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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 6/20

Ouço em paz e contente a gravação de “Neblina”!

Almeida – Vânia, quando você está gravando um disco, você recorre a alguém para saber se sua voz ficou legal?
Vânia – Eu tenho, eu tenho, mas sou chata comigo mesma e acho que não preciso de mais ninguém. [ri]
Almeida – De mais ninguém para palpitar.
Vânia – Não! Às vezes, preciso de alguém somente para confirmar se algo está péssimo ou se não está, e a pessoa tem que dizer “Está!” ou “Não está!”. [ri] Às vezes, sinto que as pessoas vão ter uma certa condescendência comigo, que não vou ter. “Está bom?”, pergunto. “Ah! Está bom!”, mas sei que não está bom. Então, sou assim, tenho que fazer de novo porque sei que não está bom. O Gudin me ajudou muito, porque ele produziu acho que sete discos que fiz. E ele sabe bem disso, dessa minha chatice em relação à minha própria voz. Ele acha que sou até meio dura comigo mesma. Mas, sei lá… Achei gostoso esse último disco ser gravado em três dias, ao vivo no estúdio, junto com o piano. O que saiu, saiu. Foi o primeiro disco que fiz assim. Tem algumas coisas que ouço e falo “Nossa, se fosse para fazer daquele jeito, em que se pode ficar no estúdio muitas horas, dias, meses, eu ia querer consertar algumas coisas”. Mas sinto, ao mesmo tempo, que o disco tem uma emoção diferente, principalmente por não ter sido consertado. Ficou até mais legal do que aquela perfeição que não-sei-o-quê.
Almeida – E o que a fez optar por gravar ao vivo no estúdio?
Vânia – Foi tudo meio junto. Fomos para o Rio de Janeiro e o Mazzola sugeriu que fosse assim. “Vamos fazer esse disco de uma maneira rápida. Pode ficar interessante se fizermos tudo junto com o piano”. Então, ensaiamos em cinco dias e gravamos em três. Achei bem gostoso. E, várias vezes, o Mazzola disse pra mim “Isso está lindo!”, e eu voltei pra casa, desconfiada. Fui ouvir um mês depois, ainda desconfiada, e “Não é que está bonito, mesmo. Não é que está bom!”.
Tacioli – O calor de um disco produzido assim é diferente daquele todo cirúrgico, não?
Vânia – É gostoso. E a gente ouve tanta gravação que não está tão afinada, mas as pessoas não estão nem aí.
Tacioli – Mas, esse seu rigor presente na gravação de um disco, você o carrega aos discos que você já gravou, “Essa parte não está legal!”?
Vânia – Carrego. Mas não chego a sofrer muito, não, principalmente quando se passam muitos e muitos anos. Falo, “Isso aí até que ficou simpático!”. Mas, às vezes, meses ou um ano depois que um disco foi gravado, falo “Ah! Por que eu não fiz assim?!”
Fernando – Mas é assim, você sempre vai ver com outros olhos depois de feito.
Vânia – Exatamente. Já escutei isso de muita gente que escreve, que não se pode ler o que escreveu logo após sua publicação. Somente muitos e muitos anos depois é que falam “Não é que ficou legal o que fiz?!”. É normal.
Fernando – Mas você fala isso somente porque você mudou também.
Vânia – Pois é, mas tem umas que ouço e falo “Essa me deixou feliz, do começo ao fim!” “Se eu fosse fazer isso hoje, eu queria fazer igualzinho”.
Tacioli – Que músicas se enquadram nisso?
Vânia – A gravação de “Paulista” é uma, daquele disco branco. Acho que está perfeita. Uma que fiz no meu primeiro LP, que não saiu em CD, chamada “Neblina”. É bonita pra caramba, está linda aquela gravação. Eu a ouço em paz e contente. Há algumas outras que escuto e que me deixam feliz. Do disco Canta mais têm várias. Uma chamada “Senhoras do Amazonas” está bem bonita. E, mesmo desse último, agora, ouço e fico feliz. Não vou dizer com tudo, porque daí já é demais, mas com quase tudo. [ri] Eu estou em paz com quase tudo, mesmo porque usei a voz mais nos graves. É um disco, que se você vem ouvindo todos os outros, você vê que eu cantei com tons mais graves em quase todas as faixas. Foi gostoso fazer isso.

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