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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 7/32

O hip hop começou como consciência, mas também é negócio

Dafne – Quando você acha que o rap brasileiro começou a ter uma cara própria?
Thaíde – Olha só, na década de 1990 acho que ele começou a se firmar mais. Porque daí começaram as misturas com música popular brasileira, aí as coisas começaram a ficar melhor. Mas assim, na época a gente já fazia coisas com a música brasileira. Usamos sampler de berimbau e vozes de artistas brasileiros. Então, de uma maneira ou de outra, a gente já começou a se preocupar que a nossa musica ficasse mais do nosso jeito. Mas depois começaram a misturar samba com repente, essas coisas todas, e aí o rap começou a ficar mais brasileiro do que nunca e isso para mim é ótimo.
Daniel – Teve algum momento de ruptura? Um disco, algum show…
Thaíde – Acho que sim, tiveram vários. Por exemplo, teve uma época que alguns rappers não respeitavam alguns b-boys, alguns b-boys não respeitavam alguns rappers, os grafiteiros estavam meio distantes de tudo aquilo que estava acontecendo, porque estavam vendo o lado deles. Foi uma época que cada um estava vivendo a sua maneira e cada um por si, esquecendo o lance do hip hop com os quatro elementos e tudo mais, entendeu? Mas hoje a gente está bem melhor, tem sites, revistas, campeonatos e tudo mais.
Max – Em que estagio você acha que está o rap no Brasil hoje, Thaíde?
Thaíde – Engatinhando ainda. Sem dúvida, engatinhando… [interrompe] ah, não acredito! Nivaldo? Esse é o grande Nivaldo, diretor, produtor e idealizador do videoclipe da música “Pra cima”. E aí? Não vai voltar mais mesmo?
Nivaldo – Estou desde as seis trabalhando.
Thaíde – É mesmo? Mas tá a pampa lá?
Nivaldo – Programa ao vivo…
Thaíde – É mesmo? legal, hein? Quando vou lá?
Nivaldo – Vamos marcar.
Thaíde – Ah! Só quero ver.
Dafne – O que você tinha perguntado, Max?
Max – Se está engatinhando, o que você acha? O rap…
Thaíde – Ah sim! Porque a gente tem que aprender muita coisa. Tem que aprender a se comportar como artista e impor isso. Não tem que ter vergonha de se colocar como artista. E o artista faz o seu trabalho de várias maneiras e a gente tem a idéia de fazer o trabalho da mesma maneira, sempre! A gente não pensa como entretenimento e a gente tem que pensar como entretenimento.
Max – Você acha que os rappers brasileiros têm um pouco de pudor de se considerar como artista, se ver como artista?
Dafne – Ou acha que artista é um negocio, enfim, sei lá, burguês?
Thaíde – Acho que é mais isso do que isso. Porque, muitos não querem dizer que são artistas, mas fazem arte, isso que não consigo entender. E aí fico pensando: será que eles querem fazer musica só para os amigos? Será que acham errado alguém obter sucesso através do seu trabalho? Prefiro saber que o hip hop começou como consciência, continua consciência, mas também é negocio. Hoje ele é negocio, entendeu? E a gente tem que ter lucro com esse negócio, sem dúvida nenhuma.
Tacioli – Você sempre pensou assim?
Thaíde – Comecei de um tempo pra cá, de uns dez anos para cá, mais ou menos. Porque a gente começa a conhecer pessoas diferentes. A gente começa a conhecer pessoas que vão nos mostrando outros caminhos, entendeu? E muita gente disse e me mostrou que o que fazia era um negócio que rende muito no mundo inteiro e que eu estava fazendo só para mim, os meus vizinhos, meus amigos e não estava tendo lucro nenhum. E é verdade.
Tacioli – Quem são essas pessoas? Pode…
Thaíde – Muitas pessoas. B-boys, alguns DJs, alguns donos de casa noturna, pessoas que de uma maneira ou outra já tinham uma visão diferenciada da maioria e que viam aquilo como negócio. Por exemplo, tem grafiteiros hoje que trabalham profissionalmente com seu grafite e fazem painéis e tudo mais. Tem b-boys que rodam o Brasil inteiro fazendo shows e assim vai. Alguns MCs fazem trilha, trabalham em estúdio. DJs são grandes produtores. A partir de um certo momento a gente começou a ver que aquilo realmente dava lucro e alguns começaram ver isso como entretenimento e negócio. Hoje tem muito mais do que na época, pensando desta forma, mas não tem organização.
Tacioli – Nos dez primeiros anos, quando você…
Thaíde – De 1988 para cá…
Tacioli – É. Que você via de uma forma diferente, não deste jeito. Assim, como é que você via na verdade, você falava “eles se venderam”? Era esse tipo de leitura que você tinha?
Thaíde – Como posso te dizer… não era um negocio de “se venderam”, mas tinha aquele lance. Pensava assim… “puxa, mano, não posso ir na televisão e fazer o negócio do jeito que eles querem, do jeito deles. Tenho que fazer do meu jeito. E se não for para fazer do meu jeito não faço e quem vai lá é faz é porque está se vendendo”. Entendeu? E hoje penso totalmente diferente disso. Acho que a pessoa tem que fazer aquilo que acha que tem capacidade pra fazer. E naquela época não pensava desse jeito. Eu era muito radical naquela época, muito. E hoje sei muito bem que se alguém tiver um produto interessante para apresentar na TV ele vai buscar a maneira mais adequada para apresentar esse produto e a música é a mesma coisa. Só que naquela época não tinha que ir na TV. Eu não gostava de ir em baile por exemplo. Não gostava de dançar em baile quando eu dançava break, eu queria dançar só na rua, aquele papo todo. O tempo vai passando você vai aprendendo que não é bem assim.

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