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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 7/20

Nunca passou pela minha cabeça gravar o Clube da Esquina

Tacioli – Você gravou o Canta Clube da Esquina com Luiz Avellar, mas você não o conhecia pessoalmente, né?
Vânia – Não. Conheci para fazer esse disco e foi um encontro bem interessante, porque parecia que já nos conhecíamos há mais tempo, musicalmente falando. Aquela coisa de respirar junto. Ele é um pianista que tem muito respeito por quem canta, e não é todo mundo que é assim, que entende o tempo do cantor, a respiração, o jeito de terminar uma frase. Foi bem legal!
Tacioli – Ele foi pianista do Milton.
Vânia – Foi durante alguns anos, do Djavan também, da Gal. Ele trabalhou com muita gente. Foi bem interessante trabalhar com ele, bem gostoso.
Tacioli – E como você define esse disco.
Vânia – Esse?
Tacioli – Isso. Como você apresentaria esse disco?
Vânia – Olha que pergunta interessante. [ri] Não sei, acho que é um disco… Eu me sinto privilegiada por ter feito esse disco 30 anos depois daquela minha paixão peloClube da Esquina 1. É um disco de uma intérprete madura. Não gosto de usar essa palavra madura, é meio estranho. De uma intérprete que já tem uns bons anos de cantoria, de janela, e que recebeu o convite com toda essa carga de responsabilidade e de paixão por um trabalho. Eu queria fazer isso. Não que eu tivesse tido essa idéia antes. Nunca passou pela minha cabeça gravar o Clube da Esquina, nem cantar aquelas músicas. Nada. De repente, isso veio e me deu uma alegria muito grande, porque é uma história verdadeira pra mim. Eu já tinha uma história com aquelas músicas, de viajar por Minas Gerais. A família do meu pai era de lá. Escutava a voz do Milton Nascimento no meio daquelas montanhas. Havia uma ligação emocional com esse som e, de repente, fui convidada para fazer essas mesmas músicas. É um disco que me traz muita emoção, muita alegria e muita novidade, também. Isso porque gravamos em três dias, tudo ao vivo [em estúdio], tudo junto com a parte instrumental. Foi o primeiro disco que gravei todinho no Rio de Janeiro. Um disco feito com um produtor diferente, o Mazolla, com quem eu tinha vontade de trabalhar. No meu disco anterior,Belas e feras, eu já o havia convidado pra produzir, mas ele não pôde, estava com a agenda lotada. Foi a primeira vez que trabalhei com ele. Essas novidades todas… O Milton [Nascimento] cantando junto foi o máximo [n.e. Na música “San Vicente”]. Jamais imaginei que um dia eu fosse cantar uma música do Milton, ainda mais com ele.
Fernando – E isso acabou fechando um conceito. Emocionalmente, você tem ligações com o repertório, ele foi gravado ao vivo, que registra muito melhor as emoções que você estava sentindo naquela hora e naquele lugar.
Vânia – Exatamente. Isso foi muito legal.
Fernando – Mas não foi intencional?
Vânia – Não, não, foi saindo. Por isso foi bem gostoso. E, no fim da gravação, quando fui agradecer ao Milton, ele falou assim, com aquele jeito dele, “Eu é que tenho que agradecer. Fico muito contente toda vez que alguém canta minhas músicas.” [ri] Esse é o Milton Nascimento.

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Eduardo Gudin
Vânia Bastos
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