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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

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Sivuca

parte 5/19

“Conte comigo quando chegar ao Rio”, disse o Gonzagão

Seabra – Sivuca, como foi o seu primeiro encontro com Luiz Gonzaga?
Sivuca – Meu primeiro encontro com Luiz Gonzaga foi em 46 na Rádio Clube de Pernambuco. Eu tocava lá e ele, já famoso, foi fazer uns programas lá. Chegou e me viu tocando. Falou, “Que diabo é isso? Como é que se toca desse jeito? Vem cá, eu preciso tocar com você. (…) Olhe, ninguém toca este instrumento como você, não, mas seja sempre simples, porque se você ficar vaidoso, as pessoas não vão lhe tolerar. E conte comigo quando chegar ao Rio”. Uma semana depois ele mandou um telegrama oferecendo um contrato pra ir para a Rádio Nacional, mas eu não podia porque tinha um contrato lá em Recife. Quatro anos depois eu estreei na Rádio Record, aqui em São Paulo, em fevereiro de 1950, com a grande Orquestra Record, dirigida pelo muito saudoso maestro Gabriel Migliori, que era uma maestro por quem eu tinha muita admiração. Era um grande arranjador.

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Tacioli – E como foi a sua chegada na Rádio Clube?
Sivuca – Eu fui lá numa quarta-feira. Houve uma coisa interessante: na frente da rádio havia uma salinha com um balcão e uma mesa de telefone com a telefonista que recebia recado, uma senhora meio gordinha, dona Eliodeth. Ela estava brincando com um gatinho. Pensei que ela fosse a dona do rádio, porque no interior tem aquelas quitandas, aquelas bodegas com aquelas senhoras que ficavam na porta, esperando as pessoas pra comprar geralmente fazendo crochê, brincando com gato. Eu cheguei e disse: “A senhora é a dona do rádio?” Ela disse: “Não, senhor, eu sou a telefonista. O senhor quer falar com quem? “Eu queria me inscrever pra entrar num programa de calouros”. “Ah, isso é com o Seu Nelson.” Aí chamou o maestro Nelson Ferreira. Ele chegou e disse: “Quem é que toca aqui?” “Sou eu.” “Quer tocar uma coisinha pra mim agora?” “Quero.” Estava com a sanfona debaixo do braço, peguei e toquei um frevo chamado “Mexe com tudo”, de Levino Ferreira [n.e. Levino Ferreira da Silva (1890-1970), compositor e instrumentista pernambucano compôs frevos, valsas, maracatus, dobrados, choros e música sacra. É o patrono do Museu do Frevo, que leva o seu nome]. Ele olhou pra mim espantado: “E você tocando desse jeito quer ir pra um programa de calouros? Não, senhor. Um momento”. Pegou o telefone, disse: “ Ô, Antônio Maria [n.e. Jornalista e compositor pernambucano (1921-1964), autor de “Ninguém me ama” (1951), “Manhã de carnaval” e “Samba de Orfeu” (ambos de 1959), e um dos cronistas mais lidos do Brasil], vem ouvir uma coisa. Venha ver esse menino que chegou aqui de Itabaiana”. Juntaram-se mais uns três. “Toca outra música.” Aí eu toquei “Tico-Tico no fubá” a mil. Ele disse: “Toque mais outra coisa”. Aí toquei “Silêncio”, que era uma valsa do próprio Nelson. Ele marejou o olho e disse: “Você quer fazer um programa amanhã aqui?”. “Faço, oxe, faço tudo!” Ele chamou Antônio Maria: “Antônio Maria, redige um programa pra amanhã”. Nesse tempo se fazia um quarto de hora; eram três músicas que a gente chegava na rádio e tocava ao vivo. Depois passava no caixa e recebia o cachê. Foi esse programa que eu fiz. Muito bonito. Foi aí que o Nelson me pôs o nome de Sivuca. Ele ficou meu amigo e foi uma amizade muito bonita. Eu aprendi muito com ele.

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