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Entrevistas de música brasileira

Sivuca

Sivuca-940

Sivuca

parte 10/19

Participei da campanha O Petróleo é Nosso

Seabra – Sivuca, eu queria voltar, se você quisesse falar a respeito, sobre o que te levou a tirar uma carteirinha do Partidão?
Sivuca – Ideologia. Participei ativamente, garotão com 19, 20 anos, da campanha o Petróleo é Nosso; e lá em Recife eu tocava em comício, fazia discurso inflamado, chamava os americanos de imperialistas, essa coisa toda… E quando foi numa noite, eu estava meio de fogo no Bar da Brahma, lá em Recife, uma terça-feira de Carnaval, eu subi num tamborete e comecei a defender o petróleo… Aí chegou um daqueles caras que disse que eu era um subversivo… E eu, “Subversivo é a sua mãe”. Aí a polícia me prendeu e me levou pra Secretaria de Segurança. E o secretário: “Mas, Sivuca, que diabo veio fazer você aqui, rapaz? Eu gosto demais de você tocando sanfona.” Pegou e telefonou para o diretor da rádio: “Ó, o Sivuca está aqui. Estaria preso, mas eu não vou prender um homem desse. O que faço?” Aí o diretor, doutor Pessoa falou assim: “Solte ele, rapaz, mande ele pra casa”. Disse: “Ó, Sivuca, eu não quero mais ver você em comício nenhum aqui, porque da próxima vez – eu que sou seu fã – serei obrigado a prendê-lo. Vá pra casa!” Mandou dois soldados me levar em casa. “Sabe de uma coisa, ele tem razão. Essa história de política não leva ninguém a nada. Eu vou ficar na minha e pronto.” Foi a única vez em que estive numa delegacia de polícia.
Tacioli – Antes de ir pra Europa, o senhor falou que estava com alguns problemas aqui no Brasil. Aí eu li que o senhor foi demitido da Tupy porque participou de uma greve por melhores salários.
Sivuca – Os músicos entraram em greve e eu, como músico, me solidarizei com a classe. Eu saí daqui de São Paulo para o Rio e quando cheguei ao aeroporto, o diretor já estava esperando por mim pra acompanhar alguns artistas lá na rádio. Ele disse: “Olha, os colegas entraram em greve”. “Ah, é? Pois é o seguinte: diga ao doutor Calmon que eu não vou acompanhar ninguém. A rádio tem orquestra; me ponha como solista que eu passo a noite toda tocando, mas pra acompanhar cantor, estou tirando o lugar dos músicos. Não vou.” Aí cortaram todos os programas meus e eu fiquei confinado a um programa que começava às 7 horas da manhã. Era o programa de música sertaneja da Rádio Tamoyo. Seis meses depois havia terminado meu contrato e eu não tive mais o contrato renovado. Fiquei desempregado no Rio de Janeiro. Por isso fui pra Europa.
Tacioli – Sivuca, você não fala com mágoa por não ficar no Brasil.
Sivuca – Mágoa?
Tacioli – É.
Sivuca – Não, não. Eu não tenho mágoa de nada, nem de ninguém. Eu acho que o povo brasileiro foi sempre muito generoso comigo. Eu gosto de usar a palavra generosidade, porque é um dos dois ingredientes primordiais na música, ao lado do respeito pelo público. O Brasil todo foi muito gentil comigo. É claro, as instituições, as estações de rádio, a imprensa deram pra mim tudo que puderam. Agora, fui crescendo e sempre fui muito ambicioso e, de repente, cheguei num ponto em que precisava melhorar mais a minha condição de músico. E achei que um giro pelo mundo me daria muita experiência. Fui carimbar o meu passaporte musical no exterior. E quando cheguei de volta, realmente, cheguei com o maior prestígio. Não é que o povo ache nem nada, mas é que eu indo para o exterior, eu voltaria com mais prestígio. E não deu outra. Cheguei aqui e já gravei. Aprendi muito mais a ser profissional. Eu era um pouco maluco, vamos dizer assim, fiz algumas tolices, como profissional, inclusive. Mas esses dezoito anos em que passei fora do Brasil, aprendi a me comportar como profissional. E isso me valeu muito depois de volta ao Brasil.

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Música instrumental
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