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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 14/20

Imagine se o João Gilberto fosse participar do Fama

Dafne – E o Fama, aquele programa da Globo. Já foram dois e, tanto os participantes do primeiro, quanto os do segundo, cantam muito parecidos, um pouco desse jeito…
Vânia – Um é cover do outro.
Dafne – É a “whitney-houstonização” da música brasileira. [risos]
Anderson – Ah, mas a Rita Lee falou isso num programa. Inventaram de colocar a Celine Dion como grande cantora e todo mundo decidiu cantar como a Celine Dion. Então, há aqueles tremidos nas vozes.
Dafne – Que é uma espécie de clichê do rhythm and blues norte-americano.
Vânia – Exatamente. Eu acho isso. Até vi pouco essa Fama. Um dia em que assisti, havia um cara no estúdio dirigindo um menino que estava gravando. E você via que o menino queria fazer umas frases assim, sem tanto trinado na voz, com a voz mais retinha. Ele queria fazer um fraseado de um jeito mais bacana, mais elegante, e o cara que estava dirigindo, dizia “Não, você tem que fazer assim, com mais ênfase!” Eu fiquei… Gente, imagine se o João Gilberto fosse participar de um Fama! [risos] Ele não entrava!
Dafne – Ou era o primeiro eliminado. [risos]
Vânia – Esses caras, por um lado, estão botando esses meninos na mídia, e tal, mas estão passando com o trator por cima da alma de cada um. Eles têm talento, cantam bem pra caramba, mas não têm que cantar daquele jeito. E outra: tem que se coreografar tudo? Tudo coreografado! Que pobreza!
Almeida – Eles interpretam a música. Os gestos…
Vânia – Tudo interpretado. Isso não é legal pra ninguém. Nem pra eles, que tão fazendo, nem pra quem está assistindo. Só aquilo, só aquilo… Tem muita coisa pro público ver.
Fernando – E acabam achando que isso é que é o padrão. Se não se canta com aquela voz, não é legal.
Vânia – São coisas do Brasil. Infelizmente. É claro que daí vai surgir uma coisa legal, também. De repente, os meninos vão pra frente… Mas não sei. Que tem isso, tem.
Almeida – Só para fechar. A Andréa Marquee, uma das eliminadas, tinha mais personalidade e parece que isso não coube ali, na “Academia”.
Vânia – É, não cabe mesmo.
Anderson – Mas houve um episódio em que uma menina – loirinha de cabelos cacheados – estava gritando, chorando, esperneando, e falava, “Pô, mas não posso fazer aquilo que quero?! Porque não posso cantar do jeito que quero?”. Achei isso interessante.
Vânia – Talvez isso seja até bom para escancarar o negócio, sabe? Escancara pra depois se encontrar um equilíbrio. Não é o professor de canto que põe a redoma, mas o professor de um monte de outras coisas. É o canto misturado a coreografia, com a maneira de… Quem que pode dizer pra você como pode interpretar tal coisa? A pessoa pode sugerir. De leve, ainda. Acho que, pra quem canta, é muito…
Almeida – Agressivo.
Vânia – Agressivo. Alguém chegar e dizer como você tem que fazer. Tem que haver suavidade. Até quem está produzindo o disco precisa ter esse cuidado. Tanto que tenho uma dificuldade com direção de show. [risos]
Anderson – A gente conversa muito sobre isso.
Vânia – Às vezes, que quero fazer no show aquilo que quero fazer, sabe? De repente, o diretor chega e fala “Não, aqui você não faz isso, não vira pra lá”. Como não? É meio perigoso. Claro que é meio bom também, alguém pra lhe dar umas dicas. O mundo vive de sugestões e dicas, e não de ordens. Aí, fica ruim.

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Eduardo Gudin
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