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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 3/20

Quando veio o trabalho do Arrigo, falei “Há um caminho a seguir”

Tacioli – Você citou a Rita Pavone e a Wanderléa. Em sua casa, o que se ouvia? O que seus pais ouviam? Rádio?
Vânia – Ouviam. Mais ou menos, viu, não muito. Meu pai gostava muito de noticiário. Havia, todo domingo de manhã, na Rádio Bandeirantes, paradas de sucessos, coisas que estavam ali, “Biquíni de bolinha amarelinha”, Roberto Carlos. Eles tinham discos lá em casa, mas eles não eram muito de ouvir os grandes cantores, não. Ouviam o que passava no rádio, entendeu? Não havia aquela coisa de ouvir música clássica. Meu pai gostava, mas não comprava discos. Fui conviver com música erudita quando vim pra cá. Eu me lembro tão bem de ver, pela primeira vez, um coral ensaiando, aquele mundaréu de gente cantando, quatro vozes diferentes, aquela harmonia. Fiquei encantada! “O que é isso?!” Nunca havia escutado, imaginado um negócio daquele, maravilhoso e, de repente, eu estava no meio daquilo. Fui fazer o contralto, mas não sabia que tinha voz aguda. Fui cantar nos contraltos achando uma maravilha, aquelas mulheres cantando, aqueles agudos. E, depois, não muito tempo, descobri que eu podia fazer aquilo, com facilidade até. Mas eu não sabia. Foi uma coisa boa que o estudo de técnica vocal me proporcionou.
Almeida – Que corais eram esses?
Vânia – Das bienais de música que havia na USP. A primeira foi em 74. Então, vim de Ourinhos para fazer essa bienal e, logo depois, para fazer o cursinho.
Tacioli – Em 1975?
Vânia – Foi no meio de 74. A bienal foi no comecinho de 74. Estudar técnica foi bem legal no meu caso, porque eu achava que tinha uma voz pequenininha, e só. Foi bem bacana. E depois com o Arrigo, tive que me desenvolver muito mais. Eu tinha que pintar e bordar.
Almeida – Houve algum choque entre esses caras da vanguarda e você, que trazia essas referências de Ourinhos? Você chegou a pensar “O que eles estão fazendo? Que som é esse?”. Ou “Esses caras são da minha praia, e eu sou da praia deles”?
Vânia – Não, foi mais por aí. Você sabe por quê? Quando conheci o Arrigo, eu já tinha muita noção de música contemporânea, de música erudita. Já havia feito essas três bienais de música. Eu ia muito à ECA [n.e. Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo], porque na época eu namorava o Hermelino. Aqueles vários cursos da ECA. Então, eu tinha noção de tudo o que estava acontecendo no mundo contemporâneo, dodecafonismo. Eu conhecia bastante essa história. Quando veio o trabalho do Arrigo, foi um choque, mas um choque assim “Ah! Que legal! Oba!”, porque unia aquela coisa contemporânea, com elementos de música erudita, com um pouquinho de teatro, com histórias em quadrinhos e com humor. Não chegou a ser um susto. Foi uma alegria, um entusiasmo. “Há um caminho aqui a seguir”. Bem legal! [ri]

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