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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 6/32

Minha falha foi não ter colocado um “e” no rap brasileiro

Dafne – Thaíde, mudando um pouco de assunto, você acha que o rap somente poderia ter nascido em São Paulo?
Thaíde – Não. Mas graças a Deus que nasceu, né? [risos] Acho que poderia ter nascido em qualquer lugar, sem dúvida nenhuma, desde que as pessoas o fizessem direito, com seriedade, com respeito. Mas poderia ter nascido na Bahia, no Rio de Janeiro, poderia ter nascido em São Luís do Maranhão, Porto Alegre, mas não nasceu. Graças a Deus aconteceu aqui em São Paulo. Evito dizer “nasceu em São Paulo” porque muita gente briga dizendo que na mesma época tinha hip hop em outros lugares do Brasil. Então, prefiro dizer que ele aconteceu aqui em São Paulo, entendeu? Porque também eu não fazia parte da história deles lá para saber. Então, não posso duvidar. Mas aqui foi que aconteceu; aqui nós temos a São Bento, Nelson Triunfo, Nino Brown, a Back Spin [ n.e.Triunfo é educador social, um dos mais célebres dançarinos de break do Brasil e, pioneiro, fundou o Grupo Funk & Cia. em 1977; King Nino Brown é DJ, dançarino e presidente da organização Zulu Nation no Brasil; Back Spin Crew, grupo de dançarinos de break, os b-boys, criado em 1985 na Estação São Bento do Metrô e ainda em atividade ], nós temos tudo aqui. Aqui a gente tem Thaíde, Racionais, graças a Deus, os grandes nomes estão aqui em São Paulo.
Dafne – Se o rap acontecesse com mais força no Rio ou em Salvador, ou em Porto Alegre, provavelmente a história seria um pouco diferente…
Thaíde – Com certeza.
Dafne – O que tem de específico na contribuição de São Paulo para o rap?
Thaíde – Acho que São Paulo conseguiu retratar a angústia e a ambição de todo o Brasil, de uma forma ou de outra. Porque por mais que o Rio de Janeiro tenha aquele lance da farra, da festa, do carnaval, a Bahia também e vários outros lugares, São Paulo também tem. Mas as letras do rap de São Paulo são muito cruas, muito duras, apontando os problemas que a gente tem e, às vezes, nem percebe e cutuca todo mundo na ferida, direto. Talvez seja isso que fez o rap de São Paulo ser tão respeitado no Brasil inteiro. E você pode notar que o Rio desenvolveu o funk, né? O pessoal de Recife tem o rap deles com embolada, com essas coisas todas. O pessoal de Porto Alegre tá começando a misturar o rap com a música local. Enquanto aqui em São Paulo a gente faz uma mistura que, metaforicamente falando de Brasil, é universal. A gente faz mistura de rap com samba que o país inteiro tem, entendeu? E acho que dessa forma foi mais fácil para as pessoas se identificarem com o rap daqui; acho que não seria a mesma coisa se a gente fizesse uma mistura com guarânia ou com qualquer outro ritmo.
Dafne – No começo assim…
Thaíde – É, no começo. A única coisa que lamento e sempre vou me lamentar é de não ter colocado um “e” no rap brasileiro. Porque somente isso falta para o rap ser totalmente brasileiro.
Dafne – É ritmo e poesia, né?
Thaíde – Ritmo e poesia. É a única coisa que realmente lamento não ter feito. Penso nisso todo dia.
Max – E você acha que isso seria possível na época?
Thaíde – Com certeza! Sem dúvida nenhuma! Sem dúvida! Era o começo de tudo.
Daniel – Se tivesse começado com “e”…
Thaíde – A coisa seria muito mais fácil hoje, teria muito mais apoio e respeito. Porque tem muita gente que se agarra nesse lance que rap é coisa americana porque é r.a.p. [rhythm and poetry]. E a gente tem o repente e me faltou na época esse tipo de sensibilidade. E a gente teria hoje o nosso rap com “e” e seria, sem dúvida nenhuma, muito melhor.
Tacioli – Não dá para fazer um recall? [risos]
Thaíde – Putz, cara! Ia fazer esse meu disco [ n.e. Thaíde apenas, de 2007, o primeiro feito após o término da parceria com DJ Hum ] todo falando em r.e.p., mas no final um monte de gente falou que agora não adiantava mais, e eu também acho que não. Já faz vinte anos.
Dafne – Mas, peraí, alguém escreveu uma música chamada “rap”, com “e”… [n.e. “Rep”, de Gilberto Gil, gravada pelo próprio no disco O sol de Oslo, de 1998; a dupla Caju & Castanha gravou em 2005 a música “No rep ou no repente” , de Djalma Gomes e Castanha, no CD e DVD Ao vivo no Centro de Tradições Nordestinas ].
Thaíde – Não sei. O Gilberto Gil foi quem fez um comentário desse naipe, que o rap brasileiro deveria ser com “e” e tal. Concordo com ele. Olha só, de tudo que fiz… pode falar o que quiser das coisas que fiz e que deixei de fazer, mas acho que a minha grande falha foi não ter colocado um “e” no rap brasileiro.
Tacioli – Como essa idéia dialoga com os outros rappers? Eles também concordam?
Thaíde – Não, porque também não fico fazendo esse comentário com eles porque muitos aceitam o rap do jeito que ele é. Então, para eles do jeito que é está bem. Mas eu penso muito nisso, acho que se o rap brasileiro fosse com “e” teria mais espaço. Tenho certeza absoluta disso.

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