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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

Sivuca-940

Sivuca

parte 6/19

“Na minha banda eu não quero nenhum boêmio!”

Tacioli – Sivuca, como é sua relação com Itabaiana? Você visita a cidade?
Sivuca – Volta e meia eu ia lá. Aliás, o afinador da minha sanfona era de Itabaiana. Era um senhor, tinha uns 60 anos, muito inteligente. Era ele quem fazia as geladeiras elétricas que chegavam lá, adaptava tudo pra querosene, consertava o harmônio da igreja, fazia tudo. Então, quando eu chegava na Rádio Clube, eu sempre deixava uma sanfona pra ele afinar. Ele dizia: “Olha, vamos fazer o seguinte: quando você chegar na Rádio Clube e tiver tocando, a nota que tiver mais ou menos desafinada, você tocando, você dá um jeito de tocar ela mais tempo, me mostrar porque eu estou ouvindo.” [ risos ] Que eu acho que foi o primeiro afinador por controle remoto que se tem notícia. [ risos ]
Almeida – E dava certo, Sivuca?
Sivuca – Ele pegava a minha sanfona, eu tocava a nota, ele experimentava, ia lá e consertava. E depois quando eu chegava em Itabaiana, “Ah, eu vi, você me deu a nota, já consertei”.
Tacioli – Itabaiana tinha outras grandes figuras, Sivuca? De quem mais você se lembra?
Sivuca – Tinha. Toda a cidade do interior tem um filósofo, um boêmio e um artesão. Lá, o filósofo era um senhor chamado Evaldo Bandeira. Ele conhecia a história dos grandes músicos todos, e me ensinou muita coisa a esse respeito, o Evaldo. E o boêmio era um cara que cantava imitando Vicente Celestino que eu me assustava toda vez quando ele mandava a primeira nota. Aquela voz de tenor lá do interior sem nenhuma disciplina. Era um negócio terrível! Mas era uma figura maravilhosa. [ risos ]
Tacioli – E o artesão?
Sivuca – O artesão era o afinador, Seu Zé Cabral, grande figura!
Seabra – Não havia o louco da cidade?
Sivuca – Havia dois. [ risos ] E os dois eram meus primos. [ risos ] Era uma tia, que ela endoidou infelizmente. Era uma pessoa inteligente, mas tinha um parafuso a menos. E um primo que enveredou pelo caminho do álcool e perdeu a cabeça também. Ele andava pela rua cantando. Virou um tipo popular, e pronto. Eram esses dois que eu conheci, afora os outros, né? Mas eu tenho muita saudade daquela Itabaiana que eu vivi. Eu fazia muita serenata com a sanfona. Fui estudar música na União de Artistas e Operários e o mestre da banda me deu uma requinta [n.e. Tipo de clarinete usado em bandas de coreto] pra eu estudar. Eu levei a requinta pra casa. Aprendi a primeira escala e decorei algumas músicas românticas pra fazer serenata pela rua. Ele soube que eu andava fazendo serenata com a requinta e a tomou. [ risos ] ”Na minha banda eu não quero nenhum boêmio. Você não vai tocar mais requinta aqui, não!”
Almeida – Você roubou alguma namorada dele?
Sivuca – Não, ele era um senhor já idoso. Mas duas semanas depois eu fui pra Recife. Aí começou tudo.
Tacioli – Sivuca, tem mais alguma história interessante que você lembra com carinho de Itabaiana?
Sivuca – Olha, a histórias mais interessante que eu me lembro é que a minha escola ficava do outro lado do rio. Eu tinha que atravessá-lo. No período de seca eu atravessava a pé. Quando o rio enchia, eu atravessava à nado, com a roupa da escola na cabeça e os livros também. Atravessava, trocava de roupa na casa de uma prima, ia pra escola, depois voltava, trocava de roupa, pegava um negócio chamado cavalete, que era um tipo de aparelho de surfar, mas feito canoa, me deitava e saía nadando. Atravessava o rio pra lá e pra cá pra estudar nessa escola. Era muito bom, muito interessante. E pronto, essa era uma dessas histórias. E os bailes que eu fazia, às vezes, com o meu irmão… Ele ia de bicicleta, botava a sanfona no bagageiro e eu ia no quadro da bicicleta. Chegávamos lá e fazíamos o baile. Ele tocava um pouco também. Depois pegávamos a bicicleta e voltávamos pra casa. São lembranças e pronto. Realmente eu vim me desenvolver como músico em Recife. Foram dez anos de aprendizado em Recife.

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Música instrumental
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