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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

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Sivuca

parte 12/19

Os garotos precisam estudar teoria musical

Tacioli – Sivuca, você acha que a música erudita no Brasil pode ter um caráter popular?
Sivuca – Não só pode, como já é. Você tira, por exemplo, Villa-Lobos [n.e. Maestro, compositor e violoncelista carioca (1887-1959)], Radamés Gnattali [n.e. Pianista, regente, compositor e arranjador gaúcho (1906-1988)], o próprio Camargo Guarnieri [n.e. Autor paulista (1907-1993) de mais de 700 peças, entre canções, concertos e sinfonias, sempre aliando a música erudita à popular]. Eu, modestamente, estou tentando me inserir nessa família. Estou aí trabalhando pra ganhar um lugar no meio dessa família. A música brasileira tem todos os ingredientes pra se firmar como música, vamos dizer assim, erudita, através do choro, através da própria música nordestina e através de todos os ingredientes musicais, inclusive da música paulista e da música do Rio Grande do Sul. O Brasil é um país riquíssimo em música popular. É o grande encontro dos ingredientes musicais no mundo atualmente e quem entender isso vai fazer boa música no mundo.
Seabra – Sivuca, outro termo que se usa bastante é o da “música de raiz”. O que é isso pra você? Que raiz o músico tem que ter?
Sivuca – Olha, eu entendo que raiz é a origem da música, por exemplo, o choro, que é relativamente novo, não deixa de ser música de raiz. Afora o lado afro-brasileiro, afora o lado da moda de viola, o lado modinha brasileira, que é inspirada no fado de Coimbra, o frevo que é também novo, não deixa de ser música de raiz; o baião, que é inspirado nos repentes nordestinos. Tudo isso é música de raiz. A cantiga de roda é música de raiz. Todos esses ingredientes vistos e ouvidos como o espírito de compreensão musical, redunda numa música brasileira contemporânea da maior qualidade e da maior riqueza no ingrediente Brasil musical.
Max Eluard – Acho que o problema é a relação que o músico estabelece com essas raízes. Muitas vezes, essa raiz coloca uma camisa-de-força pro músico. O que você acha?
Sivuca – Eu acho que a maioria, notadamente, dos garotos precisa estudar um pouco de teoria musical, que é um ingrediente altamente necessário na formação musical. Porque a corrida pelo sucesso fácil não leva a nada, geralmente leva à um sucesso efêmero. Tem que saber pelo menos a música que sabe um Tom Jobim, que sabia um Luiz Eça [n.e. Pianista, compositor, professor e arranjador carioca (1936-1992), formou um dos trios mais famosos da bossa nova, o Tamba Trio], que sabe um Oswaldinho do Acordeon [n.e. Sanfoneiro carioca, começou a gravar no início da década de 1970 e logo ficou conhecido por fundir forró com música clássica, além de adicionar elementos de rock e blues à sua música]; enfim, pessoas que estudaram música e que sabem lidar com os ingredientes teoricamente. É isso que nos leva a um verdadeiro progresso musical, porque a tendência musical que leva a uma massificação que a mídia toma conta, torna-se efêmera, o sucesso vem e vai embora ali no meio do caminho. O estudo, o desenvolvimento musical torna-se necessário. Eu digo isso porque eu também passei pelo mesmo; fui, por muito tempo, músico sem estudar, naturalmente levando a sério todas as tendências, mas também me dando ao trabalho de queimar pestana e estudar teoria musical, estudar orquestração e, enfim, harmonia, fuga, contraponto, me preparar pra lidar com os ingredientes teoricamente.

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Música instrumental
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