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Entrevistas de música brasileira

Thaíde

Thaide-940

Thaíde

parte 0/32

O rap é o meu facão

Estava combinado: rua Treze de Maio, às 20h. Era uma terça-feira. O Bexiga, bairro paulistano que nunca dorme, assistia ao encontro da equipe do Gafieiras. Um já estava lá, outro estacionava a viatura e os três demais desciam a rua que abriga cortiços, a Igreja Achiropita, bares, cantinas e fígados de todas as sortes. Foi no começo da via que homenageia a abolição da escravatura, pertinho da que saúda o santo casamenteiro, que a rapaziada tocou a campainha do escritório de um dos pioneiros do hip hop nacional.

Depois de vencer a escada estreita e sem fim, era hora de batizar os microfones, os pedestais e a mesa de som cheia de botões coloridos, luxo que o Gafieiras nunca contou. Cabo pra cá, fita pra lá, teste aqui, “alô, alô! eco, eco!”, ajuste ali, “alô, eco?”, e a mesa não responde. Na outra sala, Thaíde navegava pacientemente na internet.

O ponteirão do relógio já ultrapassava as 21 voltas quando, com frieza oriental, Daniel Almeida domou o áudio e permitiu que nosso entrevistado assumisse seu posto. Filho da Zona Sul de São Paulo, Altair Gonçalves, o Thaíde, cresceu nos anos 1970 ouvindo rádio. As crônicas típicas do AM – Zé Béttio, Barros de Alencar e Silvio Santos –, aliada à sua perseverança e à observação crítica da relação cidade/periferia, fizeram com que sua narrativa cotidiana apresentasse o ritmo e poesia ao Brasil do fim dos anos 1980. Claro, sempre ao lado do ex-parceiro e amigo DJ Hum, o responsável pelas picapes.

De sorriso difícil, mas bem-humorado, Thaíde não se esquivou de nenhuma pergunta. Espantou seus medos de garoto, relembrou suas piruetas quando era dançarino de break, cantou “Cabo Laurindo”, contou planos e arrependimentos, mencionou Deus e candomblé, e desnudou suas contradições. Aquela era uma terça-feira de 2007, ano em que lançou seu primeiro disco-solo, Thaíde apenas, o sucessor do longíquo Assim caminha a humanidade (Trama, 2000), último trabalho com DJ Hum.

E é como um bandeirante que empunha há mais de 20 anos seu facão que Thaíde abre sua picada na indústria cultural, amplia sua grade curricular (palestrante, apresentador de TV e ator) e viaja pra cima e pra baixo. Mas apesar do hip hop ser sua casa e o rap o seu quintal, como disse na entrevista, ainda mantém o desejo de comprar sua choupana. Para envelhecer costurando versos e rimas, como sonhou em público.

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