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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 18/32

Porque o rap é a maneira como se declama a poesia, né?

Dafne – Você faria outro tipo, outro gênero de música que não rap? Você se imagina fazendo?
Thaíde – Faria desde que meu canto fosse rap. Porque o rap é a maneira como se declama a poesia, né? E não necessariamente o ritmo. Posso fazer rap com samba, forró, funk carioca, frevo… com qualquer ritmo posso fazer rap, é a maneira como vou falar.
Tacioli – Você menciona ali no livro o samba de breque. Seria um estilo que se não existisse o rap, você poderia…
Thaíde – Com certeza, porque acho que ele tem mais a ver com nosso estilo de música, até pelo tema que eles usam. A maneira de parar o som pra falar, pra concluir a história, é como se estivesse dando, realmente, importância pra quem está ouvindo. É pra realmente todo mundo entender direitinho. Inclusive acho que a idéia do samba de breque foi essa. Acho que o povo mais elitizado não entendia tanto o samba, que eles falaram assim, “peraí, vamos fazer esse povo entender”. Aí começaram a fazer essas pausas pro povo entender melhor. Tem aquela do Cabo Laurindo que falava assim… [canta] “quando o Cabo Laurindo apitar, o que será da minha sina, eu malandro alinhado, como posso fugir, Nossa Senhora, como tem tubarão!”. [risos] E assim ele explica o que vai acontecer [ n.e. Cabo Laurindo é um personagem que esteve presente em vários sambas da década de 1940 e 50; Wilson Batista, por exemplo, o colocou em “Lá vem Mangueira”, “Comício em Mangueira” e “Cabo Laurindo”, esta gravada originalmente por Jorge Veiga ]. Acho um bagulho bem louco. E o rap tem isso daí. Como o rap é falado as pessoas entendem melhor. As gírias. Lógico!
Tacioli – Mas você já pensou em gravar algum samba de breque ou chegou a gravar? Não sei.
Thaíde – Não. Acho que…
Tacioli – Você acha que é muita irreverência?
Thaíde – Acho que… como posso dizer? Acho que tem coisas que são, como diria o antigo ministro, “imexivéis”. [risos] Tem coisa que tem que ficar daquele jeito. Tem regravações, por exemplo, que a música original é melhor e vice-versa, sabe? Agora tem músicas que nem o cara fazendo… [pausa longa] de qualquer maneira não vai ficar boa. A original é mesmo melhor. Por exemplo, posso samplear uma frase de uma música conhecida pra compor a minha. Mas sempre tento fazer alguma coisa diferente. Por exemplo, participei do disco daquele carinha, daquele músico que a gente foi lá em Pinheiros, naquela casa lá, no Alto da Lapa?
Max – Edvaldo Santana.
Thaíde – Edvaldo Santana [ n.e.Thaíde participou da faixa “Chacina” (Edvaldo Santana e Arnaldo Antunes) no disco Reserva de alegria, em 2006 ]. Fiz um som com ele, fiz um som com o Chico César e o Nelson Triunfo [ n.e. Na faixa “Desafio no rap embolada” do disco Assim caminha a humanidade, que Thaíde & DJ Hum lançaram em 2000 pela Trama ], fiz um som com o Nasi. Com Jota Quest, forró, pagode. Sempre estou querendo fazer o meu rap em sons diferentes, acho que vale muito a pena.
Tacioli – Você não tem… qual é o limite?
Thaíde – O limite é fazer um rap mal feito. Acho que esse é o limite. Já fiz com axé, por exemplo.
Tacioli – Com quem?
Thaíde – Carla Cristina [ n.e. Thaíde participou de “Querendo paz”, a música que encerra o disco Coisas do axé – Ao vivo, lançado pela gravadora Atração em 2006 e o segundo solo da ex-vocalista das bandas As Meninas e Papa Léguas ].
Tacioli – As Meninas?!
Dafne – Grande Carla Cristina!
Thaíde – Grande mesmo! [risos]
Daniel – Porque você topou esse convite?
Thaíde – Porque acredito que a música, o rap, pode se encaixar em qualquer outro ritmo desde que você faça isso com respeito. Se alguém do carimbo, sabe? Pinduca, o Rei do Carimbó, me liga querendo fazer um som… eu vou, sem dúvida. Porque quero que meu estilo de música se popularize pra que um dia a gente possa ter um festival de música e o rap esteja incluído. Nem precisa ser o rap original do hip hop, pode ser um rap modificado, um rap mais moderno, um rap onde tenha mais uma cadência de samba com bossa nova, ou qualquer coisa parecida. Porque aí ele se torna mais popular e mostra que existem várias maneiras de fazer rap. E é isso que quero mesmo, não quero que o rap seja só tocado em festa de hip hop, tem que ser em qualquer festa, qualquer lugar. Acho que tem que ter vários estilos mesmos. Por exemplo, o Rappin Hood faz uma mistura com rap e samba muito bem feito, o Marcelo D2 também. Queria que o pessoal de Recife fizessem uma mistura do rap com repente, essa parada toda, e também fossem mais reconhecidos. E assim vai.

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Dj Hum
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