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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 12/20

Hoje, talento é um adendo!

Fernando – Você falou em “dar certo”, “do projeto dar certo”. O que seria, hoje em dia, dar certo? Provavelmente, houve outros certos em momentos diferentes de sua vida, em que outras coisas seriam certas.
Vânia – Dar certo hoje é vender bastante disco, fazer a sua verdade, fazer muitos shows com muito público, ter horizontes para você se expandir, ter horizontes no exterior – que estou tendo também agora. Tenho alguns discos lançados no Japão, outros foram para a Europa também. E esse de agora tem várias companhias que estão querendo fazer co-produção com a Abril e com a MZA. Não somente comprar, importando-o, mas produzindo-o junto a esses países. Isso é dar certo. Você ter um bom empresário, trabalhando com você, com uma grande visão. Enfim, um bom empresário, uma boa gravadora, saúde pra enfrentar tudo isso, talento – que você vê que nem é o primeiro [risos]. Talento é um adendo. [ri]
Fernando – No final, o que você falou é pra ganhar grana, também.
Vânia – Tudo isso conflui…
Fernando – E quando você começou, na época do Arrigo, o que era “dar certo”?
Vânia – Dar certo era você fazer o que você tinha vontade, contestar todas as coisas que você via, com clareza, que estavam erradas, e ter um desdém daquilo imenso. Enfim, vislumbrar outros horizontes, carregar um monte de gente com você. Sei lá, uma coisa mais por aí.
Tacioli – Pra você, naquela época, isso era ser artista naquela?
Vânia – Claro que tendo talento e indo a fundo na música, mesmo. Ensaiávamos 10 horas por dia sem pensar em um tostão. Hoje faço isso também. Não pense que não, mas, claro, que já é de uma maneira diferente. Naquele tempo havia uma coisa muito mais solta. Éramos, também, mais adolescentes, mais jovens, não tínhamos tanta responsabilidade, tanta preocupação. Claro que você fica com mais vontade de ter uma coisa mais certa. Você fica com essa vontade mesmo e até trabalha para isso. Você quer se instalar de um jeito mais legal, não precisa contestar tanto assim, porque, de repente, essa coisa da contestação nem é mais o principal. A gente já sabe que está tudo uma maluquice. Temos mais consciência, embora pareça que não. E acho que a vida vai ensinando a gente que nada é muito certo, não. A gente pensa que é certo fazer assim e, daqui a pouco, você fala “Não era bem assim”, sei lá. E tentar se instalar de uma maneira condizente. Acho que a gente nunca pode esquecer a sua essência. Isso não dá para esquecer, nem jogar fora, nem deixar de lado, porque não te faz bem, e não te leva para lugar nenhum. Cada vez eu tenho mais consciência disso.
Tacioli – Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil de manter essa essência no contexto atual de “dar certo”, não?
Vânia – Às vezes, penso que, quanto mais você fica em paz consigo mesmo, você se volta para o que você é, é ali que mora o segredo. Está com você e não onde você está procurando, achando que possa estar. Não sei, tenho achado cada vez mais isso. De repente, o mistério não é tão misterioso assim, está lá guardadinho com você. Sei lá… [ri]

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Eduardo Gudin
Vânia Bastos
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