gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Sivuca

Sivuca-940

Sivuca

parte 13/19

O Brasil não precisa de imitação

Tacioli – Sivuca, dos músicos novos que estão tanto em rádio como lançando discos, quem lhe atrai musicalmente, quem você acha interessante?
Sivuca – Olha, tem muita gente boa aí. Por exemplo, aqui tem um grupo que está meio esquecido, mas é um grupo e tanto, que é o Pau Brasil, que me agrada muito. Tem um jovem pianista no Rio, que é um grande arranjador… O maestro Gilson Peranzzetta [n.e. Maestro, arranjador, compositor e pianista carioca (n. 1946), integrou nos anos 60 o grupo Samba Jazz]. O Nelson Ayres é muito bom. [n.e. Pianista, arranjador e compositor paulista (n. 1947), fundou o grupo instrumental Pau Brasil e foi regente da Orquestra Jazz Sinfônica] Enfim, sempre tem grandes revelações na música brasileira. A Paraíba, por exemplo, é um celeiro de bons músicos. Tem um sexteto de trombone que é incrível, que toca o impossível pra trombone. E tem bons cantores… Enfim, há uma juventude toda pronta pra continuar esse trabalho de sustentação da música brasileira, com influências da música estrangeira que, aliás, são necessárias, mas que não sejam imitações. O Brasil não precisa de imitação, o Brasil precisa de tendências e influências, e nós temos. A música no Brasil, como eu disse, é um grande encontro. Você ouve um Yamandú [n.e. Yamandú Costa, violonista gaúcho nascido em Passo Fundo, 1980] tocando um violão e você fica impressionado com a sua capacidade como instrumentista, e por aí vai…
Tacioli – Sivuca, qual foi o grande momento da música instrumental no Brasil?
Sivuca – A música instrumental sempre foi muito bem aqui no Brasil, desde o tempo dos Oito Batutas, com Pixinguinha, com Luperce Miranda, aquele povo todo. Agora, depois, veio a Turma da Gafieira, que foi a inserção do ingrediente jazzístico na música brasileira. Teve o Radamés, que foi um grande incentivador da música instrumental no Brasil; nós ainda podemos mencionar as big bands, as grandes orquestras – aqui em São Paulo havia o Silvio Mazzuca… [n.e. Pianista, compositor, arranjador e regente paulistano (1919-2003), tocou em inúmeras orquestras de rádio até fundar sua própria] E sem falar dos pequenos grupos… Dick Farney foi um grande pianista jazzista… [n.e. Cantor e pianista carioca (1921-1987), participou da primeira gravação da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Tom Jobim e Billy Blanco (1954) e, posteriormente, aliou-se à bossa nova ] Enfim, sempre no Brasil tivemos grandes expoentes da música instrumental.
Tacioli – Mas quando eu falo do melhor momento é em relação ao tocar em rádio, consumo de discos, exposição… Houve esse momento?
Sivuca – O sucesso instrumental sempre foi um pouco precário. A música instrumental é muito mais admirada por músicos e pessoas amantes da música do que pelo grande público. Porque de resto a mídia nunca foi muito generosa pra com a música instrumental como um todo. É natural isso, porque num país onde, vamos dizer assim, a música precisa de pelo menos 10% da atenção do futebol dada à sua música instrumental, não tem música que resista. Se nós tivéssemos uma mãozinha a mais da mídia, aí a música instrumental começaria a ter um progresso como essa frase muito em moda hoje, um progresso auto-sustentável. Mas isso é um fenômeno mundial. Uma vez eu conversava com o Ron Carter [n.e. Contrabaixista do jazz norte-americano. Tocou ao lado de Thelonious Monk, Miles Davis, Herbie Hancock, Art Farmer, Tom Jobim e Milton Nascimento], e eu reclamava o que as rádios geralmente tocam no Brasil é uma espécie de escória musical, que a verdadeira boa música brasileira nunca teve um espaço merecido no rádio estabelecido. Ele disse: “Sivuca, eu não sei se isso lhe serve de consolo, mas aqui nos Estados Unidos nós sofremos o mesmo. A música de jazz daqui não tem o espaço merecido”. Num dos grandes festivais de jazz que eu participei, lá na Suécia, os músicos de jazz local se queixavam amargamente que a mídia de lá só dava atenção aos músicos que iam dos Estados Unidos. E assim por diante. Tudo é uma questão de espaço que nós temos que ganhar, batalhando a pá e a picareta. Existem alguns músicos, poucos, conscientes desse problema. E eu, sem falsa modéstia, estou entre eles.

Tags
Música instrumental
Sivuca
de 19