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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

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parte 2/19

O Guerra-Peixe me encaminhou para as orquestrações

Tacioli – E essa vontade nasceu quando o senhor assistia a organista?
Sivuca – É, logo cedo. Quando eu tinha 8 anos fui fazer a primeira comunhão e lá escutava aquele som bonito do harmônio. Eu queria tocar aquele instrumento, mas passou. Peguei a sanfona e pronto. Aí fiquei com sanfona mesmo. Estudei música, entrei contato com orquestra, pronto. E fui, juntei o dom com prática de teoria musical e deu isso que você está vendo, eu musical.
Almeida – Sivuca, quando você se deu conta que tinha que sair de Itabaiana?
Sivuca – Em 1945. Eu tenho um irmão mais velho que me incentivava muito e sempre dizia: “Rapaz, sai daqui, que essa cidade não tem nada a lhe oferecer. Vá pra um centro maior, onde você possa estudar”. E aquilo foi crescendo, até que em 45, um amigo meu e primo, que morava em Recife, disse: “Se você quiser ir pra Recife pra começar, vá lá pra minha casa”. Aí eu fui e fiquei lá. Fiz uma tentativa em João Pessoa. Não deu certo. Voltei pra Itabaiana, e depois fui pra Recife. Aí lá fui contratado pela Rádio Clube de Pernambuco. Pronto, comecei minha verdadeira carreira profissional, em novembro de 45.

O maestro César Guerra-Peixe. Foto: reprodução

Tacioli – E o senhor tem uma imagem que marcou esse começo de carreira lá no Recife?
Sivuca – Ah, sim, foi lá que eu vi pela primeira vez uma orquestra grande, com cordas. Assisti ao primeiro concerto sinfônico lá no Teatro Santa Isabel, com a orquestra Sinfônica de Recife tocando a 5ª Sinfonia de Beethoven. Aquilo pra mim foi um abrir portas pra um mundo musical que eu realmente desconhecia. Essa é a lembrança que eu tenho. E a lembrança das primeiras lições de teoria musical que eu tive com o clarinetista da sinfônica, Lourival de Oliveira. E daí, anos depois, conheci o maestro Guerra-Peixe [n.e. Compositor, arranjador e musicólogo fluminense (1914-1993)], que me ensinou, me encaminhou no mistério de fazer orquestrações. [ pausa ]
Almeida – E o maestro Guerra-Peixe, como era?
Sivuca – Guerra…? Ele gostava de brigar com todo mundo, era ranzinza, mas conosco, ou seja, somente com os seus dois principais alunos lá em Recife, que era eu e o maestro Clóvis Pereira. Ele se tornou um amigo, um grande irmão. Eu, de Guerra, só tenho boas lembranças. Aliás, tem um detalhe engraçado que eu estava comentando com a minha querida violinista Renata Simões e o meu querido empresário, Felippe Rosenburg… Quando eu cheguei na casa do Guerra, vi a sala cheia de moldura de quadro, mas somente as molduras sem nenhum quadro. Eu disse: “Guerra, o que é isso, sem quadro?” Ele disse, “É o seguinte: cada um pense no seu.” [ risos ] Esse era o Guerra-Peixe.

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