aquilo, fiz parte daquilo. Toquei no Brasil inteiro com a Cássia. Em Porto Alegre, seis vezes no Canecão. Um dos melhores momentos da minha vida foi com a Cássia.

Tags
Hip hop
Rap
Xis
de 26