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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 11/20

É fundamental a gravadora em que você está

Tacioli – O fato de ter participado da Vanguarda Paulistana se tornou uma camisa de força para você?
Vânia – Por um lado ajuda, é muito forte isso. Forte no bom sentido. E, por outro, é uma coisa que preciso desbravar para dizer “Tudo bem, foi aquilo, mas não parou naquilo, até porque aquilo não continuou! Foi uma coisa que aconteceu e cada um seguiu seu caminho!” Então, é assim, há um lado muito bom, e há um lado em que as pessoas têm que reaprender a ver a Vânia.
Tacioli – Vânia, você vê obstáculos para as cantoras contemporâneas de São Paulo romperem essas fronteiras estaduais e conquistarem reconhecimento nacional? Acontece a mesma coisa com a Ná Ozzetti, cantora de São Paulo.
Fernando – Que é diferente da Daniela Mercury, por exemplo.
Vânia – Sabe o que eu acho? Tudo isso foi um momento de se fazer música independente. Claro, trouxe conseqüências muito boas e outras… Por exemplo, não ficamos tocando em rádio pelo Brasil todo, nunca fomos de grandes gravadoras. Agora, estou na Abril. Já fui da Sony por um tempinho, fui da Velas, que não tinha esse poder de competição com todas as outras. Isso traz conseqüências, obviamente. Se você não está tocando nas rádios do Brasil todo, se você não está na televisão, na Rede Globo, nos principais programas de lá, fica mais difícil.
Tacioli – Constrói-se uma imagem fora do seu controle.
Vânia – Então, você fica com aquela imagem de cantora…
Fernando – Mais sofisticada.
Vânia – Mais sofisticada…
Fernando – Menos pop.
Vânia – Que nem todo mundo morre de conhecer, aquela coisa… E, a Daniela Mercury, baiana, logo no segundo disco foi para a Sony. Foi aquela explosão! A mesma coisa com a Marisa Monte. Foi aquela explosão! É de uma importância fundamental a gravadora em que você está e a forma como as pessoas vão lhe trabalhar. Mesmo.
Tacioli – Você poderia ter tido um caminho diferente, então?
Vânia – Estou completamente satisfeita com o caminho que fiz. Tinha que ser dessa forma mesmo. Claro que sei da importância de um investimento em cima de você, como artista. Cada vez mais, no mundo e no Brasil, se o artista não tiver um investimento em cima, é complicado, é mais complicado cada vez. Porque, antigamente, as coisas funcionavam de forma mais simples. Lançava-se um disco e, no dia seguinte, estava tocando nas rádios. Hoje em dia, não é assim. Tudo depende de esquema, esquema, esquema.
Fernando – Hoje, como há muito produto sendo lançado, seu produto tem que brilhar mais que os outros.
Vânia – E tem que haver muita propaganda. É impressionante.
Almeida – Tenho impressão que, os músicos que não entram na grande mídia, as pessoas que os ouvem em um show ou em um CD, acham aquela música difícil. Mas isso por não estar na TV.
Vânia – É, de repente, não é.
Fernando – Que não é tão popular.
Anderson – O que é popular? Tocar demais é popular?
Tacioli – Mas esse caminho lhe dá um público fiel.
Vânia – É um público fiel. Não tenho do que me queixar, mesmo, porque tenho um público grandão, esparramado por esse Brasil. Fiz questão – com o Franklin, que é o empresário que trabalha comigo – de desbravar lugares por aí, e as pessoas conhecem e vão. É um público grande, desde criancinha. Não tem aquele público de uma cara só. Gente que gosta de cantor. Não posso me queixar. Um público legal pelo Brasil afora. E muita gente fala pra mim: “Por que não te vejo mais na televisão? Por que você não toca mais no rádio?” Não sei, porque foi assim, sei lá… Cada um tem a sua história. A minha é essa. E eu estou feliz hoje em dia porque pude fazer esse disco pela MZA e que a Abril encampou. É legal você saber que seu disco está distribuído por aí, que não fica aquela coisa, “Procuro o seu disco e não acho!”. É triste a gente ouvir isso. Agora, não estou ouvindo isso. Ou, estou ouvindo menos? [risos] Não, não estou ouvindo. No máximo, as pessoas falam, “Fui procurar e já havia acabado!” Que é mais legal ainda. É muito boa essa história de estar distribuída. Você sente uma estrutura de uma gravadora… Estou dando essa entrevista para vocês graças a estrutura da Abril, assim como tenho milhões de outras entrevistas. Então, é legal… Acabei de vir de Porto Alegre. Você chega lá, tem uma pessoa da Abril te esperando no Aeroporto. E essa pessoa já distribuiu o seu disco por todas as rádios de Porto Alegre, marcou coisas. Você sabe que você está, com a sua verdade, num esquema legal. Isso é que é o mais bacana, mas nem sempre foi isso.
Anderson – Engraçado, viemos no carro conversando sobre o teatro não ter vendido nada de ingressos. Estávamos super preocupados. Mas, quando a cortina foi aberta, o teatro estava lotado. E sem tocar no rádio!
Vânia – Exatamente. É um caminho meio diferente, mesmo. Parece que é à margem, mas é uma margem que, ao mesmo tempo, fica sendo legal. Cria-se uma curiosidade em ver a cantora. Há um lado interessante: as pessoas vão ver até porque você não aparece muito em TV e porque você não toca muito no rádio. “É, eu quero ver. Então, eu vou.” Esse mundo é meio louco. Hoje em dia, tudo é meio louco. Eu acho, meio sem critério, não sei…

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Eduardo Gudin
Vânia Bastos
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