gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 11/26

Eu vendia cerveja durante o Carnaval no Corinthians

Max Eluard Já tomou muito arroxo?
Xis De polícia, esses baratos? Pô, véio, passei um perigo saindo uma vez do Pacaembu. Meu tio trabalhava no Corinthians, e eu e meu primo não pagávamos pra assistir jogo do Corinthians. Íamos tanto que o meu tio conseguiu uma carteirinha no Corinthians. Eu trabalhava vendendo cerveja durante o Carnaval no Corinthians, tá ligado? Meu tio colocava meus primos todos pra trabalhar no bar. Ganhávamos o maior dinheiro. Aliás, o que a gente fazia, mano? Uns caras davam uma grana pra gente e a gente servia por fora, tá ligado? Então, meu tio conseguiu uma carteirinha pra gente. Isso não vou esquecer nunca, 13 de maio de 1988, Corinthians e Guarani no Pacaembu. Maior lua! O Guarani mandando bem pra caralho, segundo ou terceiro lugar ali, e o Corinthians primeiro, mano, embaladão! Saímos – eu e meu primo, e mais dois caras – da Vila Formosa e fomos pro estádio. Era o quê? Sexta ou sétima rodada do campeonato. Nossas carteirinhas novas, a minha não estava plastificada e a dele já estava. A gente estava entrando ali em cima, portão 14, o mesmo que entrei agora. Hoje, infelizmente, não dá mais pra eu ficar no meio da torcida. Vou em tudo quanto é jogo, véio, mas fico na numerada, ou ponho um óculos escuros e uma touca e vou lá pro fundo. Caso contrário, não consigo assistir ao jogo, tá ligado? E aí entrávamos pela Tribuna e íamos pra Gaviões. Só que nessa aí que a gente entrou, o cara falou, “Peraí, peraí!” Pegou a minha carteirinha e a do meu primo e viu que as assinaturas do responsável do clube eram diferentes. Eu não entendi. “Como é que vocês conseguiram essa carteirinha, véio?” Falei, “Meu tio. A gente vem toda hora aí… Meu tio tal, tal, tal…” “Mas não pode, a assinatura está diferente! Essa assinatura aqui não é do cara!”. Aí ele pegou as duas carteirinhas, chamou um comandante da polícia e a gente desceu. Fomos lá pra baixo do Pacaembu onde todo mundo preso fica. Ali debaixo da Gaviões tem uma cadeiazinha, uma delegacia. Não fiquei preso, tá ligado? A gente ficou sentado ali e o cara falou, “Ó, a situação dos moleques é essa, essa e essa. O moleques não estão fazendo nada demais, não, mas estão com essas carteirinhas. Não podem assistir ao jogo, não! Chama tal fulano pra levá-los embora. Vocês têm dinheiro?” “Temos, mas não queremos ir embora. A gente quer assistir ao jogo.” Entramos dentro de uma Veraneio. Não sentamos no corró, lá atrás, sentamos ali na frente, no meio dos caras. Aí um dos polícias falou, “A fita é a seguinte: o cara quer que a gente leve vocês pra tal lugar, mas isso aí não vai dar em porra nenhuma. Fala pro seu pai ir buscar as carteirinhas em tal DP. A gente vai levar só as carteirinhas e vocês vão embora pra casa. Vocês moram onde?” “A gente mora lá na Vila Formosa.” “Vou deixar vocês ali na frente do Hospital das Clínicas, aí vocês vão embora.” E um polícia falou, “Ó, não voltem! Porque se vocês voltarem, vai sujar pra gente!” Dois moleques, mano, e em quinze minutos a gente estava lá de novo. Só que não tinha mais ingresso, véio. Tá ligado quando não tem mais ingresso no Pacaembu? Meu primo grudou no muro pra pular. Aí escuto alguém falar, “Ah, neguinho filha-da-puta!” Quando olho pra trás, eram os mesmos polícias! Era dia 12 de maio, um dia antes da Abolição. Ia rolar um negócio lá na (praça da) República com o Fundo de Quintal. Malandro, a gente tomou uma acelerada dos polícias… “Neguinho, você não vai ver a abolição!” Mas uns baratos do cara engatilhar a arma, tá ligado? Aí me algemaram, algemaram meu primo e colocaram a gente lá atrás. Acenderam a sirene, mandaram o pessoal correr. Meu primo é quem estava pulando o muro. Eu não ia pular porque era meio moleque, tá ligado? Tinha uns dezoito anos. Meu primo uns dezenove, mas muito mais maloqueirinho do que eu, já mais espertinho. Eu ia acabar não pulando, mas meu primo era malaco de estádio, pulava mesmo. Aí saiu com a gente no maior pau, sirene ligada, avenida Pacaembu… E me entra um cara na frente, “Fui roubado, fui roubado!” Eles voltaram e pegaram esses caras. Eles haviam falado pra gente, “Vamos levar vocês pro morro do Alemão!” E não vou chorar, né, mano, que a gente não é de chorar. Mas eu ficava assim pro meu primo, “Mas e aí, mano? E agora, mano?”. E meu primo falava, “Fica quieto, fica quieto! Vamos trocar uma idéia com eles.” E os polícias ficavam assim, “E aí, neguinho, vai querer tomar tiro de oitão ou de doze? Quer tomar com essa ou com essa daqui? Filha-da-puta! Falei pra vocês não voltarem, caralho!” E batia. Não chegou a bater na gente, mas batia forte com o cabo no barato, tá ligado? [bate com o punho na mesa] E eu de cabeça baixa, quieto, né, mano? E meu primo também. “Não fala nada, não fala nada…”. Pegaram mais dois caras e colocaram junto com a gente, apertado pra caralho. Aí levaram a gente prum DP. Era umas 23h30 e a gente estava chegando no DP do Pacaembu. Passei a noite inteira lá, no DP. Os caras pisando na minha. “Cê não é de menor, não, ô neguinho? Grita aí!”, porque só cara que fuma maconha que seria liberado no outro dia. Mudou o plantão e o cara apresentou a gente pro delegado, assim sério, “Esses dois estavam no Pacaembu, biriri, bororó…” Apresentaram a gente como se não tivessem feito nada, ameaçado, nem nada. Meu pai não acredita nessa história até hoje. Eu conto pra ele que fiquei preso e ele não acredita, mano. Juro que falei, “Pai, fiquei preso!”. Foi o único sufoco que passei, mas vi muita coisa, tá ligado? Vi muita história acontecer na Cohab, vi muita coisa acontecer em saída de baile, vi muita coisa acontecer com amigo meu, barato de crime, barato de polícia, muito maluco que está preso hoje.
Almeida Mas você já acalmou alguém que veio no apetite pro seu lado dizendo que você é o Xis?
Xis Não, isso nunca aconteceu. E eu também não trabalho com essa hipótese. Se um dia eu estiver com a minha mulher, e vier um cara me enquadrar, nunca vou falar isso porque, de certa forma, entendo o cara que vai estar me dando o enquadro ali, entendeu? O dinheiro do Xis é o mesmo dinheiro seu, é o mesmo dinheiro dele. Se o cara estiver me roubando, se for um assalto, não tem essa, tá ligado? Não existem essas vantagens, não! Eu não raciocino com isso, não, ainda mais em São Paulo. O barato de São Paulo assusta. Com esses baratos eu até gelo mais, entendeu? Porque o Xis é um cara que tem que ter muita opinião, tem que ter postura, tem que ter isso e aquilo. Então, o Xis é o cara corinthiano, o Xis é o cara que é do rap, o Xis é o cara que é preto e, de certa forma, no meu site, tem vários white power que me xingam. Um dia desses eu e mais duas amigas estávamos em Santana, num dog, de madrugada, assim, “Vâmo bater um lanche?” “Vâmo!”. Saíram quatro caras em uma Blazer. Quatro moleques novos. Passaram cinco metros, “Ô Xis do caralho! Filha-da-puta! Cuzão do caralho!”, tá ligado, véio? Como tem gente que gosta, tem gente que não gosta. Então, não trabalho com esses baratos, não.

Tags
Hip hop
Rap
Xis
de 26