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Entrevistas de música brasileira

Vânia Bastos

Vânia Bastos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Vânia Bastos

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Ouvidos para o céu de Ourinhos

Garoava naquela segunda-feira. Na sala estreita, poltronas, sofás, mesa de canto e um frigobar. Nas paredes, pôsteres de artistas de cem, duzentos e cinqüenta, quinhentos mil discos vendidos. Ali, na sede da gravadora Abril Music, com a equipe reduzida, o Gafieiras tentava superar a ausência do garçom, embaixador da informalidade.

A primeira pergunta demorou. A resposta, no entanto, ligeira e afinada, surpreendeu e fez a garoa parar. As paredes se distanciaram e o teto se abriu, educadamente, como se estivéssemos em um planetário. “Gosto muito de ver o céu de Ourinhos, que é a coisa mais linda!”, revelou Vânia Bastos.

Ressurgiram aplausos e vaias dos festivais de Cambará e Jacarezinho. Café da tarde, a mesma casa, os LPs do irmão mais velho e os passeios pelas montanhas de Minas Gerais. No rádio e na TV, o desfile de ídolos inquestionáveis. Rita Pavone. Wanderléa. Erasmo. Caetano. Gal.

Muitas tardes depois, a avenida Paulista e a USP, que apresentou Arrigo e seus experimentos sonoros. Na Vanguarda Paulistana, tornou-se profissional, mas solo, gravou Jobim, Milton e Gudin, seu marido. Os ídolos não eram mais heróis. Também era artista, cantora de voz macia, de repertório diverso, e ouvinte de rádio de boas melodias, como define.

A dialética de Vânia Bastos estava naquela sala. O CD Canta Clube da Esquina, na época, recém-lançado, era um detalhe, como aquelas paredes e seus quadros cheio de zeros. Ali, reviu Ternurinha e, livre das falsas amarras do bom gosto, aprovou a sugestão de gravar um disco com o repertório da intérprete de “Pare o casamento”. “Há um caminho aí!”, garantiu, fascinada.

O horário fechou nosso expediente e recompôs o teto da sala estreita. Com os equipamentos guardados em sacos plásticos, desviamo-nos da luz fria e branca e dos computadores que nos assistiam. Em pé, junto à porta principal, despedimo-nos de Vânia Bastos. Sob a garoa e o céu escuro, tomamos nosso rumo, cada um pro seu canto.

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