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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 14/32

E o que a gente fazia? Apertava o botão e entrava na via certa

Daniel – Que equipamentos você dispunha nessa época?
Thaíde – Para escrever ou para fazer show?
Daniel – Para fazer som, as bases, qual que era o equipamento que você tinha?
Thaíde – Olha só. Lembro que na época morava na Vila Missionária e a gente tinha um rádio de pilha, pequeno, preto, daquele tipo que você puxa a antena enorme. Era um rádio deste tamanhinho com uma antena enorme. E a gente colocava na cozinha, em cima da mesa, uma mesa azul que ficava no canto da cozinha, e aumentava o volume para todo mundo poder ouvir.
Tacioli – A gente quem?
Thaíde – Nossa família. E a gente ouvia aquele radinho, pá. E tinha a televisão que a gente assistia direto e os gravadores normais, aqueles pretos quadrados, sabem qual que é?
Tacioli – De mesa?
Thaíde – É. Que abria aqui, assim, e quando apertava era o maior escândalo. Praaaa! [risos] Era uma violência. A gente fala de violência hoje?! [risos] Mas o gravador daquela época, rapaz, era violento. Você apertava e ele praaa! Tinha uns microfoninhos pra ficar cantando e aquela parada toda. E meu tio gravava no 3 em 1, com PSS, que não existe mais.
Daniel – Que é?
Thaíde – A PSS era um sistema do tape deck que você apertava o número e o aparelho ia buscar a música correspondente aquele número. Você apertava o número 5 e ele ia direto. Foi uma revolução quando veio a PSS. Porque a gente tinha que, por exemplo, fazer baile, né? Era fitinha. Era sempre assim, baile no fundo da minha casa era com o 3 em 1, certo? AM e FM, toca discos e o tape deck. E o que a gente fazia? Apertava o botão e já entrava na via certa. No bom sentido, é claro! [risos] O que acontecia? Estava rolando o disco e quando estava perto do final ia lá com o fone de ouvido, ouvia qual era a música da fitinha, dava um pause, quando acabava essa música simplesmente apertava o botãozinho e já soltava o tape deck. Era um bagulho incrível!
Dafne – Mixando.
Thaíde – É, mixando. Era tape e disco e já era, não tinha mais nada. E a gente gravava as músicas do FM, porque, na década de 1980 rolava muita coisa boa na Bandeirantes FM como os programas de equipe de som da Chic Show. Então a gente gravava muita coisa e era novidade na época, né? O Grandmaster Flash lançou… puxa não vou lembrar o nome da música. Só sei que não era “The message” [ n.e. Sucesso de Grandmaster Flash & The Furious Five, lançado em 1982 ]. “The message” é ótima, mas depois ele lançou outra e a gente gravava sempre do rádio e rolava no baile. E ninguém reclamava, inclusive era uma festa muito louca, a gente pegava umas luzinhas assim, lâmpadas pequenas, colocava por dentro do pano da caixa acústica, ligava no falante e ela ficava pum pum pum, aquilo era incrível! Imagina no fundo de um barraco, numa favela, acontecendo uma festa dessa com luz na caixa acústica, luzinha em cima e tudo mais. Meu tio, Zé Carlos, que fazia esses bailinhos e eu junto, lado a lado.
Tacioli – E a vizinhança?
Thaíde – Adorava!
Daniel – Mas seu tio já era DJ?
Thaíde – Não era DJ, mas gostava de música. Quer dizer, gosta. Então ele gravava as fitas, comprava os discos, pegava emprestado, essa parada toda. Mas o que a gente tinha na época de tecnologia era isso. Nem comparação… nem sonhava que poderia ter tudo que tem hoje aqui de tecnologia, por exemplo. A gente usava em show nessa época, quando começou a fazer show, um tape de rolo. Acho que era Akai, grande assim… e o tape tinha um defeito, não sei o que acontecia que ele precisava de uma outra peça que não tinha. Então, o DJ Hum pegava um grampo de cabelo, abria e colocava entre o cabeçote e uma outra peça, e o rolo falava. Pra fazer o rolo parar de falar era só tirar o grampo.
Daniel – Grampo falante.
Thaíde – Pum! Já era.
Daniel – E o que era top que vocês ouviam falar de equipamento na época?
Tacioli – Ah, tá! Pensei que era 3 em 1. [risos]
Daniel – Não, não. O top dos caras que já faziam show, já faziam baile e tal.
Thaíde – Então, tinha o Garrard que era um toca disco muito bom, só que era muito simples e que a gente chamava de Madeirinha porque a base dela era de madeira. Tinha correia, mas também um esquema de retorno muito bom. Não tinha aquele negócio de puxar o prato e ele morrer pra voltar na velocidade. Era instantâneo. Sem dúvida, Garrard foi uma das primeiras salvações dos DJs de periferia. Os caras tocavam nela. Agora o primeiro Technics que vi na minha vida, por incrível que pareça, não foi com o cara de hip hop. Foi com um cara que gosta de hip hop, mas faz rock. Foi na casa no Nasi [ n.e. Do Ira! ]. Estava na casa dele quando vi aquele toca disco, com aquela torre, aquele monte de bagulho com luzinha do lado, apertava e parava um bagulho, fiquei doido. Falei, “mano, o que é isso aqui?”, e ele explicou, “é um toca disco”. Ai que fui me ligar que nos filmes já rolava esse tipo de equipamento e pensei em como nós éramos atrasados. Hoje não, graças a Deus muita coisa que é lançada no mundo é lançada aqui também. Muita coisa, mas não todas as coisas. Quando a gente ia imaginar um disquinho pequininho assim a laser? Quando comprei meu primeiro aparelho de CD, meu amigo… Ave Maria, pelo amor de Deus! E era 4 em 1 ainda, era CD, tape deck, AM, FM e toca disco. Fiquei doido, espalhei pra todo mundo que tinha comprado. Todo mundo ia lá em casa pra ver o aparelho. Hoje, o iPod tem duas mil e oitocentas músicas e cabe mais, e ainda tem foto, filme, videoclipe, um monte de coisa. E ando com ele no bolso que até esqueço. Naquela época, amigo, era complicado. Não tinha nem videocassete pra gente, por exemplo. Não tinha aquele lance de se reunir para assistir um filme no final de semana. Era sempre alguém que tinha e a gente ia pra casa daquele alguém pra usufruir coletivamente. Era difícil.

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Dj Hum
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