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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

Sivuca-940

Sivuca

parte 3/19

Tem gente que toca muito bem, mas não é albina

Dafne – E o apelido Sivuca surgiu como?
Sivuca – Essa é uma boa pergunta. Quando eu cheguei em Recife, em 1945, fiz o primeiro programa da Rádio com o nome deste tamanho assim, Severino Dias de Oliveira. Aí o maestro Nelson Ferreira [n.e. Nelson Heráclico Alves Ferreira (1902-1976), compositor, pianista, violinista e regente pernambucano], diretor musical da rádio, chegou junto a mim e disse: “Nós temos aqui um problema que precisamos resolver. O seu nome é nome de firma comercial de interior. Vamos simplificar e usar um nome só. Que tal Sivuca?” Eu disse: “Está bom, maestro, está bom”. Aí, a partir desse momento, eu passei a ser chamado de Sivuca. Há um detalhe aí que uma semana depois eu estreava na Festa da Mocidade, em Recife, com o nome Sivuca. Mas eu havia esquecido que nome ele tinha me dado e quase não fui pro show. Eu via anunciando: ”Aguardem, Sivuca!” Só me liguei quando disse: “O garoto que toca sanfona muito bem”. Presumi que só podia ser eu. Aí fui. [ risos ]
Felippe – Você está esquecendo também o detalhe do José Teles, um repórter lá de Recife, que ficou muito conhecido com uma edição que fez, chamado Do frevo ao mangue beat. Da última vez que ele esteve lá, trouxe uma relíquia do Jornal do Comércio, que é o jornal em que ele escreve. Havia um artigo de um repórter dessa época que falava: “O louríssimo acordeonista de talento inigualável já vem impressionando orquestras desde tenra idade. O único problema é o nome dele, porque certamente com esse nome, esse talento tonto vai se perder pelo caminho”. Mal sabia ele o tamanho do erro que ele estava cometendo.
Sivuca – Duas coisas me ajudaram bastante. Uma: o nome. Outra: o fato de ser albino. Porque tem gente que toca muito bem, mas não é albina. [ risos ]
Tacioli – Ontem o senhor tocou “Filhos da Lua”, que é uma homenagem aos albinos, certo? [n.e. Referência ao show de lançamento do CD Sivuca & Quinteto Uirapuru realizado no dia anterior à entrevista, no SESC Vila Mariana, em São Paulo]
Sivuca – Exato, “Filhos da Lua”. Eu, Hermeto…
Tacioli – Musicalmente, que diferenças você tem com relação ao Hermeto?
Sivuca – Eu costumava dizer que Hermeto é o Beethoven do século 20, mas agora estamos no século 21 e o Hermeto continua sendo o Beethoven do século 21. A minha diferença para o Hermeto é a seguinte: em mim, música é o ingrediente, em Hermeto é uma patologia.

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Música instrumental
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