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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 10/20

Você quer mais doideira do que ser cantora neste Brasil?

Almeida – Vânia, levando em conta seu início de carreira com o Arrigo e seus discos mais recentes, você sente falta de experimentar mais?
Vânia – Peguei um outro caminho, mas acho que faço algumas coisas. Há uma vertente para a experimentação, mas há uma outra que é muito concreta, que é fazer discos. Aí, já entra um mundo comercial, em que você tem que se impor de alguma forma, criar vínculos dentro de alguma indústria, que espera coisas de você. E a gente nunca sabe, porque se faz uma coisa achando que pode resultar em algo, e não resulta. Quero dizer, é um mundo meio maluco esse artístico de hoje em dia. Se as pessoas não investirem em você, é muito mais difícil você ter um caminho legal. É uma luta constante, porque não há nenhuma cartilha, nada! Nada que lhe indique “Vá por aqui que está certo!”. Não há! Então, digo assim, “Tive a sorte de fazer os discos que eu quis até hoje!”. É claro que, se houver uma coisa meio doida para fazer, meio experimental, eu topo, é legal! Eu topo desde que isso tenha uma infra-estrutura para segurar essa coisa. Eu gosto! Costumo dizer o seguinte: crio raízes facilmente, mas topo fazer coisas em que confiar. Daí, vou em frente. Você quer mais doideira do que ser cantora neste Brasil? [ri] O primeiro passo já foi dado. Os outros vêm. Pior ainda foi no tempo do Arrigo, em que não havia nada, e ele me jogou no palco, “Vai, você vai fazer tudo!”, “Mas, Arrigo!”, “Não! Você é quem vai fazer tudo. Você é quem vai solar as músicas, você é quem vai fazer as personagens comigo!” Eu não tinha nenhum curso de teatro, nada assim. Foi na raça. E, de repente, eu me vi fazendo tudo aquilo e comecei a gostar da coisa. Eu me lembro do Acapulco drive, em que eu tinha que rodar a bolsinha e na primeira rodada, ele me falou: “Rodadinha decente!” [risos]
Anderson – Lembro quando a vi na TV Cultura, de cinta-liga, rodando bolsinha. Era uma ópera-rock – aquelas coisas malucas do Arrigo. Na época, falei, “Não é a Vânia!”. E agora, você de vestido longo. [risos]
Vânia – Eu fazia essa mulher da esquina que rodava a bolsa. Lembro-me até que a Patrícia, que fazia teatro – esqueci de seu sobrenome -, me disse: “Vânia, está legal, mas seja a fulana, mesmo! Você está no palco, ocupe o palco!.” Fui aprendendo as regras básicas na raça, fazendo, já com o Caetano na platéia. Nesse tempo, o Caetano ia assistir a esses shows do Arrigo todos os dias. Ele ia e levava uns vinte, uma procissão de Caetano Veloso. Esse início com o Arrigo foi assim. E considero um outro início quando fui fazer minha carreira-solo. Costumo dizer que tenho dois inícios de carreira: com o Arrigo e em 87, quando fiz meu primeiro disco, quando fui sentir na pele essa história de ser cantora, sozinha, sem ser da banda de alguém, com toda aquela infra que o Arrigo tinha (mídia impressa, público lotando tudo que era lugar no Brasil e fora do Brasil). Então, tive que reaprender como é que era pisar num palco sendo a Vânia, com o repertório dela, com a responsabilidade dela, tudo.
Dafne – Com o Arrigo, você era um instrumento.
Vânia – Eu era um instrumento…
Dafne – Solava também, mas o projeto era dele.
Vânia – Exatamente. O projeto era dele, os músicos eram dele. Eu estava ali… Era uma delícia, porque eu pegava somente o bem-bom da história. Altas viagens com público, sem aquela responsabilidade de produção, de ter que pensar… Eu pensava somente na hora H. Como era bom!
Dafne – Você já pensava em sua carreira-solo, em seu repertório, quando estava com o Arrigo? Ou isso surgiu depois?
Vânia – Não, sempre pensei nisso. Essa coisa nunca saiu da minha cabeça, porque eu tinha vontade de ser uma cantora brasileira, de gravar discos, de ter uma história. Eu tinha que fazer isso, porque se você fica eternamente da banda de alguém, há um lado seu que não se desenvolve. Você pode até se acomodar e falar “Acabou!”. É uma coisa… Tem que haver muita convicção para fazer isso e ficar em paz. A minha convicção era a de que eu tinha que ver como era esse outro caminho. Queria ser uma cantora brasileira, reconhecidamente brasileira, de uma forma ampla e simples, sem muita história. Mas até hoje as pessoas falam muito nessa coisa de cantora paulista, principalmente no Rio de Janeiro. É um estigma. Não é ruim, mas é uma coisa estranha. Não sei se sou tão paulista, com características paulistas. Não, cantora… Não sei, canto a música paulista, falo da avenida. Não sei se tenho características de cantora paulista. Para muitos lugares onde viajo, as pessoas nem sabem de onde sou. Perguntam-me: “Onde você mora? No Rio, São Paulo?” Não há nada que me refira a São Paulo. Somente o começo, pelo Arrigo. O Rio de Janeiro gosta muito de definir de onde você vem. Acho que, quando a Daniela Mercury vai lá, ela deve ser a cantora baiana, eternamente. Ivete Sangalo, vírgula, baiana. Eles têm um costume, assim como a Folha, que está dando a idade agora. [risos]
Almeida – Faz tempo!
Vânia – Pô, os caras precisam colocar a idade? Pra quê? [risos] O Gudin fala, “Eles tinham que botar a altura também!” [risos] Um metro e tanto. Põe tudo já!

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