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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

Sivuca-940

Sivuca

parte 11/19

A música é dividida em duas: a boa e a ruim

Felippe – Sivuca, esse momento da sua vida profissional, depois de ter percorrido tantos gêneros com tantos repertórios gravados e executados no Brasil e no mundo, como você caracterizaria essa vinda para o âmbito mais erudito?
Sivuca – Eu não diria que foi o último estágio da minha carreira, mas é uma espécie de um ponto culminante, de uma tendência natural. Sempre achei que a música chega a um ponto que é o máximo, que é o lado erudito, o sinfônico, ou como queiram chamar, é o refinado na música como um todo. Quando eu era adolescente, vamos dizer dos 18 aos 38 anos, sempre fui muito admirador da música sinfônica. E no meu estudo musical sempre procurei progredir como arranjador e orquestrador. Fui escrevendo, escrevendo, até que na década de 80 fiz a primeira orquestração para música sinfônica, que foi o Concerto Sanfônico para Asa Branca. Verifiquei que estava na minha praia e comecei a desenvolver esse lado. E a cada orquestração que eu fazia, uma experiência a mais vinha. Era como se fosse o nascimento depois de uma grande gestação de uma vocação musical natural minha. E é pra mim, vamos dizer assim, o ponto culminante de uma tendência musical minha. Isso me fez muito feliz e muito amadurecido musicalmente.
Felippe – Como testemunha de uma pequena parte da sua história, da década de 90 pra cá, eu notei algumas mudanças no seu jeito de falar de música, mas sempre uma manutenção de uma idéia fixa, que era em cima do instrumento, da sanfona. Eu me lembro quando você falava da falta de suingue dos músicos eruditos. Vou fazer uma pergunta provocativa para você, que é um dos baluartes do suingue da música brasileira e mestre em improvisação: você está perdendo o suingue indo pra erudição ou está com a pretensão de introduzir o pulsar, de dar uma suingada na erudição brasileira?
Sivuca – Eu estou me integrando ao mundo e à família dos músicos chamados de eruditos. Porque a música, essa história de erudição e de clássicos, são rótulos que vêm com o tempo, mas na realidade a música é dividida em duas: a boa e a ruim. A ruim se acaba e a boa fica e vira clássica. Agora, perder o suingue, eu não estou perdendo, porque suingue é como andar de bicicleta, a gente nunca esquece. Agora, eu estou tentando dar para as cordas um certo suingue. E até pela disciplina que eles têm, eles não têm aquele suingue. O que existe é uma integração a um ponto em que as cordas vêm de lá e eu vou de cá, e a gente se encontra.

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