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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

Sivuca-940

Sivuca

parte 14/19

Eu usava “João e Maria” pra fazer serenata em Recife

Tacioli – Sivuca, o Chico fez a letra de “João e Maria”. Como foi seu primeiro contato com ele?
Sivuca – Foi através, é claro, da fama. Eu já o conhecia, mas quem me apresentou ao Chico foi o saudoso Paulo Pontes, teatrólogo, que estava organizando o repertório para uma apresentação que Elizeth Cardoso faria no Canecão. E uma noite, na casa dele, ele me apresentou o Chico e disse: “Sivuca, nós precisamos de uma música sua com o Chico pra o show de Elizeth Cardoso”. “Tá bem, vou pensar.” Um dia lá em casa, conheci o Chico, e ele foi muito feliz… Naquela época falamos de astrologia. “Ah, você é geminiano como eu?” Eu disse, “Pois é. O Paulo vai lhe entregar uma música”. Eu estava em casa, em casa não, lá no pequeno apartamento onde eu morava, e estava com o teclado ligado. Comecei a tocá-lo. Me lembrei da música, de um tema que eu havia escrito em 1947, “João e Maria”, não era “João e Maria” ainda, não. Glorinha ouviu e disse: “Sivuca, que música é essa tão bonita?” “Ah, Glorinha, é uma música que eu fiz em 47”.
Almeida – Ela não tinha título?
Sivuca – Não. Eu usava a música pra fazer serenata lá em Recife. Aí Glorinha disse, “Grave isso imediatemente e entregue ao Paulo Pontes pra passá-la ao Chico”. Eu gravei toda bonitinha, com a segunda parte e a mandei para o Paulo Pontes. E o Chico recebeu. Duas semanas depois, disse: “Sivuca, fiz uma letra pra essa música, mas agora ela não tem nada a ver com Elizeth Cardoso.” “Está certo.” Ele, por telefone, cantou com a letra. Eu fiquei mudo, sem saber o que dizer dada a surpresa da letra. A letra levou a música por um caminho completamente diferente do que eu pensava. “Chico, essa música é um primor, é não, virou um primor com essa letra.” “Pois é, que tal a Nara Leão gravar essa música?” “Vai ser maravilhoso.” “Mas quem vai fazer o arranjo é você.” “Tá bom, Chico.” Me encontrei com Chico e escrevi a música que até então não havia sido escrita. Levei pra casa, fiz o arranjo, gravamos a música. Ninguém esperava. A música no vinil que a Nara lançou era a de número 6 do lado B. E foi a música que levou o disco de Nara Leão ao sucesso. Aí, pronto, quatro anos depois, eu encontrei o Chico. “Poxa, Sivuca, a única música que nós fizemos como parceiros virou um carma na minha vida. Tenho que cantá-la sempre.” “Pois é.” Ele seguiu, “Vamos fazer mais.” Nunca mais a gente se encontrou, mas a música virou um clássico. E a gravação realmente ficou muito bonita. Foi feita com João Donato, teclado, Luizão Maia, contrabaixo, Meireles, flauta, eu, violão e sanfona, e o Paulinho Braga, bateria. Foi essa formação musical de “João e Maria” com Nara Leão e Chico cantado.

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Música instrumental
Sivuca
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