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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

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Sivuca

parte 7/19

“Sivuca, no mundo existem flautistas e Altamiro Carrilho”

Almeida – A primeira vez em que você foi pra Europa, você era muito novo?
Sivuca – Para Europa? Eu tinha 28 anos.
Almeida – E como foi essa experiência?
Sivuca – Em 1957, uma lei passada no Congresso pelo então presidente Juscelino Kubitschek promovia a divulgação da música brasileira no exterior. Era a Lei Humberto Teixeira. E eu fui convidado pra participar do primeiro grupo pra tocar no exterior divulgando a música brasileira. Na época era eu, o maestro Guio de Moraes, Trio Irakitan [n.e. Grupo vocal e instrumental potiguar de muito sucesso nos anos 1950], Abel Ferreira [n.e. Clarinetista, saxofonista e compositor mineiro (1915-1980), autor do choro “Chorando baixinho” e um dos criadores da “escola brasileiro de sopro”], Dimas Sedícias [n.e. Compositor e instrumentista cearense (n. 1930), dono de obra que dialoga com a tradição musical nordestina], um percussionista. Éramos em oito. Ensaiamos e fomos para a Europa.
Tacioli – E como foi a formação desse grupo, Sivuca? Alguém selecionou o grupo? Quem estava na direção?
Sivuca – Não, era o Guio de Moraes. Mas Humberto Teixeira [n.e. Compositor, flautista e deputado federal cearense (1915-1979), um dos formatadores do baião, ao lado do parceiro de Luiz Gonzaga, com quem dividiu crias como “Qui nem jiló”, “Asa branca” e “Assum preto”] era quem fazia a seleção. E eu, naturalmente, estava entre eles porque Humberto me conhecia e sabia o que eu podia fazer na Europa. Aí, pronto, ensaíamos três meses e saímos para a Europa. O grupo fez muito sucesso. Depois voltamos ao Brasil. No outro ano, em 59, Humberto chamou Ataulfo Alves pra ir e, três meses depois, Ataulfo disse que não ia mais. Humberto pôs a mão na cabeça. Foi lá em casa me chamar pra eu ir novamente. Eu já estava com bastante problemas aqui no Brasil… “Humberto, eu vou com uma condição: de sair e ficar na Europa”. Ele disse: “Pode ser”. “Humberto, eu tenho que formar esse conjunto.” “Está certo.” Aí, eu chamei um trombonista, Edson Machado na bateria, um contrabaixista, Tião Marinho, uma cantora e um violonista pra acompanhar Waldir Azevedo [n.e. Célebre ompositor e cavaquinista carioca (1923–1980), autor de choros como “Brasileirinho” e “Pedacinhos do céu”, e do baião “Delicado”]. Sei que éramos em doze, porque havia um trio de passistas. Ensaiamos, fizemos um grupo muito interessante, que inclusive num dos shows, aquele clarinetista famoso americano foi assistir… Era um judeu americano que tocava clarinete muito bem, jazzista…
Dafne – Benny Goodman? [n.e. Famoso clarinetista e bandleader norte-americano, foi a figura mais popular da Era do Swing]
Sivuca – Benny Goodman! Ele ficou louco quando viu a gente, quando ouviu o Norato tocar trombone [n.e. O trombonista mineiro Antônio José da Silva (n. 1924)]. Disse: ”Mas é incrível como esse moço toca bem o trombone”. Isso tudo com intérprete, porque eu não falava nada, nem de francês, nem de inglês. Ele queria me levar para os Estados Unidos. “Nada, vou não. Vou ficar pela Europa mesmo.” Aí terminamos. Uma coisa interessante: quatro dias antes de terminar a turnê, num passeio de bicicleta à noite, levei uma queda e fraturei o crânio. Fui bater num hospital lá na Itália. A turma voltou e eu fiquei no hospital, de crânio fraturado. Mas nesse hospital havia um bocado de enfermeiras bonitas, de freiras… Eu comecei a botar o olho grande nelas e aí uma das freiras soube que eu era músico. Ela foi numa loja de instrumento e trouxe uma sanfona. E toda noite era uma noitada, eu tocando pra elas. Sei que quando saí desse hospital era um chororô, aquelas enfermeiras toda: “Pôxa, você podia ficar aqui mais tempo”. “Não, aqui é ótimo, mas é um hospital. Eu tenho que ir.” Aí peguei o trem e fui pra Portugal. Já havia um emprego me esperando. Com cinco brasileiros formei um quinteto muito bom – Nestor Campos, guitarrista; Dimas na bateria, Olga Silva, uma cantora daqui de São Paulo; Nei de Castro, bateria, e eu.
Tacioli – E o contrabaixo?
Sivuca – O contrabaixo era com o Dimas, que havia deixado de tocar bateria. Esse quinteto fez muito sucesso. Aí nós resolvemos ir pra Paris. Pegamos o que tínhamos e fomos aventurar. Lá fizemos umas quinze audições em clubes noturnos, até que em uma delas pegou. Aí pronto, começamos a tocar. Silvio Silveira, que era um cantor brasileiro radicado lá, levou o Eddie Barclay [n.e. Um dos mais famosos produtores franceses e proprietário da gravadora Barclay] pra assistir a gente. O Eddie Barclay ouviu a gente tocar, e junto com o diretor artístico da Maison Barclay, disse: “Leve esse acordeonista lá que nós precisamos falar. Os outros do grupo podem ficar, mas esse aí eu quero”. Assinei contrato com Barclay, mas nós do grupo tínhamos um trato: o primeiro que arrumasse alguma coisa, levaria a turma. Aí, não deu outra: na gravação o grupo foi comigo. Fizemos um disco meio já bossa nova. Eu cantando e tocando, fiz um disco na França e foi um sucesso. O “Samba de uma nota só” estava a mil. Eu, só num dia participei de três gravações de “Samba de uma nota só”, inclusive a versão de Michel Legrand, em que toquei violão. E numa delas eu ia tocar pandeiro…
Tacioli – Você cantou o quê nesse disco?
Sivuca – Toquei sanfona e piano…
Tacioli – Mas você chegou a cantar?
Sivuca – Cheguei a cantar, sim. Cantei “Obalalá”, que é do João Gilberto; cantei “Rapaz de bem”, do Johnny Alf, e “Samba de uma nota só” e “Desafinado”.
Tacioli – Só bossa nova?
Sivuca – Só bossa nova. A bossa nova estava a mil. Toquei músicas de K-Ximbinho, choros, e toquei algumas músicas de carnaval da época. Tudo bem arranjadinho, com meu grupo. Eu sei que o disco ficou um primor. Usei alguns músicos franceses. Eu me lembro que eu levei um flautista chamado Claude Civeli. Claude se sentou e falou: “Como é que você quer que eu toque? Quer que eu toque como toco aqui ou quer que eu imite Altamiro Carrilho?” Altamiro era referência na França como flautista. Inclusive, na época eu conheci Jean-Pierre Rampal, que era um grande flautista clássico de Paris [n.e. Importante flautista francês (1922-2000) responsável pela popularização da flauta transversal como instrumento de solo e que transitou entre o jazz, a música indiana e a clássica], que dizia: “Sivuca, no mundo existem flautistas e Altamiro Carrilho”. Era isso, palavras dele, e eu concordo. Altamiro é realmente um flautista e tanto. Mas aí depois de cinco anos na França, por erro de cálculo, voltei ao Brasil. Isso em fevereiro de 1964.

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Música instrumental
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