gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 2/20

Eu tinha um amor imenso pela Rita Pavone!

Almeida – Vânia, você lembra do momento em que resolveu se afastar de Ourinhos e vir para São Paulo?
Vânia – Lembro. Eu queria muito estudar, entrar na USP. Tinha aquele sonho. Meu Deus, a USP era o paraíso na Terra, o lugar mais bacana, onde havia as pessoas mais legais e os melhores cursos. Havia essa vontade. E consegui. Vim fazer o cursinho no Equipe e entrei em Ciências Sociais na USP. Fiquei por lá. No fim, foram quatro anos fazendo a graduação meio assim, porque a música começou junto. Comecei a estudar na Escola Municipal de Música, teoria, flauta doce, canto, coral, essas coisas, e a faculdade eu ia levando. Quando faltava um ano para acabar o curso, começou a história do Arrigo, o Arrigo do Festival da TV Cultura [n.e. O compositor, cantor e instrumentista de Londrina, n. 1951, venceu o Festival Universitário da TV Cultura, em 1979, com a autoral “Diversões eletrônicas”, parceria com Regina Porto]. Isso já era em 79. Sabe quando aquele horizonte de profissionalização se faz presente? Aí, eu disse “Não vou mais terminar a faculdade”, porque sabia que não seria uma boa socióloga. Eu não ia servir para isso. Queria somente fazer o curso, porque eu achava bonito. E gostei muito de tê-lo feito, só que eu sabia que não iria seguir aquilo. A música sempre foi muito forte. Desde pequenininha eu sabia como é que eu poderia me garantir na vida. Era pela música. Eu sabia disso.
Almeida – Então, foi a USP que lhe trouxe pra cá, e não a música.
Vânia – A música, indiretamente. Sabe aquela coisa que se mistura, que você quer realizar um pouco do sonho de seus pais, que querem ver a filha estudada, formada? Mas é claro que, ali no fundinho, havia a música. “Vou para São Paulo, não sei o que vai dar!” Vim com uma turma que fazia música em Ourinhos. Todos vieram estudar em São Paulo. A gente já tinha aquela coisa, “Vamos para São Paulo estudar e ver no que vai dar!”.
Tacioli – Esse pessoal era um grupo?
Vânia – Era um grupo de música. O líder naquele tempo era o Hermelino Neder. Ele fez Música na USP, chegou a gravar um disco independente, fez músicas em parceria com o Arrigo, mas hoje em dia é professor de música, faz arranjos e tem teorias sobre coisas. Ele foi bem para esse ramo acadêmico. E o Gil Jardim, que é um grande maestro, trabalhou muito tempo com o Milton Nascimento, regendo orquestras. Trabalhou com a Jazz Sinfônica. Agora ele está na Orquestra da USP. Ele veio nessa mesma turma. E outros que estão por aí, fazendo outras coisas. Eu também, como o Gil, fui quem levou mais em frente essa coisa de se profissionalizar, de levar a carreira adiante – nesse sentido de profissão -, de arregaçar as mangas, de sofrer e de viver momentos felicíssimos. Essas coisas todas… [ri]
Dafne Sampaio – De onde vem a música em Ourinhos? Ou você sempre a teve em sua cabeça?
Vânia – Vinha lá de casa mesmo. O meu pai gostava muito de música e eu, de rádio desde pequenininha. Os meus pais são muito musicais. Gostavam de dançar; essa coisa de baile. Sempre foi muito presente na minha vida a alegria aliada à música. Só que nunca existiu um profissional na minha família. A minha avó, por parte de pai, cantava. Dizem que ela cantava lá em Januária, no norte de Minas Gerais, e o meu avô a viu cantando e tirou o chapéu pra ela. Assim eles começaram a namorar. [ri] Então, a história tem uma raiz boa de música. Acho que foi assim. E comecei a gostar de Rita Pavone. Eu tinha um amor imenso por ela. Depois, a Wanderléa. Mais tarde, a Elis Regina e a Gal Costa. E veio vindo, veio vindo. E, na minha pré-adolescência, o Euller, que é o único irmão que tenho, seis anos mais velho, era quem comprava discos. Ele era quem mandava nas coisas, e eu era meio cordeirinho, sabe? Eu ouvia o que ele comprava. Tinha bom gosto, ainda bem. [ri] Então, eu ia ouvindo aquele mundaréu de coisa boa. Tanto é que o Clube da Esquina eu conheci logo que saiu. E foi por meio dele. Eu amava tudo aquilo. E o Euller era o meu divulgador, porque eu era bem tímida, bem quietona. Ele era quem falava “Minha irmã canta!”. Eu jamais abriria minha boca para dizer que eu cantava. Ele era muito expansivo. Tanto é que, quando eu tinha 11, 12 anos, havia muito festival em Ourinhos e na região, Cambará, Jacarezinho. Calhou de ser bem naquela época dos festivais daqui de São Paulo… Aí eu ia cantar a música dos amigos, dos jovens compositores de Ourinhos. Ia lá e dava conta do recado, sem problema algum, sem timidez, vamos dizer assim. Aquela timidez que eu tinha para me divulgar, eu não tinha para cantar. Ainda bem, né? [ri]
Tacioli – Quem eram esses jovens compositores de Ourinhos?
Vânia – Bom, na verdade, nenhum seguiu a música profissionalmente. Acho que são compositores amadores até hoje. Um é o Déo, o Edelcio Vinha de Oliveira, que mora em Brasília e trabalha com um político, não sei direito quem. O Francisco, … Ah, sei lá, estão por aí, fazendo coisas. Mas tenho boas lembranças. Ganhei um prêmio de melhor intérprete do Festival de Cambará quando eu tinha 13 anos de idade. Eu me lembro que foi uma grande coisa, imagina, ter ganho aquele prêmio. E eles faziam umas músicas meio doidas, eu não entendia direito aquelas letras. Mas adorava. Ganhei “melhor intérprete”. [ri]
Dafne – Você lembra o que você cantou nesse festival?
Vânia – A música chamava-se “Dissonhante”.
Dafne – Dissonhante?
Vânia – [canta] “Fotografias coloridas mostram um mundo que é preto-e-branco / Imagens distorcidas / Procuram consertar a vida / Que o som dissonante / Tornou mais interessante”, e aí seguia. Um barato!
Tacioli – Não foi gravada?
Vânia – Não foi.

Tags
Eduardo Gudin
Vânia Bastos
de 20