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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 16/32

Tenho certeza que iria ficar só naquele disco

Daniel – Como é que foi que começou sua amizade com o DJ Hum?
Thaíde – Não gostava de dançar em baile, como falei pra vocês, gostava mais de dançar na rua.
Daniel – Que época que foi isso?
Thaíde – 1984, 1985, por aí. Os caras da Back Spin Crew falaram, “olha, tem uma casa da hora lá em Moema, chama Archote e lá toca break”. Falei, “toca break mesmo?”, e eles, “toca new wave, essas paradas”. Falei, “então, mas também toca break?”. [risos] E aí fui nesse dia e falaram, “tem um cara, um DJ chamado Humberto, que toca umas porradas”, e me apresentaram o Humberto. Pensei, quero ver se esse cara toca uns bagulhos da hora mesmo. Era uma casinha pequena, mas era legal, tinha uma pista colorida com luzes por baixo assim, muito legal. Aí, rapaz, de repente ele foi ao banheiro e fui também. Aí cheguei lá, olhei pro pé dele, ele tava com um tênis da hora, e falei, “muito louco esse tênis aí!”. [risos] “Cuidado”, falei pra ele. Ele falou, “Quê? Vai querer me roubar, bicho?”. Aí fiquei olhando, ele ficou olhando também, e deixei para lá. Conto isso no livro também. Aí a gente subiu pra lanchonete e trocamos uma idéia da hora. Comecei a colar todo domingo na Archote, fizemos uma amizade legal. Aí teve o lance da morte do Cláudio, fiz a letra e ele pegou uma base do DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, que hoje é conhecido como Will Smith [ n.e. DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince era uma dupla formada por Jeff Townes e Will Smith ], e fiz o som em cima da “Jeannie”. Não sei se vocês se lembram. Não é “Jeannie”, a gente chamava assim pois o cara usou a melodia… mas não vou lembrar… acho que o nome da música é “Trouble”, uma coisa assim [ n.e. O nome da música é “Girls ain”t nothing but trouble” e sua base foi sampleada do tema do seriado Jeannie é um Gênio ]. Fiz a parada e de lá para cá começamos a conversar sobre música. Dois anos depois fechou a Archote, e um tempo depois rolou a festa My Baby no espaço Mambembe, que era ali no Paraíso e que, infelizmente, não existe mais. Quem organizou a festa foi o Nasi, o André [ n.e. André Jung, baterista do Ira! ] e o Escova. Eles me convidaram pra fazer o som e lá fui eu fazer. Nessa época tinha um parceiro, era o Anderson, que dividia as rimas comigo e pá. A gente foi fazer o som, o pessoal gostou, e fomos no estúdio do Nasi e do André, fizemos um som da hora, pá. Também com o pessoal do Fábrica Fagus [ n.e: Grupo liderado por Márcio Werneck que lançou apenas um disco, E o circo pega fogo, produzido por André Abujamra em 1992 ], que era uma banda muito legal que a gente conheceu na época. Fizemos um som, era “Consciência” , que saiu no meu primeiro disco e teve participação do Nasi. O pessoal gostou. Só que nesse dia o Nasi não participou, quem tava era o Anderson, e a galera gostou, pediu bis e aquela parada toda. Aí pensei, “pô o bagulho é louco mesmo, dá para fazer um bagulho da hora”. Nesse dia estava o Pena…
Tacioli – O Pena Schmidt? [ n.e. Multihomem da cena musical paulistana; já foi técnico de som, coordenador de palco, produtor das gravadoras WEA/Warner, Sony, Som Livre, Continental e Velas; na década de 1990 criou o selo Tinitus; nos últimos anos, fora sua própria produtora, trabalha como diretor artístico do Auditório Ibirapuera ]
Thaíde – É, ele perguntou para mim se não queria fazer a música virar uma bolacha… aí é que falo pra você, mano, porque tem coisas que a gente faz sem pensar, mas que acaba fazendo certo. Respondi não na época. E nem sabia, por exemplo, o peso da resposta que estava dando pra um cara representante de uma gravadora que na época era a maior do país. Eu estava dizendo não, tá ligado? Por isso digo que minha pretensão não era ganhar dinheiro com o hip hop na época, era aprender a desenvolver o hip hop. Aí sim, fazer uma coisa legal. Essa era a minha intenção e falei pra ele assim, “prefiro não fazer porque não quero fazer um disco só, quero vários, e tenho que aprender algumas coisas”. Cheguei no camarim, meu amigo, falei isso pr”os caras… uns me jogaram pra cima, outros me jogaram pra baixo, mas sabia que inha feito a coisa certa. Tenho certeza que iria ficar só naquele disco, tenho certeza absoluta! Seria uma rima mal feita, uma base mal produzida, uma letra mal desenvolvida e uma história mal contada. A melhor coisa foi esperar o tempo certo chegar. Aquele lance de não ver o hip hop como negócio valeu muito, valeu muito mesmo. E aí, o DJ Hum estava lá sentado… não sei se vocês conheceram o Mambembe, era legal, as arquibancadas eram como escadas, era um teatro legal, e tinha a parte da frente do palco que parecia uma pista, um bagulho muito legal, foi uma festa muito louca, muito louca mesmo… e aí o DJ Hum, o DJ Humberto estava sentado lá e falei para ele, “aí, Humberto, estava a fim de fazer um trabalho mais profissional, até recebi um convite de uma gravadora para fazer um disco e recusei; o que você acha da gente fazer um disco pra colocar na rua, pá”. Ele falou, “legal, vai ver dá certo, mas não sei fazer scratches”. Falei, “legal, também não sei rimar direito, então a gente aprende e na hora certa faz”. Firmeza. E foi aí que surgiu a dupla Thaíde e DJ Humberto, porque DJ Hum surgiu depois da São Bento, foram vários debates até surgir o nome DJ Hum. Era DJ Livi? Como era? DJ Uma, DJ Beto, teve um monte de nome, um monte.
Tacioli – DJ Hum veio dele?
Thaíde – Acho que foi ele que falou… DJ Hum porque vem de Humberto. DJ Hum! Hum pode ser de número um. E ai surgiu a duplo Thaíde & DJ Hum. já existia antes, DJ Hum chegou depois pra fortalecer.

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Dj Hum
Hip hop
Rap
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