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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 32/32

Você compra uma pizza e vem o bagulho embaixo

Daniel – Tem alguma coisa que está te deixando ansioso no momento? Alguma coisa que está pra acontecer, alguma coisa que você está agilizando?
Thaíde – Tem. Mas isso não posso falar [risos], mas tem. É um projeto que quero que dê muito certo, já está fazendo algum barulho e quero colocar isso em andamento pra que se torne um projeto de verdade, que não fique apenas em um disco ou uma festa. Quero que dure por muito tempo, e que possa lançar vários discos, vários artistas, várias festas e que inclui tudo isso que a gente falou hoje. Que inclui mulheres, carros, motos, velocidade, diversão, hip hop. Mas são coisas que precisam de um certo cuidado, porque não pode ser tão pesado ou leve demais, tem que ficar no peso adequado. E se chama… tchan! tchan! tchan! Na próxima edição… [risos]
Tacioli – Sou ansioso, Thaíde, não lido bem com isso. [risos]
Thaíde – Chama-se Os Donos da Cidade, ou DDC. Essa idéia surgiu porque… é o seguinte cara, eu e minha rapa, nós somos muito bem recebidos nos lugares, muitas vezes não pagamos estacionamento, temos crédito e a gente não precisa ter dor de cabeça, por exemplo, pra curtir uma balada… tem sempre mulheres bonitas nos rodeando, pessoas boas querendo colar com a gente… enfim, a gente tem passe livre para circular pela cidade. Não é querer ter a pretensão de ser o dono da cidade, mas é uma metáfora muito bem-vinda e tem a sigla DDC. E é um bagulho que quero lançar disco com uns sons diferentes, mais para diversão mesmo, entendeu? Por exemplo, no lançamento do videoclipe de “Pra cima” a gente colocou duas motos ligadas no palco… tem uma música chamada “Fumaça” e no lançamento a gente acelerou as motos ao vivo mesmo, ficou muito louco mesmo. E são coisas que quero colocar em prática de uma maneira mais eficiente. Porque o público mudou um pouco, aumentou, não é o mesmo de antigamente, e esse novo público está pedindo um pouco mais de diversão. Então isso é como se fosse uma isca, entendeu? Vem se divertir que é o que você quer e aí acaba ouvindo o que precisa. É sempre assim que funciona.
Tacioli – Esse público que quer diversão é tanto da periferia quanto da cidade?
Thaíde – Tanto da periferia quanto esse povo mais endinheirado aí. Porque é o seguinte, uma coisa que muita gente não sabe é que teve um período aí que uma rapaziada da perifa tava indo pra baile, mas não tava se comportando legal. Ficavam na frente tomando pinga e entravam muito louco, sem camisa, arrumando confusão, entendeu? Não estavam nem aí pra consciência, estudo, cultura ou qualquer coisa parecida. Dessa forma pensei, “como é que a gente pode chamar a atenção desse cara e de vários outros que vem com ele…”, porque não é só homem não, tem mulheres desse naipe também, “… e fazer com que eles pelo menos aprendam a se divertir melhor?”. Então vamos oferecer diversão pra eles. Porque até então, a gente ofereceu o quê? Consciência, certo? Aquele lance de estudar, respeitar, cultura, aquela parada toda. Essa coisa toda ainda continua, mas agora vamos levar eles pra se divertir e fazer com que se divirtam de uma maneira melhor. Porque diversão não é ficar na frente do baile sem camisa, tomando um litro de vinho e depois entrar pra acabar com o baile, tá entendendo? E ir onde tem mulher bonita, onde tem carro, moto, gente bem vestida, um monte de gente se divertindo, alguém tomando uma coisa, mas sabendo o limite da sua bebedeira. Porque é igual droga… é assim, todo mundo faz campanha contras drogas, é valido, mas ninguém faz uma campanha para dar apoio ou assistência àqueles que não conseguem se livrar das drogas. O cara que fica tremendo porque fica meia hora sem fumar um baseado, ou cheirar ou beber. E tem muita gente morrendo desse jeito e ninguém dá valor, ninguém tá nem aí. Acho que existe uma hipocrisia muito grande, a droga existe e ela nunca vai deixar de existir, a violência existe e nunca vai deixar de existir, então vamos tentar conviver melhor com esse tipo de coisa. E a situação agora é essa, cara. Droga é vendida nas escolas, na padaria da esquina, você compra uma pizza e vem o bagulho embaixo. Você vai ali e toma uma geral dos homens, os homens tomam seu bagulho, mas na verdade ele vai e fuma o bagulho todo. É a pura realidade. Então a gente tem que fazer com que nossos filhos saibam que isso existe e que nós não vamos ser, pelo menos estou falando por mim… não vou ser o pior inimigo da minha filha se amanhã ou depois ela se envolver com drogas. Quero ser o melhor amigo dela porque nessas horas que ela vai precisar de mim, entendeu? Se eu, simplesmente, fechar a porta e falar, “é drogada sem vergonha, é minha filha, mas não estou nem aí”, estarei fazendo o papel de carrasco. Farei aquilo que todo mundo que está lá em cima faz: pisar na cabeça de quem está embaixo. E não é isso que quero. Sou muito realista quanto a isso. Já tive muitos parentes e amigos que se perderam por causa de drogas e todo dizia que tal sujieot não prestava, aquilo, aquilo outro. Aí chegava o pai bêbado, batia na mãe, batia em todo mundo e ninguém falava nada. Agora, não é você ir lá, comprar maconha e falar, “filha já que você vai saber toma”, não é isso, não é nada disso, mas é você saber que o único amigo que sua filha, seu filho tem é você. E vai ser seu melhor amigo ainda se você prepará-lo para esse mundo e não ser o carrasco, porque ele vai ter medo de você, vai ficar com medo de contar as coisas, vai fugir e procurar o amigo mais próximo que vai ter um baseado pra relaxar.
Tacioli – Mas a relação que você teve em casa, quando você era pequeno… você tinha o amparo dos seus pais…
Thaíde – Não, não. Tive muitos parentes e amigos, vi muita droga dentro da minha casa, de várias maneiras, várias tretas, paradas parecidas. Mas a parada é que o apoio mesmo de dizer, “é assim que acontece”, não teve. Teve aquele lance de mãe, tia, tio te xingar achando que você usava droga. E na época que não usava droga, todo mundo falava que usava. A partir do momento que comecei usar, ninguém falou mais nada. É incrível isso, entendeu? Por isso que a gente tem que preparar os filhos com toda a cara e a coragem para eles saberem o que vão encarar por aí. Você já parou pra analisar a quantidade de adolescentes que estão bebendo e dirigindo ao mesmo tempo? Prefiro muito mais ter lá na TV, “se beber não dirija, se dirigir não beba”, que também é valido. Prefiro muito mais os pais falarem “você vai sair e vai beber que eu sei e é assim, assim assado”.

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Dj Hum
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