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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 8/32

Aqui um não gosta do outro e pronto

Dafne – Estava pensando algumas coisas do rap brasileiro comparando com o rap americano, que já é um puta poder, sei lá, há um dez anos, é um puta poder econômico…
Thaíde – Há mais tempo. Hoje domina totalmente o mercado. Mas há mais tempo é um poder.
Dafne – Ele se transformou num grande poder e isso acabou se voltando contra sua própria vitalidade, né? Começou todo o clichê de mansões, piscinas cheias de mulheres, carrões… claro que isso dentro do rap mais comercial, mainstrean. Não sei em quanto tempo o rap poderia virar uma força econômica aqui no Brasil, mas esse risco existe, de se perder?
Thaíde – Claro que sim. Tanto existe que na época já falava que um dia o hip hop já não estaria do mesmo jeito, já não seria a mesma coisa e a se a gente quisesse continuar de pé a teríamos que acompanhar essa evolução. Boa sorte aí, hein? [despede-se de Nivaldo] Já naquela época falava isso. Não é impossível de acontecer aqui no Brasil e espero que isso aconteça, sem dúvida nenhuma. Se isso acontece no Brasil fico imaginando quantas empresas vão surgir. Quantos selos, rádios, distribuidoras… quantos artistas, sabe como é? Quantas academias, estúdios… muita coisa ia acontecer. Porque aí muita gente vai dar valor, vai ver o dinheiro aparecer e querer participar. Se a gente souber conduzir isso, aí sim a gente vai poder colocar as cartas na mesa. Por enquanto não tem como, não tem jeito. Agora, a gente tem que se preparar muito para quando, e se isso, acontecer outras pessoas não tomem conta da situação. Aí sim a gente vai fazer o papel da marionete, fazendo o que não quer.
Dafne – Para chegar o rap precisa mudar ou o mercado fonográfico, a sociedade civil , o catso que seja, precisa mudar.
Thaíde – O mercado fonográfico já mudou. Já não é mais o mesmo e nem vai voltar a ser.
Max – E só vai mudar daqui pra frente.
Thaíde – Alguma coisa já mudou e vai continuar mudando. Acredito que a música do hip hop é uma das que mais vai se beneficiar dessa mudança toda, porque está em constante evolução. É camaleônica e toda hora está de um jeito e tudo mais se misturando com as outras musicas. E antes, se você não tivesse uma gravadora, o seu trabalho não acontecia. Hoje não. Hoje muita coisa não acontece se tiver uma gravadora envolvida. Mudou tudo. Hoje a gente tem a tecnologia a nosso favor. Agora, acredito que existe uma evolução necessária e mesmo que você não queira, uma hora ou outra você muda a sua roupa, sua opinião, o que você está bebendo, comendo, muda o jeito de falar. Você muda mesmo sem perceber. E o hip hop vem acompanhando essa evolução da humanidade, gradativamente, lado a lado.
Dafne – Mas no Brasil, o que precisaria acontecer?
Thaíde – Acho que aqui precisa ter mais união, mais respeito. Não tem que um querer ser mais que o outro, ganhar mais que o outro. E é isso acontece há muito tempo e é por isso que a gente não sai do lugar. Acho que a gente tem tudo que os norte-americanos têm. Quer dizer, quase tudo, né? [risos] Tem mulher bonita, low rider, b-boy, b-girl, grafiteiros, DJs, ótimas casas noturnas, quer dizer, tem muita coisa. Mas onde você vê essas coisas? Só em casa noturna. A gente não tem um ponto de encontro pra se reunir, debater, divulgar o trabalho. A gente não tem, por exemplo, grandes festivais do hip hop brasileiro. Registrado mesmo, grande festival anual onde a gente possa demonstrar nosso trabalho, trazer outras pessoas de outros países. A gente não tem isso. Então a coisa está engatinhando; não adianta pensar que estamos na crista da onda, porque não estamos. A gente tem que saber administrar o nosso negocio e encarar isso como entretenimento. Não esquecer a seriedade que o hip hop prega já há muito tempo, mas saber também que hoje vivemos na era do entretenimento. Vejo muita gente que, por exemplo, paga não sei quantos mil dólares para o gringo vir para fazer três, quatro músicas, enquanto a gente pega um cachê que a acha ideal pelo nosso talento, pela nossa capacidade, e eles se negam a pagar. Então até quando isso vai acontecer? Até quando não tivermos controle do nosso negocio, do nosso próprio negocio.
Max – Thaíde, você pensa em fazer alguma coisa em nome da coletividade para tentar formar essa rede aí de rappers, ou não é uma coisa que você…
Thaíde – Sempre faço, na verdade, mas dificilmente dá certo, infelizmente. Sempre chamo pessoas para participar dos meus discos, dos meus trabalhos, está entendendo? Sempre estou citando um, citando outro e, infelizmente, não é o mesmo que acontece. É uma panelinha aqui, outra panelinha ali, sabe? Aí vem uma turma que quer ser melhor que a outra turma quando tudo poderia ser apenas marketing, entendeu? Apenas marketing tipo: “Vamos discutir ali para alguém ver amanhã e depois a gente faz um show juntos e fica tudo bem”. Mas não é assim que acontece. Aqui a briga é de verdade.
Max – Aqui falta essa malicia, né?
Thaíde – Aqui um não gosta do outro e pronto. E não precisava ser assim. O Brasil é enorme, cara! Olha só, eles falam tanto, levantam tanto o nariz, e a gente não consegue vender nem para dez por cento da população brasileira.
Max – Muito pouco, né?
Thaíde – Somos mais de cem milhões de habitantes, e um cara vende cem mil cópias e fica contente da vida. Queria ficar mais contente vendendo quinhentas mil, um milhão, dois milhões de cópias. A gente tem mais de cem milhões de habitantes no Brasil, bicho! O cara vende cem mil e já acha que é o cara, entendeu? Ele não tem noção do que é um número de vendagem, não tem noção.

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