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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 27/32

O hip hop é minha casa e o rap é meu quintal

Tacioli – E o rap brasileiro, como é é visto lá fora?
Thaíde – Ele não é visto, nem ouvido, né? Não, não. As pessoas, alguns brasileiros que vão pra lá levam discos porque gostam, comentam e tal. Aí se cria uma certa comunidade, vamos dizer assim, de pessoas que gostam do rap brasileiro. Se for pra lá fazer show vai ter público.
Tacioli – Mas não tem um mercado constituído?
Thaíde – Não tem mercado porque é dominado pelos norte-americanos, isso é nítido, e eles não vão deixar isso da noite pro dia. E não tenho a pretensão de conquistar o mundo com a minha música. Quero conquistar o meu país, porque nem o meu país eu ainda conquistei. Se vendesse pelo menos 500 mil cópias de todos os meus discos, ou no mínimo 100 mil, poderia planejar um esquema melhor… mas nem isso está acontecendo… aí fica difícil! A única coisa que posso fazer é continuar fazendo o meu trabalho e expandindo o campo. É complicado.
Tacioli – Como você faz? O disco hoje… sumindo né? O CD. Pensando na internet, mp3… como é que se sustenta o artista do rap?
Thaíde – Imagem. Show, videoclipes, entendeu? Roupas, bonequinhos do cara, camisa, pôster…
Tacioli – Isso pra quem já está num certo degrau. E pra quem está começando?
Thaíde – Vou falar uma coisa para você… não se vendem produtos de artistas brasileiros, ao menos que sejam conhecidos, porque não existem produtos. Tenho certeza absoluta. Se na Praça da Sé, ou qualquer lugar do Centro da cidade, tivessem posters, fotos dos Racionais, do Rappin Hood… camisetas, calendários, relógios, meu, um monte de coisa… tenho certeza que ia vender, mas não tem. Você pode ver. Vende Snoop Dogg, Dr. Dre, só os gringos, só os gringos. Mas não vende brasileiro, porque a gente não insiste nessa idéia.
Tacioli – Mas o artista, você Thaíde, você não pode? Porque você não articula isso?
Thaíde – Posso, desde que tenha mais tempo e condições de fazer isso. Porque tenho que criar uma filha que vive comigo, tenho que me sustentar, e o carro, dois cachorros, pagar aluguel, luz, telefone, tal e tal, entendeu? Então não posso simplesmente pegar 500 reais e falar, “isso aqui é pra fazer tal coisa”. Não posso fazer isso. E não vai ter ninguém que vai chegar para mim… olhaí uma dica. [risos] “Tenho dinheiro pra investir em você”. Não tem. Então fica complicado mesmo. É a vida como ela é, não tem jeito. Adoro ser quem sou e não posso de jeito nenhum achar que porque gosto muito de ser quem sou tenho que chegar nos lugares e falar, “ô meu, investe aí porque assim assado”. A verdade de cada um é cada um que sabe, então tento agir de acordo com a minha verdade, que é essa: sei fazer música, o rap é uma coisa que, graças a Deus, pra mim não tem segredo, e hip hop é uma coisa que me alimenta. Costumo dizer que o hip hop é minha casa e o rap é meu quintal. E é verdade, porque vivo de hip hop e brinco muito com o rap, tá entendendo? Agora, a vida é do jeito que é. Às vezes, a gente faz show já contando com aquela grana, sabendo que tem uma dívida pra pagar nessa semana. Aí chega lá, não dá público você não recebe a sua grana e volta pra casa com aquele desgosto. Mas, e aí? É mano! Você é desse jeito, sua vida é assim. Então, não adianta você pensar, “puxa vida, não tá dando certo, vou parar”. Agora não tem nem como parar, nem que quisesse, não tem como parar, entendeu? E no final das contas, quando tudo dá certo, vale a pena, viu? Porque… vou falar para você, mano… Viver, ser brasileiro já é complicado, mas viver de arte no Brasil é mais complicado ainda. Você depende daquilo. Às vezes um assalariado se dá muito melhor que eu. Porque, ele vai lá todo dia pro trampo e sabe que vai receber. Eu não, eu dependo de show e às vezes não tem show.

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Dj Hum
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Rap
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