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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 31/32

Um orixá não vem se os atabaques não forem bem tocados

Tacioli – Thaíde, só pra encerrar esse assunto etéreo… a espiritualidade se dá pra você de que forma? Tem uma religião…
Thaíde – Acredito e respeito muito o candomblé. Já tive como uma religião mesmo. Fui feito ogan, ogan de Ogum e Iemanjá. Fiquei alguns dias no… esqueci o nome do lugar agora, minha irmã sabe, acho que é roncô [ n.e. Quarto sagrado de iniciação ]. Sei algumas cantigas, sei tocar atabaque, respeito muito o candomblé. Mas hoje não tenho como uma religião. Porque pra ser religião… você tem que estar lá, naquele horário, naquela data, fazer suas rezas organizadamente, aquela parada toda e eu não faço isso, nem tenho tempo pra isso. Mas se ver, ouvir um atabaque tocar, com certeza vou tentar dar uma tocadinha também. Porque não é fácil você ficar ao lado de um atabaque com um ogan que realmente sabe usar aquele instrumento… eu me lembro que a gente fazia o seguinte… a gente tirava o couro dos atabaques, colocava na água para amolecer aquela coisa toda, aí depois colocava no sol pra secar, colocava no atabaque de novo, depois nivelava todas as porcas do atabaque, aquela parada toda. Algumas eram de estaca e aí colocava o couro de novo. Aí passava dendê, deixava ela ali, depois esticava, deixa, grave, médio e agudo e quando chegava de noite apavorava. E deixava a mão lotada de óleo de dendê.
Daniel – Pra tocar?
Thaíde – Pra tocar porque a mão inchava mesmo. Era a noite toda… [faz barulho de atabaque com a boca] tacutu, tacutu…
Max – Não sei se estou enganado, mas a sonoridade do candomblé nunca permeou sua música, né?
Thaíde – É verdade. Sempre falei de santo, dos orixás do candomblé, mas nunca usei um atabaque pra fazer meu som.
Max – Porque? Por ver como uma coisa sagrada?
Thaíde – Acho que mais por isso mesmo. Por exemplo, já toquei atabaque num som do Nasi, no final da música “Consciência” que tá no primeiro disco, mas não sou um cara que fica toda hora pegando atabaque… porque é um instrumento sagrado mesmo. Pra você ter idéia, um orixá não vem se os atabaques não estiverem bem tocados, se as cantigas não forem bem cantadas, se o ogan não for bom, ele não vem. Agora, se o ogan é bom, os atabaques estão sendo bem tocados, e as cantigas estão sendo tocadas do jeito que tem que ser, ele vem na hora mesmo.
Tacioli – Você acha que sua música não tem todos esses elementos?
Thaíde – Nem é isso. Acho que não tenho esse direito… mesmo que alguém me diga não quero ter esse direito de usar um atabaque para fazer a minha música. É muito respeito, muita responsabilidade você colocar um atabaque numa música. Uma hora ou outra… se tiver uma necessidade, vou usar. E já que vocês perguntaram, tem uma base feita pelo DJ Dri que está guardada… era pra ter usado nesse disco, ela é totalmente afro, totalmente candomblé, mas não era a hora certa. Acho que tudo tem a hora certa. Sou afobado pra muita coisa, sou curioso… se você disser assim, “deixa eu te falar uma coisa, ah, depois falo”. Não, não, quero saber na hora, sou muito curioso cara, muito curioso. Dizem que a curiosidade matou o gato… mas não vai matar esse aqui. [risos] Mas não sou afobado tipo, “Tem essa base aqui, quero usar agora”. Se tem alguma coisa que me chama atenção e que não quero me desfazer… sei que tenho que fazer depois. Por exemplo, a base de “Apresento meu amigo” ficou pronta noPreste atenção [ n.e. De 1996, Eldorado ], mas não era pra sair nesse disco. Acabou saindo no Assim caminha a humanidade [ n.e. De 2000, Trama ] e foi a música chave pra esse trabalho. Então, tudo tem seu tempo.

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