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Entrevistas de música brasileira

Xis

Foto: Max Eluard/Gafieiras

Xis

parte 10/26

Chego no Rio e vou ao pagode da Tia Doca

Monteiro Você estava falando, “A Casa passou…” mas é aquele ditado, “Tudo que não nos mata, nos deixa mais fortes.”
Xis A parada da Casa foi importante, e continua a ser importante porque foi uma das maiores audiências do país. A Casa é importante pra um, é importante pra outro, mas é um negócio muito forte, mano, todo mundo assistiu aquela porra. Ou o seu filho assistiu, ou sua mulher, ou sua sogra. Você teve que fazer um comentário com alguém referente aquilo, mano.
Tacioli Mas você ainda tem paciência de falar sobre a Casa?
Xis Vou na boa. Converso em qualquer lugar. Sei que vou ter que conversar sobre isso. Quando falo assim que estou virando pra cá…
Fernando de Almeida – Você virou, né?
Xis Quando virei o negócio pra cá, sei que isso faz parte da minha vida. Eu vim com o taxista agora. Já peguei três vezes esse taxista. Eu estava falando no radinho, falando com o pessoal do escritório, e ele falou, “Pô, mas quando você fala ‘Xis’, eu lembro do maluco lá da Casa dos Artistas.” “Sou eu!” Ele olha assim, fica olhando pro cabelo, pros óculos. Tenho minhas táticas, né, mano? [risos] Eu troco de óculos, troco o cabelo. As pessoas que olham mais rápido, não prestam a atenção, não me reconhecem. Mas sei que pro resto da vida vou ter que falar sobre isso. Mano, imagina 50 milhões de pessoas que te conhecem. São 50 milhões de oportunidades, véio. Eu estava no Rio, esses dias, lá no Grajaú, com uns moleques lá que são bons pra caralho… AcessemPepa Filmes.
Almeida Eu já vi! São uns caras de efeitos especiais. Os caras são bons, meu!
Dafne Eles têm um negócio de Guerra nas Estrelas?
Xis Eles estão terminando um filme agora. Cheguei a assistir o filme quase inteiro, que é o Coronel Cabelinho contra os Grajaú Soldiers. Grajaú Soldiers é uma gangue. [risos] É bom pra ca-ra-lho! Tô lá no Grajaú com os caras, Rio de Janeiro – fico bolado com o Rio de Janeiro, por mais que conheça o Rio de ponta a ponta, chego lá, vou ao pagode da Tia Doca sozinho, vou pra tudo quanto é lugar sozinho. Desço lá, desço na rodoviária ou no aeroporto e vou sozinho, mano. Mas sou bolado com o “Fé em Deus” que tenho tatuado aqui [mostra o antebraço], que lá é lema do Comando [n.e. Comando Vermelho, organização criminosa carioca]. Não tenho nada a ver com essa porra, mas fico bolado. É a mesma coisa que você fazer uma tatuagem escrita em árabe e ir pros Estados Unidos, entendeu? [risos]
Almeida Não pega bem, né?
Xis Não vai pegar bem, né, mano? Então, tô lá no Grajaú. Fomos pruma sorveteria. Eu até uso uma camisa mais longa. Tô lá e um cara fortinho, com uma camiseta regatinha cavada e uma AR-15, pá, todo tatuado, com uns cordões de ouro, cabelinho raspado. Parado dentro da sorveteria, num canto assim, ó. [levanta-se e imita a postura do sujeito fortinho] E todo mundo à vontade dentro da sorveteria, mano. E eu, macaco velho de periferia, entrei normal, “Aí, firmeza?” [imita a entrada na sorveteria, cumprimentando respeitosamente os locais]. Peço um açaí. [olhando para os lados, furtivamente] “Tô te olhando! Tô olhando pra frente, mas tô te filmando!” Tava esperto! Olhei pros caras do Pepa, pro De Leve, “Tranqüilo?” “Tranqüilo.” Trocando uma idéia com os caras. Ou o cara é do morro, ou o cara… Será que é? Olho pro lado e vejo uma viatura da polícia. O cara é da polícia, mas na periferia? O cara é da polícia, sem nada da polícia, um barato assim, cordão de ouro. Ele, com certeza, não deve ser dos melhores polícias! [risos] Conheço polícia, morô, mano? Em São Paulo a gente sabe como é que funciona. O barato é meio que barril de pólvora ali, mano! O cara olha pra mim assim… [imitando sotaque carioca] “Qualé, mané? Tu não é aquele maluco doCidade de Deus, não?” [risos, enquanto Xis permance sério] Isso quando fui pagar, porque ele ficou me olhando também, tá ligado? Isso que é foda, o cara também ficou me olhando… Aí, tava pagando e falei, “Não sou do filme, não! Sou dum outro barato, aí”. Não faço rodeios, já falo logo a real. “Sou da Casa dos Artistas.” “Ahhh… Tu é o Xis, rapá!“ “É, sou eu mesmo…” E espero o cara falar “E aquela Tiazinha?” Aí, já era… “Comeu?” “Não, mas eu tô vivo e ela também tá!” [gargalhadas] “Tenho o telefone dela, sim, gosto dela. É gente boa!” “Falô?” “Falô!” Mas é um barato que pro resto da vida vou…

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