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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 12/26

Quem está dando a entrevista é o Xis?!

Max Eluard Você fala do Xis na terceira pessoa.
Fernando de Almeida – Eu ia perguntar se a entrevista era com o Marcelo ou se era com Xis.
Xis O Marcelo é outra fita, né, mano?
Max Eluard Quem está dando a entrevista é o Xis?
Xis Quem está dando a entrevista é o Xis. Quem está dando a entrevista é o Xis?! Não sei, mano. [risos] Vocês vão escutar e depois vão ver, mano. Não, umas horas falo como Marcelo, em outras falo como Xis. Não tem como, tá ligado? Se você escutar o meu CD, é o CD do Xis, entendeu, véio? Mas se vocês fossem em casa lá e eu mostrasse uns discos, seriam os discos do Marcelo. Isso é diferente, entendeu? Hoje, quando vou fazer um disco de rap, posso fazer três discos de rap totalmente diferentes, véio. Posso fazer um disco de rap pruma classe mais elitizada, posso fazer um disco de rap prum público 105 FM, periferia. E posso fazer um outro disco de rap pra fora do país.
Almeida Você falou dos Estados Unidos, da África. E Portugal lhe atrai?
Xis Pra caralho! Esse moleque que está aqui, o Ito, de Luanda, ele tem falado… Nos ‘Meus favoritos’ tenho vários sites de Portugal, mas não tenho muito contato. O Gabriel, o Pensador faz muito sucesso em Portugal por causa da língua. Toda a parada de rap, eu manjo pouco de inglês, então vou em sites de Portugal. Estão lá umas matérias, tudo. Tento fuçar por ali, entendeu? Mas nunca tive nenhum contato com Portugal. E é aí que as paradas com a Warner me chateavam, tá ligado? Eu queria fazer esse intercâmbio, entendeu? Ir pra Portugal e trampar lá, conhecer a comunidade hip hop de lá. A mesma coisa que fiz em Cuba, de ter ido pra lá em agosto, num evento que é oAgosto Negro, que é o Havana Hip Hop, que acontece há muito tempo. E depois, no ano passado, abri mão do meu cachê e consegui trazer os moleques pra cá. Três deles tocaram no meu disco. Pra eles foi do caralho… Alguém aqui já foi pra Cuba? Imaginem a cultura hip hop de Cuba! Cuba é do caralho! Se tiverem oportunidade, vão pra lá em agosto. Vi um show em Alamar que tinha 3 mil pessoas. Só grupo de rap, os grupos cantavam. Fiquei meio ali no back-stage, porque, na verdade, não havia back-stage. Os caras cantavam e saiam. Os caras com aquelas filmadoras desse tamanho, aquelas VHS grandonas. Só tem dois canais lá e eles devem ficar assistindo eles mesmos nas porras das fitas. Três mil moleques. Não tinha cerveja, não tinha água, não tinha maconha! A gente andou uns 200 metros pra entrar num lugarzinho que tinha umas Pepsi [n.e. Na verdade, é Tropi-Cola, um lance canadense] assim, um sorvete. Um calor filha-da-puta! Do caralho, tá ligado? Pô, quando falo da Warner, é porque eu queria trabalhar, fazer esse tipo de intercâmbio, mostrar, trazer coisas… E não rolou.
Almeida Perguntei isso porque acabei de voltar de Portugal. Tive a impressão que, para os portugueses olharem para a música do Brasil, independe desse investimento de mídia pesada. Eles se interessam, mesmo.
Xis Não, eles gostam mesmo. Eles não têm acesso, véio. O pai do Ito, que está com 19, 20 anos, falou assim, “Vai estudar. Vai pro Brasil, fica lá. Vê se estuda lá ou vá para o Canadá depois. Escolha um lugar pra você estudar”. O moleque caiu na Cohab, lá na Cohab 2. Naipe europeu, vai, de Luanda e Portugal. O moleque gosta de rap, então ele tem brinco nas duas orelhas, aqueles brincões de diamante estilo Jay-Z [n.e.Rapper e produtor americano], bermudão, as roupas do momento. Aí, o Codorna me fala, “Ô mano, tem um lôco na Cohab que estudei com o irmão dele.” O irmão dele falou assim, “Tenho um irmão que mora em Luanda, tá vindo pra cá, Codorna. Ele é do rap.” Só que esse cara que falou não tem nada a ver. Ele é do samba, sei lá de que porra ele é. O moleque ficou um mês perdido na Cohab. E agora eu adotei o moleque e ele fica andando comigo pra cima e pra baixo. Eles gostam, mas não têm muito acesso. Só os caras que visitam sites e fuçam, que baixam MP3, um ou outro, mas são poucos.

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Hip hop
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