gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 5/32

A letra de “Ronda” é muito louca

Tacioli – Você se policia? Fala assim “Puxa, não é uma coisa tão bacana pra falar mesmo que emocionalmente tenha a ver com a minha história…”?
Thaíde – Isso mesmo. Tem coisas que nem falo porque talvez aquilo vá saciar apenas a minha vontade. E nem sempre é bom você saciar apenas sua vontade. E bom passar um pouco de vontade e saciar a dos outros. Acho que isso é equilíbrio, entendeu? Já deixei de falar muitas coisas que seriam legais pra mim, pra falar o que seria legal pra mundo, e vice-versa. Isso depende muito da maneira como você se relaciona com o seu trabalho. Eu, por exemplo, primeiro ouço a base e espero que ela passe pra mim, de alguma forma, qual o tipo de tema que poderia desenvolver nela. Eu não pego simplesmente a base e jogo lá e pronto, acabou. Desde criança tenho esse lance de música, gosto muito de musica e já na época prestava atenção nas letras. Lembro que uma vez um tio comprou o disco da Maysa, no qual ela canta “Ronda”, que na minha opinião é a melhor versão até agora dessa música. [ n.e. Não identificamos uma gravação de “Ronda” por Maysa ] Até já tinha ouvido, mas nunca tinha prestado atenção, era criança. Fiquei o dia inteiro ouvindo a mesma música, o dia inteiro, encheu o saco, sabe o que é encher o saco, cara? Meu tio teve que pegar o disco e guardar, ou ia ficar a noite inteira ouvindo também. Então sempre teve esse negócio de me chamar atenção, principalmente as letras das músicas.
Dafne – E com “Ronda” era a letra também?
Thaíde – A letra. A letra de “Ronda” é muito louca. Porque falava da Avenida São João e eu já havia passado pela São João com tio, tia, mãe, vó, e eles falavam “aqui é Avenida São João”, mas eu não sabia de música. Aí ouvi a Maysa falando da avenida e na hora veio a noite, os carros, os ônibus, aquele monte de luzes e tal. Música é um bagulho muito louco mesmo.
Tacioli – E qual era a relação que você fazia, morando na Zona Sul, do centro de São Paulo? Qual era a imagem que você tinha quando moleque?
Thaíde – Então, sabe o que era engraçado, eu tinha medo de túnel. Então quando passava em túnel eu me agarrava à minha mãe. Se tivesse sentado em um banco diferente, corria para o colo dela. Então, algumas vezes, não prestava atenção em distância, nem no que via no caminho, entendeu? Só ficava pensando assim… muito prédio, entendeu? As ruas pequenas. Ainda tinha a marca do bonde e ficava pensando ali, “Puxa vida, que bagulho doido”. Sabia que onde morava não era o Centro da cidade. E na época a gente não falava Centro da cidade, a gente falava Cidade: “Vamos lá na Cidade”. Só isso. E eu já sabia que ali não era o lugar onde morava. Ali era a Cidade e eu morava perto… quero dizer, perto relativamente, né? Mas ia mais para ver as coisas. Não pra ficar, sabe? Só queria ver, entendeu? Naquela época tinha um lance que eles colocavam no Centro que era um ônibus lacrado, e você subia e tinha um balcão no meio do ônibus… ou no canto? Não lembro como era, acho que no meio mesmo, e você fazia a volta nele assim, tinha uns bichos dentro, acho que com uma água, ou formol, sei lá o que era, não lembro, mas tinha umas aranhas enormes, cobras, escorpiões. Como se fosse um bagulho que você pagava um dinheirinho pra ver os bichos e eu ficava louco quando… [interrompe] E aí, Manda? Esse é o Manda que manda. Certo ou errado? Daquele jeito. [risos] A jogada era essa daí.

Tags
Dj Hum
Hip hop
Rap
Thaíde
de 32