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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 5/20

Eu tinha uma afinação legal, mas minha voz era pequena

Almeida – Vânia, você sempre adotou uma linha disciplinada com o canto e com a técnica, ou já teve uma postura mais porra-louca, de não cuidar da voz, de não querer estudar, de dizer “Isso aqui é dom, é intuição!”?
Vânia – Houve um tempo, depois que estudei bastante, com três professoras, em que vi que eu não queria ser uma cantora erudita. “Não, vou ser cantora popular!”. Aí, começou essa história do Arrigo. Chegou uma época em que me cansei de professor. Acho que o professor, se a gente não tomar cuidado, começa a ficar paternalista demais, começa achar que sabe tudo, e não é assim. Na hora do palco, quem tem que resolver o assunto é você mesma. Eu me lembro bem que, quando engravidei, quis parar. “Agora vou parar de estudar canto. Chega! Sou eu que vou resolver o assunto!”. Então, aproveitei para nunca mais ir para aula de canto. [ri] Por um lado, achei legal isso. Acho importante fazer técnica. Até hoje faço, mas faço comigo mesma. Sei como funciono. Tenho que dormir bem para a voz ficar legal. Não gosto de tomar coisa gelada. São poucas coisas, não gosto de complicar, não. De vez em quando, se estou meio resfriada e tenho que fazer show, mastigo um gengibrezinho. Mas quanto mais simples você for em relação à sua voz… Coisas básicas. O número um de tudo isso é o sono estar legal.
Fernando de Almeida – Boêmia não dá?
Vânia – É, esse negócio de falar muito e dormir pouco é ruim pra voz. Mas não chegou a ser uma porra-louquice, de falar “Agora não quero mais nada!”, não foi assim. Foi uma tomada de consciência. “Tudo bem, o que eu tinha que fazer em relação à técnica, eu já fiz”. Embora nunca vá dizer “não!”. Se eu precisar tomar umas aulas por algum motivo… Aula sempre é gostosa, desde que… Mas, professor de canto, se você não tomar cuidado, quer lhe botar numa redoma, para você fazer aquilo que eles querem. É uma gente maluca! Não vou dizer que é uma norma, mas é quase, ou, pelo menos, era.
Tacioli – E você nunca deu aula de canto?
Vânia – De canto? Eu não! [risos] Não sei dar aula de canto. Várias pessoas já me procuraram. Quem sabe algum dia eu vá dar aula de canto. Mas é o tipo da coisa que eu não sei. Gosto de falar para a pessoa, “Sei lá, descobre aí, se vira!” [ri]
Tacioli – Vânia, desde que você começou a cantar, como você vê a sua voz? Ela mudou?
Vânia – Ah! Mudou. Como eu falei, lá em Ourinhos eu sabia que tinha uma afinação legal, as pessoas comentavam, mas a minha voz era pequena. Com o estudo, descobri que ela poderia ser grandona se eu quisesse, que dava para usá-la de vários jeitos; descobri os agudos. E, depois, fui descobrindo um jeito para cantar determinada frase, que você pode cantar usando a voz de cabeça, ou a voz de peito, ou misturando as duas. Pode, se quiser, fazer mais gritado ou mais suave. Fui me desenvolvendo por aí. Hoje em dia, sei dosar legal. Brincar um pouco com a voz. É mais gostoso quando, de repente, você faz disso uma coisa seriíssima e uma grande brincadeira, ao mesmo tempo. É o mais legal de tudo.

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Eduardo Gudin
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