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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

parte 9/20

Penso em morar no Rio por um tempo

Tacioli – Vânia, quando alguém do interior muda para São Paulo, traz um olhar caipira, que tanto pode se assustar como se encantar com a cidade. Apesar de se considerar paulistana, você ainda mantém esse olhar caipira em São Paulo?
Vânia – Acho que a gente nunca perde isso. Essa alma, essa convivência que você teve na infância e na adolescência, não tem jeito. Tenho muito esse olhar. Minha família é muito simples. Considero uma família sofisticada e simples, ao mesmo tempo. Uma coisa boa, de gente que não é daquela classe média boba, que quer ficar rica. Não! O meu pai sempre teve muito zelo pelo estudo. É um intelectual à maneira dele, mas é, entendeu? E eu sempre admirei muito isso nele, de observar as coisas simples da existência, e que são as mais sofisticadas, também. Aquela história… Então, essas coisas vão formando o seu caráter. Tenho e carrego isso comigo. Uma certa teimosia também que, às vezes, faz a gente bater a cabeça. “Posso seguir por ali, que é mais fácil, mas quero ir por aqui, mais difícil, mas é por aqui que eu vou!”. Agora, sempre vou ter esse olhar. Sou uma pessoa assim, na essência. E, em alguns aspectos, meio criança. Às vezes, até cultivo isso. Acho legal. E tem aquele olhar meio esperto de quem é do interior, meio gozador, não é? Os outros pensam que somos bobos, mas não somos. [ri]
Tacioli – Perguntei isso ao notar a forma como você cultiva seus ídolos. Esse olhar caipira passa por aí, também.
Vânia – Ah! Passa. Eu me lembro de uma sensação, que foi ao me ver, pela primeira vez, na avenida Paulista, aqui em São Paulo. Era um sábado à noite. Achei aquilo muito chique, “Nossa, que avenida chique!”.
Fernando – E eu aqui. [risos]
Vânia – E eu aqui. Estou estudando aqui. Que lindo! Hoje em dia, vou pra lá e não é bem a mesma coisa. [risos] Que pena! Mas esse olhar caipira é interessante.
Tacioli – Que imagens você tinha de São Paulo antes de vir pra cá?
Vânia – Talvez essa imagem que todo mundo tem, de que você vai desbravar um mundo novo, de que você vai conseguir coisas. Eu me lembro, quando entrei no cursinho e na própria USP, de ver aquelas pessoas meio sisudas, todo mundo assim. “Ai, meu Deus do céu! É isso que eu quero? É isso! Não tem nada a ver comigo, mas tem!” Sabe aquela coisa? O que você perguntou mesmo?
Tacioli – Que imagens você tinha da cidade antes de vir para São Paulo?
Vânia – Era meio isso, de que seria bom. E, hoje em dia, acho gostoso morar em São Paulo. Costumo dizer para as pessoas que São Paulo traz uma solidão gostosa. O interessante é que, às vezes, não temos mais essa solidão no interior, né? Essa coisa de você ficar sozinho, gostoso, que ninguém vai lhe perguntar se você está triste ou aborrecido. Não, você pode ficar sozinho. É gostosinho isso. Sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem parentes, sem vizinhos. Sem aquela cobrança. Esse anonimato em paz é o melhor de tudo.
Almeida – Vânia, você poderia morar em uma cidadezinha próxima daqui – onde veria o céu como em Ourinhos – e ainda curtir São Paulo. Quais são as coisas que lhe prendem a São Paulo? O que há de bom aqui, fora o “anonimato gostosinho”? [risos]
Vânia – É uma porção de coisas. Sei lá, é a própria vida profissional e a própria vida normal. Você começa a criar laços; cria a sua família, cria a sua casa. Você começa a gostar daqui. É como um bairro. Eu não gostaria de mudar de bairro. Mudar de bairro em São Paulo é quase como mudar de cidade. E sou muito apegada às coisas. Para eu criar uma raiz é rapidinho. Então, já aprendi a gostar de São Paulo, a gostar do Itaim Bibi, onde moro. E a vida profissional… O empresário está aqui. As coisas acontecem em São Paulo. Às vezes, penso em morar no Rio por um tempo, mas aí já fico vendo toda a revolução que vai acontecer… “Não, vamos ficar por aqui mesmo!”. O público de São Paulo é superlegal comigo, o carinho que o paulistano tem pela carreira da Vânia… Sempre recebi coisas legais aqui. Não sei. São vários motivos. Os filhotinhos estão aqui.

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Eduardo Gudin
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